quarta-feira, 22 de julho de 2026

A tentação de se comparar é forte e ceder é o mesmo que beber veneno

 Não só através das redes sociais, mas na vida real como um todo, muito do que a gente vive é performance de algum tipo. E a verdade é que a gente só tem acesso a pedacinhos da verdade a cada vez - depende do quanto o outro está disposto a deixar de performar.

Às vezes é melhor nem ouvir falar daquela prima que tem tudo o que a gente gostaria de ter e vive tudo o que a gente gostaria de viver, e provavelmente com muito menos esforço, ou com um muito diferente do que nós teríamos que fazer. Porque, mesmo sem querer, ela desperta o pior de nós. A inveja mais terrível.

E, se não dá para evitar totalmente, o jeito é fingir que não ouviu, ou só sorrir e acenar.

Pessoas com menos recursos que nós olham para a nossa casa, para os objetos e confortos, e acham que somos ricos, que temos tudo. Mas não fazem ideia do tempo e dinheiro que aquilo custou, e que beleza no fundo é questão de bom gosto. Notam a nossa educação e inteligência e não sabem que elas foram moldadas a anos de curiosidade e bolsas de estudo com dois dedos de escola estadual puxada.

É verdade que nada material falta. Mas às vezes o que mais alimenta é aquilo do qual menos se tem.

A gente se cria junto de meninas em cuja casa sonhou por um momento em morar, só para descobrir na idade adulta que elas estavam em armadilhas muito parecidas com a nossa, e saíram como puderam. Que elas têm os mesmos hobbies e jeitos de escapar que você. Sente a falta de um bom companheiro olhando para o marido de alguém, e nota que, se achar foi sorte, manter dá trabalho. Percebe o tempo passando quando olha no espelho e acha que não fez nada, que não é nada, que não conseguiu nada.

Quem aprende bem a arte de não dar trabalho faz qualquer um jurar que sorrisos e habilidade de calar e de puxar assunto são coisas naturais e sempre boas. Que muitas vezes, dentro de uma cabeça, vive ou um inferno ou um paraíso muito mais rico em que finalmente tudo dá certo e tem sentido. Que uma palavra de gentileza exige força de parto para sair de dentes que vivem afiados.

Mas a verdade é que cada um tem sua cruz e seu perrengue. Cada escolha tem um preço e um contexto, assim como muitas coisas que a gente não escolhe. Todo mundo tem aquele momento e motivo de chorar escondido (para fora ou para dentro) ou de querer deixar tudo para trás de alguma forma. Todo mundo, ainda em vida, olha a morte nos olhos e é obrigado a fazer algo a respeito.

Ninguém tem sempre tudo o que quer, como quer e na hora que quer. E olhando para o rastro do outro, a gente esquece de que já pode estar cumprindo nosso destino.

21/07/2026 

terça-feira, 21 de julho de 2026

As coisas são mais simples do que parecem e só vê isso quem quer

Reclamar um pouco menos da vida já torna tudo melhor, ou pelo menos mais suportável. Vá lá fora e corra atrás da cachorra, ela é só mais uma criança querendo atenção. Nem tudo precisa estar o tempo inteiro nas mais perfeitas condições para ser importante. Um simples banho pode ser algo capaz de partir o coração e remendá-lo de novo. Pode haver mais amor num pedaço de pão dormido do que se imagina. Uma vida sem gritos é muito mais fácil de viver.

Não dá para consertar tudo, nem mandar nas escolhas de ninguém. Há pesos que, em sua essência, só nós mesmos ou o outro podem carregar. Ser útil demais quase sempre cobra um preço bem caro. Às vezes tudo o que se precisa é na verdade sair do ar-condicionado e pegar um vento quente de novembro. Talvez seja melhor puxar briga por pouca coisa do que passar o resto da vida engolindo sapos. Certos laços que a gente acha que já se desataram provavelmente são os que mais vêm resistindo aos testes do mundo e do tempo.

Estar perto das pessoas certas alivia o peso das costas e deixa um frio no corpo quando elas se vão. Às vezes vai doer estar certo sobre algo e não ter podido interferir. O que a gente chama de medo na verdade pode ter sido instinto primordial correto de não se envolver demais no que não é para ser nosso. Não dá para aceitar ser tapa ferida e segunda opção na vida de ninguém. Pode ser que seus avós te influenciem mais que seus pais, e perceber isso vai te surpreender (ou não). Tudo bem não gostar de comer certas coisas.

O que existe de mais importante e sério na vida, no fim das contas, não é nada que a gente leve conosco na hora da morte. Lembrar quem a gente era quando criança é o caminho mais luminoso para uma vida mais plena, e cuidar da criança que fomos é um trabalho que exige aprendizado e prática, mas que provavelmente compensa muito. É obrigação nossa fazer diferente de quem veio antes de nós. Ficar sem comer aquele bolo de chocolate específico faz diferença, sim. As respostas moram dentro de nós, mas se confirmam em todos os idiomas que o mundo sabe falar.

Na dúvida, coma algo, durma, tome um banho ou escreva.

21/07/2026

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Resolução

De noite ou de dia,
Só porque gostava,
Só porque podia,
Me escolhia,
Me devorava
Como o que mais sacia.

Uma e outra vez
Me buscava
Ou de pequeno me olhava
Mas jamais resistia
À minha peculiar acidez
E assim mesmo, devagar
Sem hesitar
Sem força, mas com magia
- pois sou macia -
Me despia,
Me tomava
Em nobre altivez.

E ali me desfazia
Enquanto enchia
E guardava
No que se fecha
A revelia
Do que atinge como flecha
E gaba
Da sua pequenez.

24/04/2026

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Sublime

Pela palma da mão
que o destino decreta
como serenata
o amor que mal se notava
na palavra não dita
agora grita
e faz chorar de alegria
em bacia,
chuva e escuridão
e mostra sua mais fina obra
digna de se louvar
num pedaço de pão
de dia que renasce e sobra.
 
28/01/2026 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Cifra II

Talvez
por uma letra
conheci mais de ti
sem mesquinharia
depois de anos de ausência
do que se ainda estivesses aqui,
e aquela porta
se abrisse outra vez
e eu voltasse a ser criança
na casa tua e também minha.
 
18/01/2026  

domingo, 18 de janeiro de 2026

Cifra I

Aqui está ele...
 
Na mão que te afaga
o rosto,
o pescoço,
a boca,
os cabelos.
 
Nos olhos que choram
e na voz que respira
para que me olhes,
para que fiques,
mesmo no instante mais próximo.
 
No corpo que se aquece
e enfim relaxa
quando entre teus braços -
na saudade,
no desejo
e na ânsia
dos beijos.
 
No medo
que o mal te toque,
que o escuro
te tire a paz,
que o destino
te evapore.
 
Na pele que se despe
ainda que apenas
para estar junto da tua
ou para, por um momento,
te pertencer
e buscar o que quer.
 
Aí está o meu amor.
 
Tu tens olhos... Tu o vês?
Tu tens corpo... Tu o sentes?
 
18/01/2026 

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Mysterium fidei

Como é que pode
se sentir mais viva
na hora da morte
em ai e em ode
enquanto escorre
feito derrubada torre
sem corte
nem ferida?
 
09/12/2025 

A tentação de se comparar é forte e ceder é o mesmo que beber veneno

 Não só através das redes sociais, mas na vida real como um todo, muito do que a gente vive é performance de algum tipo. E a verdade é que a...