sábado, 20 de setembro de 2014

Sobre ser gaúcho

Hoje é 20 de setembro, um dia muito importante para nós, que nascemos aqui no Rio Grande do Sul. Porque apesar de termos teoricamente perdido a guerra, não deixamos de ter bravura e amor por aquilo que somos, pelo lugar de onde viemos.
Gaúcho de verdade não é aquele que anda pilchado o ano inteiro (ou pior, apenas na Semana Farroupilha), mas aquele acima de qualquer coisa não esquece de onde veio; que leva as tradições consigo por onde passa; que tem dentro de si a coragem daqueles que lutaram na guerra de todos os lados, não desistindo de seus ideais; aquele que recebe quem chega com simpatia e naturalidade e sempre com um mate amargo e quentinho pra começar a conversa.
Aquele que aprecia a boa música e literatura local; que não se abate nas adversidades e sabe dizer palavras bonitas com sua natural dicção perfeita, apesar da simplicidade de muitos de seus modos; aquele que valoriza as coisas simples da vida, como comer um bom churrasco ao lado de amigos de longa data. Aquele que canta com orgulho o hino do seu Estado, e não tem vergonha de dizer que é gaúcho!
Letícia Bolzon Silva

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Detalhes

O tom de voz, a maneira de falar, o jeito de olhar. A risada, o jeito de sorrir, o formato dos dentes, da boca. A cor dos olhos e sua possível variegação, o formato e os cílios. As rugas, covinhas, tatuagens, manchinhas, o formato do rosto, do nariz, o tom da pele.
A cor do cabelo, o formato, o comprimento, a distribuição. Os ombros, as clavículas, o peso, a altura. Os antebraços, tendões, ossos em geral, veias, pêlos. Mãos, dedos, unhas. Costas, cintura, quadris. Músculos, pernas, pés.
Eu me atenho aos detalhes, às coisas que ninguém percebe. Porque as menores coisas muitas vezes são as mais belas, interessantes e importantes.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Sobre melhorar

Claro que sempre tento melhorar, mas para falar a verdade não tento fazê-lo por causa da opinião dos outros. Ela praticamente não me afeta.
Ninguém é obrigado a gostar daquilo que lê. Acho que o que mais importa é que ponho meu coração no que faço, ficando bonito ou não para os outros.
O que escrevo tem significado para mim e serve para os outros me conhecerem, se souberem ler as entrelinhas. Este é meu objetivo.

domingo, 14 de setembro de 2014

VI

Oi, meu querido.
O fato de essas cartas serem essencialmente egoístas e falarem basicamente de mim e de toda a escuridão, não significa que eu não me preocupe contigo, muito pelo contrário. Nunca se esqueça de que se você estiver bem, eu estarei também.
Quanto mais velha fico, mais compreendo que tenho um enorme número de defeitos terríveis, que me fazem machucar a mim mesma e aos outros sem que eu nem perceba. O que me questiono com relação a eles é se devo aceitá-los como parte de quem sou (quem é que eu sou mesmo?) ou se devo combatê-los de alguma forma, e como fazer isso.
Talvez isso e o fato de nada ser perfeito (quanto mais convivemos, maior a probabilidade de brigarmos e magoarmos uns aos outros) seja a razão de eu morrer de medo de ser cruel, acabar te perdendo e ficar te repetindo isso vezes infinitas.
Mas sei que nada disso é racional; independentemente do que aconteça, o que sentimos, o que construímos, é bem mais forte. Só não quero estragar tudo… Ainda mais porque o que sinto quando estou contigo é diferente de tudo o que já vivi.
Nada em mim tem sido sensato; é difícil sentir essa vontade de chorar e desistir de tudo.
Esta era para ser outra carta melhor, enfim. Obrigada por tudo, eu te amo.
Da tua irmã.

