Eu sou a pessoa que tem medo de nunca encontrar seu lugar. De nunca poder sair de onde está. Que tem medo de falar do que não gosta porque não quer ver cara feia. De insistir no que sabe que deseja por medo de que dê errado e, por incrível que pareça, medo do que a mãe vai dizer.
Sou a pessoa que tem medo de não ter tempo o bastante para mudar a própria vida. De nunca ser o suficiente para ninguém. De machucar as pessoas para além do que pode ser reparado. Medo de que, se eu não encontrar um jeito de demonstrar força, o mundo inteiro vai me ver como fraca e pequena.
Eu sou a pessoa que tem medo de ficar sozinha. Que precisa que gente de fora a lembre da sua própria humanidade e merecimento das coisas. Que já foi forçada a perceber que tem sombras, mas ainda hesita em olhar para a maior parte delas sem uma dose de nojo. Que tem medo que seus esforços nunca deem resultado. Que dizer não a faça parecer egoísta e cruel.
Mas eu também sou a pessoa que esquece de olhar para o que tem e até onde chegou. Que, talvez mais de uma vez, contemplou a morte e ainda assim escolheu viver. Que sabe que ainda tem muito a fazer porque não foi feita para pouco. Que não quer perder os olhos de criança para com o mundo, nem que a própria confiança seja apenas uma fachada.
Eu sou a pessoa que no fundo sabe o tamanho que tem. Que tenta, o máximo possível, não se desviar mais do próprio caminho. Que prefere, sempre que pode, não se encolher mais para caber no que não é seu. Que jamais implorou para que alguém ficasse, mesmo quando ainda acreditava no para sempre. Que se fortalece perto de poucos, bons e certos, em vez de se ligar a volume, ruídos e laços de sangue pura e simplesmente.
Eu sou a pessoa que entende que nada de valioso vem sem atitude, constância e paciência. Que há muito sente que não está aqui para fazer o que todo mundo faz. Que, mesmo sem se dar conta, já aprendeu mais e já ultrapassou limites dos quais muitos nem fazem ideia. Que está aprendendo que é melhor ter fama de má do que perturbar a própria paz. Que vem juntando os grãozinhos para o futuro.
Sou a pessoa que talvez um dia absorva que nem tudo o que dizem sobre ela é verdade. Que, por puro despeito, não deixa que ninguém lhe diga o que ela pode ou não pode fazer. Que aos poucos vem desapegando do que passou e do que não importa mais. Que corre atrás do que quer e ama de forma sincera mesmo que demore a admitir. Que não vê a hora de se sentir bem na própria pele.
Talvez isso também seja coragem, afinal.
04/08/2026