sábado, 1 de agosto de 2026

A ignorância é uma bênção que merece mais a nossa gratidão

Não sei onde foi que se iniciou, esse hábito que pode ter virado defeito. Eu não era assim quando criança. Mas, em algum momento, eu deixei de estar aqui. Comecei a projetar o futuro e até a desejar já ser mais velha do que eu era. Não via a hora de completar 11 anos. Me pegava fazendo contas para ver em que ano eu completaria 14.

Ao contrário do que eu imaginei, minha vida não mudou da noite para o dia aos 14 anos. Não dá para dizer que nada mudou, mas essas mudanças foram por um lado profundas e por outro mundanas demais para corresponder ao ideal que eu tinha de mim mesma. A adolescência não foi a solução dos meus problemas e minha vida adulta está ainda longe de me dar uma que seja duradoura e fácil de identificar.

Fora a parte clássica de passar tempo demais no passado, de ter extrema facilidade de acessar memórias longínquas tanto boas quanto ruins e ser capaz de descrevê-las em detalhes. Talvez por isso minha idade interna de alma que no fundo sei ser velha não é apenas a de alguém mais jovem do que meu tempo cronológico.

Não apenas a de alguém que no fundo talvez ainda se ressinta tanto do que viveu e não pode ser mudado quanto do que não pôde viver e nada vai trazer de volta (pelo menos não do mesmo jeito). Talvez não apenas a de alguém que se sinta como uma criança pelo que tem tido que aprender sozinha, mas também de uma anciã que fala como quem já viu de tudo. Talvez eu tenha alma de criança e espírito de velho.

Foi provavelmente durante a época em que questionei praticamente toda a minha vida e fui forçada a enfrentar certas sombras que talvez eu tenha entendido, de algum modo primitivo, que o tempo era uma ilusão. Foi provavelmente lá que eu mais me culpei pelo passado e mais pensei no futuro sob a esfera do medo. E se não der certo? E se eu escolher errado? Onde eu estou? O que vai ser de mim? E não vou negar que ainda me faço essas perguntas. A diferença é que elas me assustam hoje sob um contexto diferente e, felizmente, um pouco mais sábio e tranquilo.

Ainda assim, acho que entendo um pouco do medo dos meus pais. Hoje tento focar mais nas pequenas coisas, repetidas ou não, que estou aos poucos entendendo serem sagradas. A companhia de um bom amigo, uma xícara de chá num dia frio, um banho bem tomado. Fazer o que me cabe um pouquinho a cada dia. Mas sim, eu entendo esse medo.

Vez por outra não consigo evitar me perguntar onde eu estarei daqui 10, 20, 30 anos. Se terei fugido de novo do meu caminho para viver a vida de outras pessoas. Quem estará comigo quando eu tiver que enterrar meus pais, porque eles só têm a mim. Se a minha paciência e trabalho de formiguinha terá dado algum fruto. Onde eu estarei morando. Se saberei escolher bem meu companheiro. Se viajarei bastante. Se poderei me vestir pelo menos um pouco como me vejo na minha cabeça. Se morrerei em paz ou com dor, entre amados ou sozinha.

Mas sei que, enquanto houver tempo, vou seguir tentando. Apreciando, descobrindo e escolhendo. Pode não estar visível (e na verdade é bom que não esteja), mas estou tomando minha vida nas mãos. E aprendendo que, o que eu não controlo, só me cabe observar.

01/08/2026 

quinta-feira, 30 de julho de 2026

A vida no reino do talvez é mais possível do que se imagina

Talvez eu tenha herdado os olhos castanhos do meu pai para que a luz do sol não me cegue tão facilmente. Talvez a minha barriga não seja chapada pela gestação contínua não da vida de filhos, mas sim de todas as vidas que eu mesma nasci merecendo viver.

Talvez eu seja pequenina de corpo para que a grandeza do meu espírito seja o que se sobressaia. Talvez eu tenha as unhas longas da minha avó para que as minhas mãos menores não me impeçam de arranhar paredes e grades que tentem me prender.

Talvez o meu cabelo tenha se ondulado e frisado da puberdade em diante como um lento, mas insistente, espelho da minha verdadeira natureza. Talvez eu tenha pisado na ponta dos pés por um tempo e há muitos anos esteja quase sempre pelo menos um pouco acima do chão porque nem todo solo mereça minha presença genuína.