sábado, 13 de setembro de 2014

V

Oi, amor.
Esta é mais uma noite em que a insônia me faz companhia e eu resolvo te escrever outra vez. Escrevo por amor, por saudade, por necessidade. Talvez até para compensar as palavras que não surgiram para contar minhas histórias (seja pelo motivo que for).
Devagar algumas coisas estão entrando nos eixos, outras ainda estão longe de serem resolvidas. Para que tenhas uma noção, até mesmo o ato de terminar a leitura de um livro qualquer tem sido uma tarefa difícil; não tenho conseguido manter a concentração corretamente.
O nível de tensão por conta das guerras internas e externas atingiu um ponto tão crítico, que ontem, perto da hora do almoço, eu simplesmente desabei a chorar. Uma das partes envolvidas se sentiu um pouco ofendida e quis meio que se desculpar por estar aqui, coisas assim.
Mas o problema não é esse. É o barulho, é a discussão, é a falta de controle de um lado e do outro. De gente ansiosa que tenta acalmar quem está na pressão, acaba se metendo e não ajudando em nada quem na verdade precisa de paciência. E de quem na tentativa de que o outro fique quieto, só põe ainda mais gasolina no incêndio.
Realmente não aguentei mais e tive que dar um basta de algum jeito. Ninguém consegue ficar assim por muito tempo, pena que as pessoas não percebem isso. Chegou até a me dar uma tremedeira… Mas agora passou, pelo menos por enquanto. Espero que não se repita.
Andei preparando o terreno para botar as cartas na mesa assim que puder. Tomara que meus pais consigam entender e respeitem isso. E não adianta argumentar que o tempo passa, as coisas acontecerão quando tiverem que acontecer. O ponteiro gira onde quer que estejamos.
Assim eu sigo, dormente e ao mesmo tempo em estado de alerta. Na fronteira entre razão e emoção. Tentando solucionar as questões que ainda não possuem resposta. Respirando tranquila e ao mesmo tempo com o coração disparado pelo medo.
Torço para que estejas bem. Não vejo a hora de terminar o que precisa de um fim e de ouvir notícias tuas. Sinto saudade do meu irmão mais velho, rs. Te amo muito.
Da tua irmã.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

IV

Olá, querido.
Sinto falta do teu abraço. De como ele é diferente dos outros, de tudo o que já experimentei. É uma coisa natural para ti e para mim não tanto, mas é bom mesmo assim. Muito bom. Chego até a me abraçar na cama durante a noite, especialmente quando estou com medo, para ver se reproduzo a mesma sensação.
Sinto falta do modo como pegas minha mão, apertando de leve, com carinho, percorrendo os dedos, as veias salientes. De como isso quer dizer que tu te importas. Ou de como inocentemente repousas a tua em meu joelho, apenas para descansá-la. Ou ainda do formigamento agradável de quando acariciaste meu rosto daquela vez.
Sinto falta dos teus olhos, do perfeito tom de castanho que eles têm, do jeito amoroso como me olhas, mesmo quando eu choro. Da luz que eles adquirem quando nos encontramos pessoalmente depois de muito tempo. Com os anos desenvolvi uma espécie de receio em olhar as pessoas nos olhos, mas acho que contigo isso ainda pode mudar.
Sinto falta de ouvir a tua voz, muito embora meus monólogos muitas vezes te impeçam de falar (não tenha medo de me interromper e/ou mudar de assunto!). Tenho certeza de que com o tempo ainda desenvolveremos um código em que o silêncio será suficiente. Talvez isto já esteja acontecendo.
Sinto falta do teu sorriso e de como tu me fazes sorrir. De como consigo ao teu lado encontrar esses fachos de luz no meio da escuridão profunda. De perceber que por baixo das bobagens que falamos, estamos tentando nos entender, tocar nos assuntos sérios de um jeito que não doa tanto.
Até do teu perfume eu tenho saudade; tu tens cheiro de casa. De estar contigo, do tempo que tiras apenas para me ver ou escrever para mim quando poderia estar com qualquer um, fazendo qualquer coisa. Não sabes o quanto isso me faz feliz. Até nem sei por quê às vezes choro quando conversamos. Enfim.
Tudo é tão simples e tão bom, que mesmo sabendo que a distância não impede que cuidemos um do outro,essas coisas realmente fazem diferença para mim. Talvez para que eu tenha certeza de que são reais. Sei que contigo também é assim.
Eu te amo muito! Quero uma massagem nas costas assim que possível, se não for incômodo, rs.
Da tua irmã, tua neguinha.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

