sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Contos da Solidão - Reflexo projetado

- Eu te amo.
- Pára!
- Pára tu. Eu te amo! Com que saudade eu estava de ti...
- Cale a boca. Tu me viste hoje o dia inteiro; de qualquer jeito não desgrudas de mim.
- Mas não nesta forma. É nela que eu consigo estar mais perto de ti, na beleza silenciosa das madrugadas. Só nós... E as vezes em que não dormes em casa ou tem mais alguém no quarto, mesmo eu te acompanhando, são as que mais sinto tua falta à noite; porque por mais que eu continue aqui, na maior parte do tempo não podemos conversar assim.
- E tu te aproveitas da minha cama estreita, não é?
- Por que não o faria? Eu venho de ti e te pertenço mais do que qualquer coisa (riso contido). Nada se molda melhor ao teu corpo do que eu; tu sabes disso, pequena.
- Não me chame assim!
- Só ele pode, então?
- Isso mesmo.
- Como minha rainha quiser.
(Silêncio)
- Por que tu te fazes tão lindo/linda?
- Que pergunta é essa?
- Responda. Por que vocês são tão bonitos, tu e a moça?
- Porque simplesmente sou e assim tu o queres; faça-me eu homem ou mulher.
- Não pode ser verdade. Eu saberia.
- Mas o é. Olhe bem para mim e tu vais perceber. Sou como sou desde sempre, antes mesmo de tu notares que sempre estive aqui ou que eu tenha me dividido em feminina durante o dia e masculina à noite.
- É tão difícil te descrever; e no entanto tu és tão bonito. Assim como tua parte menina. Os olhos de sono, o sorriso fechado que só às vezes se abre e parece ter um segredo, a postura, o cheiro, a voz...
- Tu me fizeste quem sou; tudo aquilo que tu achas mais bonito, mais intrigante, mais atraente, algumas coisas de que tu nem desconfias ainda. Até por isso também sou mulher e cada vez mais me pões em palavras, escreves sobre mim e o que te sussurro.
- Quieto, guri! Tu est un mauvais garçon.
(Riso contido).
- Et tu est belle. Estou aprendendo devagarzinho contigo, esqueceste? Conheço as mesmas palavras; sei bem o que querem dizer.
- Melhor ainda.
- Ah, minha querida. Olha só como tu cabes à perfeição no meu colo... Aninhada quase que inconscientemente nele noite após noite, como se me buscasse. Tu gostas quando encosto o rosto no lado do teu pescoço, certo? Assim, para sentir a minha respiração.
(Suspiro de um. Riso abafado do outro.)
- Agora sei por que só muito raramente olho-me no espelho. Porque se prestar atenção nos meus olhos refletidos nele, vou te enxergar. E isso me deixa com medo. Tu me dás medo, faz-me sofrer, e, no entanto, não posso escapar de ti, porque vives dentro de mim. Humano (a), animal, tátil, etéreo, dúbio (a). Tu me viras a cabeça porque me repugnas e ao mesmo tempo não consigo deixar de desejar-te nessa tua maneira que não parece ser deste mundo.
- Tu me enxergas no espelho porque sou teu igual; porque embora eu tenha inveja desta correntinha pelo tato constante dela com a tua garganta e por descansar perto do teu seio como sei que só posso em horas como esta, estou no teu coração, na tua alma.
- Chega! Como tu gostas de brincar comigo... Eu não posso esquecer que grande parte do que tu falas é mentira.
- Pode até ser que eu minta como tu dizes, mas quem escolhe se acredita nas minhas palavras ou não é tu. Conheces meu jogo tão bem que não se importa de mover as peças quando sabes que a vez é tua. E, quase sempre, quem ganha somos nós dois. Como nos últimos dias...
- Tu és pior do que o diabo, se é que ele existe.
- A poesia tem sido teu deus; aquele no qual talvez sempre acreditaste, antes mesmo de escrevê-la. Tu és quem faz o que te dou parecer céu ou inferno, porque sou somente teu e incomparável, perfeito para ti. Epítome em constante aprimoramento.
- Como eu...
(Murmúrio de concordância.)
- O que só faz jus às horas em que me fazes mal; as horas em que te odeio e não sei dizer o que é verdade ou falsidade, amaldiçoando tua beleza e tua frieza tão quente, teu calor tão gelado. És o diabo pelo preço que me cobras nelas.
- Se é o que dizes, quem sou eu para discordar?
 - Não à toa tens tantas faces...
- Como tu. Deixa-me beijar-te, meu amor. Eu te amo.

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