segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Perdoa, por favor, tudo o que eu não deixei de ser

Perdoa por eu ainda me importar tanto com o que os outros pensam. Perdoa eu precisar do verão e de roupas decotadas para lembrar que sou mulher, estou viva e tenho um corpo. Perdoa eu achar que crescer é deixar de querer e de sentir. Perdoa tantos me dizerem que tudo bem querer e sentir. Perdoa eu ser tão boa provavelmente não por querer, mas por ter medo daquilo no qual quebrar as regras implícitas pode me transformar.

Perdoa meu pânico quase doentio de constranger e ser desagradável. Perdoa por ver amor e amizade onde exista apenas convivência. Perdoa os meus desejos repentinos por comida que não tem em casa. Perdoa a ânsia do meu coração por amor e do meu corpo por calor e toque. Perdoa por às vezes ainda pensar que o mundo é dividido em preto e branco.

Perdoa as vergonhas que me deixei passar. Perdoa por eu me reconhecer como imperfeita e, mesmo assim, não abraçar meus defeitos. Perdoa os dias em que reclamo da vida e desejo ser qualquer pessoa, menos eu mesma. Perdoa eu continuar duvidando de tudo o que sou capaz. Perdoa os anos em que eu achei que o amor era simples e suficiente, principalmente sendo de um só tipo e vindo de um lado só.

Perdoa as palavras ditas sem pensar e as coisas que já pedi que são impossíveis de dar. Perdoa eu ser tão dura comigo e com aqueles que amo, mesmo sem querer. Perdoa se, em algum momento, a esperança me tirou demais da realidade. Perdoa eu não ter notado antes o que hoje é tão claro. Perdoa se não sou suficiente e por querer ser como todo mundo a ponto de me machucar.

Perdoa eu não conseguir me amar nem cuidar direito da criança que, no fundo, eu sempre serei. Perdoa eu viver tempo demais no passado e com medo do futuro. Perdoa eu temer tanto a luz e a escuridão quanto a vida e a morte, o amor e o ódio. Perdoa as partes de mim que seguem guardadas e a minha impaciência. Perdoa eu não ver em mim a mesma beleza que tantos enxergam. Perdoa eu continuar fugindo da minha própria sombra e daquilo que mais quero.

Perdoa presumir um nível de aspereza e cobrança onde no fundo existe carinho e presença. Perdoa se falta muito para que o broto se torne árvore plena de flores e frutos.

05/10/2026 

sábado, 26 de setembro de 2026

Tudo o que eu espero é estar crescendo com a vida

Espero estar aprendendo a falar o que me incomoda e o que me faz feliz. Espero estar reconhecendo e expressando o que eu quero. Espero estar sabendo identificar quem há de me acompanhar nos restos de tempo que tenho. Espero estar canalizando minha raiva com inteligência para construir minha vida. Espero estar me perdoando.

Espero estar aos poucos relaxando nos lugares que me propiciam esse milagre. Espero estar entendendo o poder das palavras que digo e deixo de dizer. Espero estar enxergando e amando as pessoas pelo que elas são, não por quem eu gostaria que fossem. Espero estar apreciando mais o fato de estar viva e o que de bom a vida tem a oferecer.

Espero estar me lembrando que o amor de ninguém vale jogar fora meu amor-próprio. Espero estar abandonando o que não mais me serve e toda a vergonha que não me pertença. Espero não estar mais tentando caber onde eu não tenho lugar, nem me rendendo sem lutar. Espero estar fazendo diferente com os erros e tomando nas mãos tudo de meu que for possível.

Espero estar vendo o valor de um silêncio antes de algo dito sem pensar. Espero estar sentindo o amor nas menores coisas, assim como onde ele não está. Espero estar perdendo o medo da vida, da morte, do amor e de tudo o que ainda considero fraqueza. Espero estar menos uma criança assustada, um objeto ou um espectro e mais como um ser humano inteiro dentro da sua pequenez, que não deixa de aprender nem foge da dor e da responsabilidade.

Espero estar fazendo o que vim aqui para fazer.