III

Olá, meu bem.
É muito terapêutico te escrever essas linhas, pois a disciplina de pôr palavras no papel é algo que tento exercitar sempre que possível; ainda mais na situação em que sabes que me encontro. Tentar nomear o que ainda não tem nome é a única maneira de fazer com que eu não acabe enlouquecendo pela falta de controle da minha própria mente.
Sempre tive uma escuridão muito grande dentro de mim; na verdade só percebi isso agora. Acumulei muitas coisas ruins durante a vida toda, vindas de ações, palavras, pressões sofridas, traumas, pensamentos… Mas conseguia seguir em frente, porque sempre havia algo maior adiante. Eu conseguia esquecer. Pelo menos era o que eu imaginava.
Confesso que isso é tão forte que realmente me paralisa. De vez em quando não tenho vontade de fazer nada, nem mesmo coisas que gosto. Nessas horas algo me diz para ficar deitada, imóvel, e chorar até os olhos arderem, só para ver se assim toda essa porcaria vai embora logo.
Eu sei que isso não resolve as coisas, mas as pessoas não têm noção do quanto é difícil. Nunca pensei que um dia chegaria a esse ponto. Me pego pensando em desistir, largar tudo. Não exatamente em morrer, porque talvez até da morte eu tenha medo, mas algo muito parecido com isso.
Agora tem tanta coisa acontecendo… E tudo o que eu achava que tinha conseguido superar está vindo com força total, tudo acumulado e transbordando. Sinto-me mais do que nunca frágil e insegura, alguém que perdeu todo o controle que um dia já teve sobre mente, corpo e espírito. Pensamentos horríveis me acometem durante a noite e até de dia; a mínima coisinha me assusta e sinto vontade de chorar quase o tempo todo. Aquele choro doído, do fundo mesmo, que te tira o ar.
Há alguns dias o status quo com revira-voltas e bate-boca tem me deixado nervosa a ponto de querer gritar para que todo mundo fique quieto, porque para mim já basta a minha própria psique destruída com a qual lidar. Mas ainda bem que parece que a tensão externa vai diminuir um pouco. Sei que isso soa egoísta, mas sabes melhor do que ninguém o que realmente quero dizer.
Por isso o que temos é tão incrível. Tu fazes umas perguntas certeiras, me arranca informações, me fazes dar nome aos bois. Tudo isso porque queres saber quem eu sou, e eu também quero, eu preciso saber. Tu vês em mim coisas que eu nem sei se fazem mesmo parte de mim. E isso é fantástico. Tu realmente cavocas em coisas que eu não tenho coragem nem de tocar.
A linguagem que desenvolvemos é realmente fora do comum! Quero um dia poder retribuir um pouquinho de tudo isso.
Por hoje é isso. Até amanhã, eu te amo.
Da tua irmã.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

II

Olá, meu coração.
Aqui estou eu de novo. Já tem virado rotina para mim te escrever cartas, mesmo sabendo que elas jamais serão enviadas. Tenho escrito todos os dias, pois tenho coisas demais dentro de mim, que precisam sair de alguma forma.
E como sabes minhas tentativas de escrever um diário que me fosse realmente útil falharam sem piedade. Talvez eu devesse ter feito como Anne Frank, que fez de seu diário uma amiga imaginária para a qual relatava coisas.
Talvez eu prefira escrever assim, como se tu fosses mesmo ler essas linhas, porque tu tens alguma coisa que me faz confiar o suficiente para dizer coisas que não me confesso nem mesmo olhando no espelho. E aquilo que é real e concreto muitas vezes é bem mais interessante do que todo o resto.
É incrível como o stress crônico detona a gente. Talvez o meu caso seja genético mesmo. Meu pai vive com os nervos à flor da pele e praticamente todo o lado da minha família que vem da minha mãe são pura ansiedade, nervosismo e “encheção de saco”.
Como se já não bastasse o que venho enfrentando sozinha, todos esses demônios internos acumulados que vêm se acumulando com o tempo, agora tem os problemas dos outros que se incluem no pacote e fazem com que haja barulho, brigas e coisa do gênero.
Sei que não é culpa de ninguém, só que é desconfortável viver assim, não estou acostumada a tanto movimento e loucura vinda de fora. Se já era difícil lidar com tudo sem ninguém mais por perto, imagina assim. E as diferenças entre nós, como por exemplo pessoas que acham que têm o controle de tudo (inclusive de coisas que podem e devem se resolver sozinhas) ajudam muito a atiçar os nervos.
Tudo o que eu desejo é essa solidão de volta, porque pelo menos com ela eu consigo pensar em paz nas coisas que tenho que resolver, as escolhas que tenho que fazer. Assim como mapear o que gera essa paranóia que vem me matando por dentro nos últimos tempos. Cada um no seu canto, sabe?
Outro dia tento te contar mais sobre o que está acontecendo na minha mente. Vou tentar usar minhas poucas horas de real sossego no status quo para te escrever de novo. Desde já te agradeço a paciência e o amor de sempre (até porque paciência é algo que tenho que desenvolver; tomara que as pessoas que eu encontrar pelo caminho me ajudem com isso).
Te amo e morro de saudade. Vem logo me dar um abraço! Tu tens meu coração e sei que cuida muito bem dele.
Da tua irmã.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