Talvez minhas costas sejam largas pelo tamanho do meu fardo. Fardo que, talvez, seja compensado pelo amor e calor que mal se contêm em meus seios fartos ao ponto de estarem rasgados por estrias. Talvez eu tenha baixa tolerância ao frio porque minha alma abomine a frieza das vidas vazias de quem não se conhece direito.

Talvez eu ainda faça perguntas que sei que são bobas só pela satisfação de perceber que sempre soube a resposta. Talvez eu escreva porque tenha mais a dizer do que minha voz seja capaz de articular. Talvez eu seja impaciente com meus processos porque saiba que, no fundo, em algum lugar, eles já têm resultado. Principalmente aqueles nos quais eu realmente sigo minha intuição.

Talvez as coisas que vejo durante os sonhos e que se realizam na vida concreta sirvam mesmo para me mostrar não só as escolhas à minha volta, mas também o meu próprio caminho. Talvez os amigos que eu achei que tinha perdido sejam os que mais mereçam permanecer e, justamente por isso, ainda estejam aqui. Talvez, ainda que não perceba, eu seja a pessoa que mais pensa grande entre aqueles que me acham acomodada e teimosa.

Talvez eu fale e pense tanto por fazê-lo em nome de quem se foi para que eu ficasse e de quem só existe de verdade no campo das suposições.

30/07/2026 

sábado, 25 de julho de 2026

Quem é importante nunca morre e sim permanece no inesperado

 Me incluo entre aqueles que acham que as pessoas que mais amamos permanecem conosco de alguma forma depois da morte. Que alguém só desaparece quando é lembrado pela última vez, ou quando o último rastro deixado por essa pessoa finalmente desaparece.

Sou desses que de vez em quando ainda fala no clichê de que quem se vai se mantém vivo nas memórias e nos sentimentos. Mas vou além. Quem se vai permanece de formas sutis, nas quais a gente muitas vezes nem repara.

Eles permanecem nas unhas longas que nos caem melhor. Nos cabelos grossos. Nos óculos de grau com campo de visão maior. Nos olhos grandes e escuros. Nas duas palavras que de vez em quando ecoam na nossa cabeça. Nos trilhos de um trem. Em paredes de madeira. Naquela outra pessoa que nunca nos abandonou e nunca deixou de ter orgulho de nós. No mesmo ofício com instrumento diferente.

Eles permanecem na casa que no fundo sempre vai ser nossa. No vinho bom, na mariola e no pedaço de pudim. Na caligrafia que o tempo não comeu. Numa caixinha de madeira. No nosso olho apurado para o que de bonito, duradouro e gostoso a vida tem a oferecer. Numa caminhonete bege estacionada na rua. No jeito de fazer as coisas que se reconhece de longe. No privilégio de ser quem tem memórias dessas pessoas para contar.

Eles permanecem na verdade que uma hora acabou aparecendo. Na lembrança que não se tem e que se torna vazio consciente por um momento, mas que sempre existiu. No nome que não era só um nome. No fardo de viver certas coisas completamente sozinhos. No peso das expectativas e dos silêncios. Na nossa ânsia por algo mais e na nossa vocação. Na nossa sensação de incompletude que tentamos preencher do jeito errado.

Eles vivem nas promessas que a gente nem sabia que fez. Eles às vezes são mais importantes do que a gente imaginava… E não só porque nos damos conta do amor que carregamos por eles. Mas também porque, de um jeito ou outro, é por causa deles que ainda estamos aqui e somos quem somos.

25/07/2026 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Bate que eu aguento mas não esquece que a volta vem

Tenta me prender e vê se eu não mostro as garras e os dentes. Diz que eu não posso e vê se eu não faço melhor do que qualquer um. Me ofende e vê se não sente a minha indiferença. Diz que eu não presto pra nada e vê se eu não construo um império, tijolo por tijolo. Diz que eu não tenho opção a não ser ficar onde estou e vê se eu não acabo morando em outro país. Diz que eu sou ingênua e vê se eu não leio uma alma como quem lê uma revista.

Diz que eu não faço nada da vida e vê se não chega boleto e encomenda no meu nome. Diz que eu não amo e vê se eu não mato e morro por uma pessoa. Diz que eu não me importo e vê se eu não tenho ataque de pânico e vômito de tanta preocupação. Diz que só estão comigo por dinheiro e vê se quem já passou por mim conseguiu me esquecer. Diz que eu sou pequena e vê se eu não te mostro o meu tamanho.