26/09/2026 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Os dias continuam os mesmos e ainda assim tanto já mudou

 Eu ainda moro na mesma cidade, na mesma casa, com os meus pais. Ainda não sei cozinhar. Não tive filhos, nunca me casei. Tenho dificuldade de achar trabalho fixo, ou pelo menos, recorrente. Ainda tenho tempo demais nas mãos por causa disso. Ainda escrevo poesia e diários também, ao sabor da inspiração e um pouco de silêncio mental.

Eu ainda fico muitos dias seguidos sem sair de casa. Anseio pelo amor pleno que não pude viver. Ainda sou aquela que tem poucos amigos próximos, que estão cada vez mais difíceis de manter. Ainda penso em sair daqui e construir uma vida mais independente e livre dentro das minhas limitações.

Ainda tenho os mesmos hobbies e escrevo sobre as mesmas coisas. Vivo lendo e estudando. Chocolate ainda é o doce que mais me satisfaz. Meu tipo para homens segue essencialmente o mesmo e brigo com a minha mãe do mesmo jeito de sempre. O parasita do Romantismo e do coração mole não foi embora da minha corrente sanguínea e do meu cérebro.

Mas tenho cada vez mais certeza de que o melhor para todos nós é que eu não more mais com eles. Sei que não quero ter filhos, mas também que um relacionamento decente e ter vida fora dele devem ser minhas prioridades. Penso em cozinhar e no que gostaria de comer. Sei no que quero trabalhar, o quanto sou boa nisso e o quanto ainda posso melhorar, se me derem chance. Uso meu tempo para aprender e tentar não enlouquecer. Aquilo que eu escrevo está mais honesto e visceral do que nunca.

Prefiro ficar em casa do que ir a lugares só por ir e estar com gente que me esgota, mas os dias de sol e as pessoas certas com certeza me renovam. Entendo que cada amor que eu vivo, ainda que de longe, é um aprendizado. Que mais vale um amigo leal e que me levanta e não desiste de mim do que muitos que nunca viram a minha sombra. De pouco em pouco estou entendendo como posso garantir o meu futuro.

Os temas se repetem, mas com cada vez mais consciência e profundidade. Tenho noção do que me interessa e das minhas facilidades, mas isso não me impede de ir atrás de coisas novas. Nenhum bolo de chocolate no mundo vai ser igual ao da minha avó. O meu tipo para homens inclui também as mulheres. Sei bem por que brigo com a minha mãe, e não quero viver o resto da vida assim. Meu Romantismo hoje convive com uma combinação estranha de paranoia e noção realista de que as relações dão trabalho.

Eu posso achar que não, mas, ao que parece, estou mesmo crescendo. 

14/09/2026 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Sou mesmo uma boa pessoa ou é assim que eu quero que me enxerguem?

Eu me importo mesmo com o sofrimento e a alegria dos outros? Sou movida mesmo pelas tristezas deles? Tenho interesse genuíno em fazer companhia e favores a eles, independentemente do que acontecer depois? Sinto amor verdadeiro e sou capaz de demonstrá-lo de verdade? As conquistas de quem eu amo realmente me alegram?

Eu sei mesmo conversar? Sei ouvir? Tenho inteligência emocional ou só sei falar de forma profunda e rebuscada? Estou mesmo ajudando ou só querendo consertar tudo e todos? Sei acolher quem erra ou só apontar os erros e defeitos? Sei mesmo perdoar ou no fim das contas guardo rancor por tudo? Quero só compreensão ou intimidade genuína?

Sou mesmo otimista ou só mais uma iludida? Estou respeitando meu destino ou insistindo no que não tem futuro? Tenho capital cultural e refinamento ou sou só mais uma metida? Sou resiliente ou apenas teimosa? Tenho talento ou só sou esforçada? Sinto real empatia e simpatia ou só falo o que as pessoas querem ouvir? Reconheço meus erros ou só invento desculpas e aponto para o outro lado?

Amo as pessoas pelo que elas são ou pelo que fazem por mim? Me importo com o que elas sentem ou só por como me fazem sentir? Sou responsável e justa ou quero parecer boazinha e obediente? Sei ser abrigo ou apenas desterro? Consigo conviver com o diferente ou sou só mais uma alienada e egoísta? Amadureci cedo ou só fiquei fria e amargurada? Sou atraente mesmo ou só quero me sentir assim?