I

Oi, irmão.
Espero que esteja tudo bem contigo. Não se preocupe, tenho certeza de que andas ocupado (eu também, anda tudo uma bagunça, só pra variar) e sei que pensas em mim como penso em ti.
Mesmo que só daqui a algum tempo venhas a ler essas linhas, não pude resistir a escrever outra vez. Como sabes, consigo expressar melhor as coisas escrevendo do que falando. Sempre foi assim.
Enfim, guri. As guerras internas e externas estão se misturando… Mesmo que eu tente disfarçar a ansiedade e loucura vem de todos os lados e a impressão que tenho é de que estou dentro de uma panela de pressão prestes a estourar.
Sobre essas outras coisas nem vale a pena eu te contar, só sei que a tensão é permanente. Por causa disso percebi que a convivência social realmente gera conflito; o problema é quando não se sabe o que fazer com ele.
Tomara que a poeira baixe um pouco e logo; porque preciso do mínimo de paz possível para contar aos meus pais sobre minhas decisões, para que eles não pensem que elas são só por impulso e que as respeitem.
Agradeço desde já teu apoio, tu sabes o quanto é importante para mim tomar as rédeas da minha vida, apesar do medo do futuro.
Andei recebendo uns conselhos bem interessantes ultimamente, que espero conseguir seguir. São sobre eu ter paciência com os outros, como eu desejo que tenham comigo. Eu realmente preciso tentar praticar o necessário silêncio, ser mais racional como aquele rapaz que conhecemos… Torça por mim, me ajude!
Os fantasmas ainda vêm me perseguir quando eu menos espero. Só rezo para não acabar ficando louca, com os meus erros e medos sempre à espreita.
Por enquanto é só. Até a próxima carta. Sinto que ela virá em breve. Sinto saudades e te amo, obrigada por tudo.
Da tua irmã.

domingo, 7 de setembro de 2014

sábado, 6 de setembro de 2014

Não quero incomodar...

Geralmente, quando reencontro alguém que gosto depois de muito tempo, não falo sobre o que está acontecendo dentro de mim; a menos que a pessoa seja direta no assunto.
Talvez porque eu confie em poucos; talvez porque sinta que a pessoa pode não entender do que estou falando (se nem eu entendo, que dirá os outros!), mesmo que se importe comigo.
Talvez porque eu queira esquecer tudo isso por um momento. Talvez porque o outro pode estar com um problema mais grave ou urgente que o meu.
Além do mais, eu não quero incomodar…

Letícia Bolzon Silva

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Eu e as palavras

Aprendi a ler e escrever sozinha ao quatro anos de idade e sempre estive rodeada de livros, que li várias e várias vezes. Conforme eu crescia é claro que muitas coisas mudaram, mas o meu amor pelas palavras sempre esteve presente através de revistas e coisas assim.
O peculiar é que foi depois da adolescência que passei a ler cada vez mais e gostar cada vez mais dos livros, tanto é que hoje em dia é o que sugiro como presente nas datas especiais e estou adquirindo e lendo cada vez mais exemplares. Parece que se não tenho um livro interessante para ler, me sinto vazia, incompleta; e um dos meus sonhos é ter uma grande biblioteca em casa.
Se não fossem os livros eu certamente teria tido uma infância muito sem graça, sem histórias para contar, não teria imaginação. Se não fossem os livros, possivelmente eu também não gostaria de escrever, não estaria contando minhas próprias histórias e tentando publicar meu primeiro livro. Se não fossem os livros, minha mentalidade seria limitada e eu não conheceria tanta gente, tantos mundos, tantas épocas, tantas palavras novas. Possivelmente eu seria bem diferente do que sou hoje. Não me vejo longe dos livros e ficarei muito feliz se meu trabalho for reconhecido e/ou meus filhos herdem meu amor pelas palavras.