Diz que não tenho força e vê se eu não sustento o meu peso e o do outro. Diz que eu não penso no futuro e vê se eu não faço grana render sem dizer uma palavra. Diz que eu não tenho legado e vê se eu não fiz testamento ainda em vida. Diz que eu não aguento a dor e vê se eu não cerro os dentes. Diz que eu não tenho direito a dar pitaco e vê se no fim não herdo por duas.

Diz que eu não posso saber e vê se eu não descubro. Diz que tá sendo sincero e vê se eu não acho a mentira. Diz que não sei me defender e vê se não chega um soco ou um chute. Diz que eu não tenho voz e vê se eu não me faço ouvir. Tenta cantar de galo e vê se eu não te coloco no lugar. Diz que eu sou criança sem noção e vê se não dá de cara com uma mulher que sabe exatamente do que tá falando.

Diz que eu não digo nada de útil e vê se eu não te desarmo com uma única frase. Diz que eu não sei sobre algo e vê se eu não volto citando referências. Diz que sabe o que é certo e vê se eu não te mostro o outro lado. Diz que não tem como eu me lembrar de algo e vê se eu não devolvo cada sílaba e cada imagem. Diz que sou inofensiva e vê se eu não arranco um pedaço de alguém. Diz que eu não desperto desejo e vê se não tem quem se desmanche sem eu precisar tocar.

Diz que eu sou só uma e vê se eu não me desdobro em mil.

 21/07/2026 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Ser diferente é nomal, mas ah, como dói...

 Dói cada vez mais se dar conta de que aquela sensação repentina de infância de “preciso ir embora daqui” não era ilusão de uma criança com raiva. Dói a consciência de se ver preso numa gaiola de paredes e medos que não são seus e não saber para onde ir. Dói se ver operando numa frequência completamente diferente das pessoas mais próximas e não conseguir se desprender delas.

Dói sentir a ânsia visceral por amor e saber que tornar a solidão em solitude é o que constrói as relações mais saudáveis. Dói perceber que por mais que a gente se cobre e que a vida externa nos cobre, cada um tem um relógio muito específico dentro de si. Dói passar uma vida sem saber quem são seus verdadeiros amigos. Dói entender que durante anos se fugiu do próprio caminho.

Dói lembrar do que nos prometeram e não se cumpriu. Dói ter chegado perto do que se queria só para que aquilo se mostrasse irreal. Dói não saber se é melhor conviver com gente mais jovem, mais velha ou da nossa idade. Dói presenciar pessoas que a gente gosta passando por desrespeitos que não toleramos mais, e poder fazer muito pouco ou quase nada.

Dói se trancar e afastar de quem a gente ama e achar que eles nos odeiam. Dói não saber direito o lugar que ocupamos na vida dos outros. Dói amar com profundeza e, ao mesmo tempo, duvidar do amor que sentem por nós e também do amor que sentimos. Dói precisar que gente de fora nos lembre que somos humanos. Dói quebrar os moldes nos quais tentam nos colocar. Dói notar-se com inveja de bicicletas e crianças que sobem em árvore.

Dói saber que se é amado, mas não sentir esse amor chegar até nós. Dói sentir medo de rejeição e de desamparo. Dói compreender que, do mesmo modo em que ninguém vive sozinho, ninguém poderá nos conhecer ou entender melhor que nós mesmos. Dói não fazer ideia de quem estará junto de nós nos momentos de maior dor e confusão. Dói estar mudando sem que aqueles que mais te amam nem te conheçam direito.

21/07/2026 

quarta-feira, 22 de julho de 2026

A tentação de se comparar é forte e ceder é o mesmo que beber veneno

 Não só através das redes sociais, mas na vida real como um todo, muito do que a gente vive é performance de algum tipo. E a verdade é que a gente só tem acesso a pedacinhos da verdade a cada vez - depende do quanto o outro está disposto a deixar de performar.

Às vezes é melhor nem ouvir falar daquela prima que tem tudo o que a gente gostaria de ter e vive tudo o que a gente gostaria de viver, e provavelmente com muito menos esforço, ou com um muito diferente do que nós teríamos que fazer. Porque, mesmo sem querer, ela desperta o pior de nós. A inveja mais terrível.

E, se não dá para evitar totalmente, o jeito é fingir que não ouviu, ou só sorrir e acenar.