Sei ser eu mesma ou só mostrar o que quero que vejam?

 

01/09/2026 

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Saber o que não queremos pode ser o passo mais acertado do caminho

Eu sei que não quero viver de ego ou de aparências. Não quero que minha inteligência e anos de estudo fiquem guardados só comigo e não tenham nada a oferecer além de respostas prontas. Não quero me esconder para sempre da minha própria sombra. Não quero passar o resto da vida sem saber o que é um lar e uma família onde eu sinta que tenha um lugar.

Sei que não quero morrer sem sentir que vivi e que tive nas mãos o máximo possível de mim mesma. Não quero morrer sem ter aprendido a me amar nem a deixar de ter medo do mundo. Não quero ficar em lugares onde eu não tenha presença, voz ou importância genuínas. Não quero que mais anos passem em que eu simplesmente me deixo levar pelas circunstâncias.

Não quero que o melhor de mim seja subutilizado e não sirva para comprar minha liberdade. Não quero viver uma vida em que tudo me é dado nas mãos e eu não conquiste coisas por mérito próprio. Não quero que o amor seja algo que eu experimente apenas de longe ou de forma parcelada. Não quero que as partes mais bonitas e importantes de mim fiquem escondidas e não possam se expressar.

Não quero agir como quem não tem noção da realidade, das próprias limitações ou como se eu fosse perfeita. Não quero que determinem como eu devo viver nem fazer isso com ninguém. Não quero morrer sem ter aprendido a ser uma pessoa funcional para a sociedade. Não quero me afastar do que e de quem possa me fazer bem. Não quero viver cercada de gritos e cobranças. Não quero cair sem lutar.

Isso tem que servir para alguma coisa.

28/08/2026 

terça-feira, 4 de agosto de 2026

A vida é feita de muitos medos e de várias coragens também

Eu sou a pessoa que tem medo de nunca encontrar seu lugar. De nunca poder sair de onde está. Que tem medo de falar do que não gosta porque não quer ver cara feia. De insistir no que sabe que deseja por medo de que dê errado e, por incrível que pareça, medo do que a mãe vai dizer.

Sou a pessoa que tem medo de não ter tempo o bastante para mudar a própria vida. De nunca ser o suficiente para ninguém. De machucar as pessoas para além do que pode ser reparado. Medo de que, se eu não encontrar um jeito de demonstrar força, o mundo inteiro vai me ver como fraca e pequena.

Eu sou a pessoa que tem medo de ficar sozinha. Que precisa que gente de fora a lembre da sua própria humanidade e merecimento das coisas. Que já foi forçada a perceber que tem sombras, mas ainda hesita em olhar para a maior parte delas sem uma dose de nojo. Que tem medo que seus esforços nunca deem resultado. Que dizer não a faça parecer egoísta e cruel.

Mas eu também sou a pessoa que esquece de olhar para o que tem e até onde chegou. Que, talvez mais de uma vez, contemplou a morte e ainda assim escolheu viver. Que sabe que ainda tem muito a fazer porque não foi feita para pouco. Que não quer perder os olhos de criança para com o mundo, nem que a própria confiança seja apenas uma fachada.

Eu sou a pessoa que no fundo sabe o tamanho que tem. Que tenta, o máximo possível, não se desviar mais do próprio caminho. Que prefere, sempre que pode, não se encolher mais para caber no que não é seu. Que jamais implorou para que alguém ficasse, mesmo quando ainda acreditava no para sempre. Que se fortalece perto de poucos, bons e certos, em vez de se ligar a volume, ruídos e laços de sangue pura e simplesmente.

Eu sou a pessoa que entende que nada de valioso vem sem atitude, constância e paciência. Que há muito sente que não está aqui para fazer o que todo mundo faz. Que, mesmo sem se dar conta, já aprendeu mais e já ultrapassou limites dos quais muitos nem fazem ideia. Que está aprendendo que é melhor ter fama de má do que perturbar a própria paz. Que vem juntando os grãozinhos para o futuro.