Letícia Bolzon Silva

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Eu, toda errada

Eu sou única e ao mesmo tempo comum como todas as outras. Sou tudo o que eu posso ser e você vê o que eu decido mostrar. Meu cabelo não é perfeito, minha cabeça é confusa, meu coração não sabe o que quer.
Vivo de sonhos iluminados e realidades obscuras. Se quiser saber quem eu sou, experimente conviver comigo e me decifrar de verdade, mas não se assuste; eu gosto muito de surpresas, a vida é feita delas.
Sou várias em uma só. Mudo constantemente e permaneço a mesma. Tenho dentro de mim todo tipo de sentimento e tudo o que eu mais desejo é que não palavras, e sim minhas escolhas e a sensibilidade humana possam me definir.
Letícia Bolzon Silva

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Sobre escrever

Não acho que as pessoas se tornem escritoras ou algo assim. Acho que ser escritor é como ser gay. Você não adquire essa ideia de uma hora pra outra. Ela simplesmente está lá, em algum lugar no seu interior, e em algum momento desabrocha como uma flor.
E ser escritor não é necessariamente ter um livro publicado, nem mesmo estar na lista dos mais vendidos. Escreva bem, escreva mal, se você consegue de alguma forma colocar uma palavra depois da outra no papel e aquilo faz sentido na sua vida (mesmo que depois de um tempo você ria de si mesmo), você é um escritor.
Até mesmo se só uma pessoa, ou só você, ler o que estiver escrito. Entendi isso com o passar do tempo.
Letícia Bolzon Silva

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Não, eu não estou bem

Quando as pessoas me perguntam como estou, não sei o que responder. Acho que nunca soube, ainda mais agora. Às vezes, como desde sempre, tenho vontade de dar a resposta mais fácil, assim encerro o assunto e o baile segue, porque ‘estou bem’. Outras vezes tenho vontade de contar a verdade, de dizer como realmente me sinto.
Mas aí percebo que tudo isso levaria tempo demais. 
Que mesmo que a pessoa se importe comigo e tente me ajudar, no fundo não vai dar em nada. Nenhum de nós vai saber o que fazer. Além do mais, os outros também têm seus problemas, com certeza não lhes agradaria fuçar na minha lama podre e acabar se sujando junto.
O que quer dizer que no fim, eu só posso contar com uns poucos, que se arriscam a ler as entrelinhas e não acreditar em tudo o que digo. E para as outras pessoas o que me resta é a resposta mais fácil.
Letícia Bolzon Silva

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O vaso na sala (ou deveria ser elefante?)

Às vezes penso em mim mesma como um vidro ou vaso que veio de fábrica com uma rachadura de alto a baixo. Ela era fininha no começo, só possível notar se chegasse bem perto (e quase ninguém chegava). Com o tempo e manuseio, a tal rachadura foi aumentando, até chegar um ponto em que o vaso simplesmente se partiu em dois. As duas metades foram remendadas, mas é claro que o objeto nunca mais foi o mesmo.
O vaso nunca mais foi o mesmo não só porque estava remendado, mas porque ele era derrubado no chão com cada vez mais frequência. Ele parecia ser valioso demais para ter os pedaços simplesmente jogados no lixo, mas com o tempo ele percebeu que se quebrava em pedacinhos cada vez menores, que paradoxalmente ninguém notava ou tentava juntar.
E se não quisesse ser jogado no lixo em definitivo (vá saber, até porque as pessoas às vezes se cortam em seus cacos afiados), o vaso entendeu que teria que juntar todas essas partes sozinho. Conviver com as próprias rachaduras, porque elas sempre estariam lá. Ter esperança de que ainda o achassem bom o bastante. Digno de permanecer na estante mais bonita da sala.
Letícia Bolzon Silva