Pessoas com menos recursos que nós olham para a nossa casa, para os objetos e confortos, e acham que somos ricos, que temos tudo. Mas não fazem ideia do tempo e dinheiro que aquilo custou, e que beleza no fundo é questão de bom gosto. Notam a nossa educação e inteligência e não sabem que elas foram moldadas a anos de curiosidade e bolsas de estudo com dois dedos de escola estadual puxada.

É verdade que nada material falta. Mas às vezes o que mais alimenta é aquilo do qual menos se tem.

A gente se cria junto de meninas em cuja casa sonhou por um momento em morar, só para descobrir na idade adulta que elas estavam em armadilhas muito parecidas com a nossa, e saíram como puderam. Que elas têm os mesmos hobbies e jeitos de escapar que você. Sente a falta de um bom companheiro olhando para o marido de alguém, e nota que, se achar foi sorte, manter dá trabalho. Percebe o tempo passando quando olha no espelho e acha que não fez nada, que não é nada, que não conseguiu nada.

Quem aprende bem a arte de não dar trabalho faz qualquer um jurar que sorrisos e habilidade de calar e de puxar assunto são coisas naturais e sempre boas. Que muitas vezes, dentro de uma cabeça, vive ou um inferno ou um paraíso muito mais rico em que finalmente tudo dá certo e tem sentido. Que uma palavra de gentileza exige força de parto para sair de dentes que vivem afiados.

Mas a verdade é que cada um tem sua cruz e seu perrengue. Cada escolha tem um preço e um contexto, assim como muitas coisas que a gente não escolhe. Todo mundo tem aquele momento e motivo de chorar escondido (para fora ou para dentro) ou de querer deixar tudo para trás de alguma forma. Todo mundo, ainda em vida, olha a morte nos olhos e é obrigado a fazer algo a respeito.

Ninguém tem sempre tudo o que quer, como quer e na hora que quer. E olhando para o rastro do outro, a gente esquece de que já pode estar cumprindo nosso destino.

21/07/2026 

terça-feira, 21 de julho de 2026

As coisas são mais simples do que parecem e só vê isso quem quer

Reclamar um pouco menos da vida já torna tudo melhor, ou pelo menos mais suportável. Vá lá fora e corra atrás da cachorra, ela é só mais uma criança querendo atenção. Nem tudo precisa estar o tempo inteiro nas mais perfeitas condições para ser importante. Um simples banho pode ser algo capaz de partir o coração e remendá-lo de novo. Pode haver mais amor num pedaço de pão dormido do que se imagina. Uma vida sem gritos é muito mais fácil de viver.

Não dá para consertar tudo, nem mandar nas escolhas de ninguém. Há pesos que, em sua essência, só nós mesmos ou o outro podem carregar. Ser útil demais quase sempre cobra um preço bem caro. Às vezes tudo o que se precisa é na verdade sair do ar-condicionado e pegar um vento quente de novembro. Talvez seja melhor puxar briga por pouca coisa do que passar o resto da vida engolindo sapos. Certos laços que a gente acha que já se desataram provavelmente são os que mais vêm resistindo aos testes do mundo e do tempo.

Estar perto das pessoas certas alivia o peso das costas e deixa um frio no corpo quando elas se vão. Às vezes vai doer estar certo sobre algo e não ter podido interferir. O que a gente chama de medo na verdade pode ter sido instinto primordial correto de não se envolver demais no que não é para ser nosso. Não dá para aceitar ser tapa ferida e segunda opção na vida de ninguém. Pode ser que seus avós te influenciem mais que seus pais, e perceber isso vai te surpreender (ou não). Tudo bem não gostar de comer certas coisas.

O que existe de mais importante e sério na vida, no fim das contas, não é nada que a gente leve conosco na hora da morte. Lembrar quem a gente era quando criança é o caminho mais luminoso para uma vida mais plena, e cuidar da criança que fomos é um trabalho que exige aprendizado e prática, mas que provavelmente compensa muito. É obrigação nossa fazer diferente de quem veio antes de nós. Ficar sem comer aquele bolo de chocolate específico faz diferença, sim. As respostas moram dentro de nós, mas se confirmam em todos os idiomas que o mundo sabe falar.

Na dúvida, coma algo, durma, tome um banho ou escreva.

21/07/2026

A ignorância é uma bênção que merece mais a nossa gratidão

Não sei onde foi que se iniciou, esse hábito que pode ter virado defeito. Eu não era assim quando criança. Mas, em algum momento, eu deixei ...