Sou a pessoa que talvez um dia absorva que nem tudo o que dizem sobre ela é verdade. Que, por puro despeito, não deixa que ninguém lhe diga o que ela pode ou não pode fazer. Que aos poucos vem desapegando do que passou e do que não importa mais. Que corre atrás do que quer e ama de forma sincera mesmo que demore a admitir. Que não vê a hora de se sentir bem na própria pele.

Talvez isso também seja coragem, afinal.

04/08/2026 

sábado, 1 de agosto de 2026

A ignorância é uma bênção que merece mais a nossa gratidão

Não sei onde foi que se iniciou, esse hábito que pode ter virado defeito. Eu não era assim quando criança. Mas, em algum momento, eu deixei de estar aqui. Comecei a projetar o futuro e até a desejar já ser mais velha do que eu era. Não via a hora de completar 11 anos. Me pegava fazendo contas para ver em que ano eu completaria 14.

Ao contrário do que eu imaginei, minha vida não mudou da noite para o dia aos 14 anos. Não dá para dizer que nada mudou, mas essas mudanças foram por um lado profundas e por outro mundanas demais para corresponder ao ideal que eu tinha de mim mesma. A adolescência não foi a solução dos meus problemas e minha vida adulta está ainda longe de me dar uma que seja duradoura e fácil de identificar.

Fora a parte clássica de passar tempo demais no passado, de ter extrema facilidade de acessar memórias longínquas tanto boas quanto ruins e ser capaz de descrevê-las em detalhes. Talvez por isso minha idade interna de alma que no fundo sei ser velha não é apenas a de alguém mais jovem do que meu tempo cronológico.

Não apenas a de alguém que no fundo talvez ainda se ressinta tanto do que viveu e não pode ser mudado quanto do que não pôde viver e nada vai trazer de volta (pelo menos não do mesmo jeito). Talvez não apenas a de alguém que se sinta como uma criança pelo que tem tido que aprender sozinha, mas também de uma anciã que fala como quem já viu de tudo. Talvez eu tenha alma de criança e espírito de velho.

Foi provavelmente durante a época em que questionei praticamente toda a minha vida e fui forçada a enfrentar certas sombras que talvez eu tenha entendido, de algum modo primitivo, que o tempo era uma ilusão. Foi provavelmente lá que eu mais me culpei pelo passado e mais pensei no futuro sob a esfera do medo. E se não der certo? E se eu escolher errado? Onde eu estou? O que vai ser de mim? E não vou negar que ainda me faço essas perguntas. A diferença é que elas me assustam hoje sob um contexto diferente e, felizmente, um pouco mais sábio e tranquilo.

Ainda assim, acho que entendo um pouco do medo dos meus pais. Hoje tento focar mais nas pequenas coisas, repetidas ou não, que estou aos poucos entendendo serem sagradas. A companhia de um bom amigo, uma xícara de chá num dia frio, um banho bem tomado. Fazer o que me cabe um pouquinho a cada dia. Mas sim, eu entendo esse medo.

Vez por outra não consigo evitar me perguntar onde eu estarei daqui 10, 20, 30 anos. Se terei fugido de novo do meu caminho para viver a vida de outras pessoas. Quem estará comigo quando eu tiver que enterrar meus pais, porque eles só têm a mim. Se a minha paciência e trabalho de formiguinha terá dado algum fruto. Onde eu estarei morando. Se saberei escolher bem meu companheiro. Se viajarei bastante. Se poderei me vestir pelo menos um pouco como me vejo na minha cabeça. Se morrerei em paz ou com dor, entre amados ou sozinha.

Mas sei que, enquanto houver tempo, vou seguir tentando. Apreciando, descobrindo e escolhendo. Pode não estar visível (e na verdade é bom que não esteja), mas estou tomando minha vida nas mãos. E aprendendo que, o que eu não controlo, só me cabe observar.

01/08/2026 

Perdoa, por favor, tudo o que eu não deixei de ser

Perdoa por eu ainda me importar tanto com o que os outros pensam. Perdoa eu precisar do verão e de roupas decotadas para lembrar que sou mul...