sábado, 16 de fevereiro de 2019

Encurralar

A tinta marca
em ferida
a faca
cada coisa linda, feia, boa
e louca
que ficou na boca
ou saiu sem ser ouvida.

15/02/2019

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Das palavras que nos fazem

Ando reparando que as minhas palavras favoritas em inglês são bastante sugestivas e dizem muito sobre mim, mesmo que não exatamente retratem uma realidade visível e que ela na verdade possa ser expressa principalmente em termos bem diferentes.

Não que eles não façam sentido, mas o fato de que as de cunho mais forte têm ficado impedidas de se manifestar como devem e merecem me obriga a lembrar de que sou e posso ser tudo o que todas essas palavras evocam. E tudo o que sinto me ser destinado.

15/02/2019

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

XVII

Oi, meu amor.

Embora quase sempre apareças quando eu mais preciso de alguém, juro que não é só quando a carência bate que me fazes falta. Começo a sentir saudades de ti já do momento em que tens que ir embora.

Por tudo o que fazes por mim. Por tudo o que eu quis e quero fazer por ti, se eu for atenta e generosa o bastante e se o tempo permitir. Pelos dias em que essa saudade fica mais forte - tanto pelas minhas inseguranças quando pelo simples fato de eu me perguntar o que estás fazendo e se estás bem, neste caminho sinuoso e acidentado que sei ser parecido com o meu.

Talvez o bom da saudade seja a capacidade de manter aqueles que amamos sempre ao alcance nas portas da memória. De certa forma, a distância faz com que permaneças perto, apesar de tudo o que eu não sei... E só me faz valorizar tua presença e saber mais de quem és, foste e serás.

Espero pelo dia em que, mesmo co o coração partido pela melancolia na tua voz ao dizer que queria que eu ficasse mais um pouco, eu posso dizer que sim num sorriso. Porque o teu desejo só corrobora o meu - só resta fazer acontecer.

Nem que seja para dar um pouco de coragem e adiar a chegada da saudade. Não porque tenhas algo que falte em mim, mas pelo que acrescentas e do que me lembras.

Com carinho,

Da tua amiga.

14/02/2019

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Refinement

Before you
I never knew
how wonderfully true
everything I say, do
and my tears bedew

for men of present, dream and past
would come about and last
like the hex only ink can cast

towards the brightest moon
maybe a little bit too soon
to own night, morning and afternoon

and be just as eternal,
intense and carnal
from the pages of a journal
to a breath that smells like sandal,
a mouth as soft as a rose petal!

09/02/2019

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Payback

When there comes a day
like today
I don't know what to say
or how to pay...

For all the flames that still burn,
the evils a heart can discern
while looking out for its turn
to do all to which it was born.

For gaining you, dearest muse
to whom nothing I would refuse
whenever given the excuse -
neither burdened, nor bruised.

And getting closer to the truth
that what counts is a heart's youth -
keep it under claw and tooth
for all the pain it can soothe.

09/02/2019

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Parceria ideal

Quero ficar perto de gente que me ensine a olhar para as estrelas e para os olhos delas. Que me ajude a ouvir o meu coração, e o dos outros também. Que, com sutileza, não aceite qualquer coisa de mim, me ajudando a consertar meus erros. Com quem eu possa dividir paixões e sonhos, bem como a atenção pelas pequenas coisas. Que me deixe entrar para aprender a ser bem-vinda.

24/01/2019

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

05/02/2019

(...)
Talvez por isso eu deseje
encontros de corpo
e alma
mesmo quando
o amor não
tem tempo ou ocasião
de vir também.
(...)

- trecho do meu diário

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

31/01/2019

Espero poder entender a diferença 
entre ingenuidade e a liberdade
de dizer mais vezes sim...

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Fermata

Abriu os olhos, e se viu com o rosto virado para a esquerda, para a janela grande e sem cortina, por onde podia ver os grãos de pó levantarem-se do chão e dançarem contra as flechas impiedosas dos raios de sol que entravam. Parte de si tinha a impressão de estar acordando de algo. Tudo o que aconteceu antes de desapertar as pálpebras doloridas não parecia real, mas mais aquilo que ecoa como um sonho que não quer parecer distante. Que não exatamente quer se apagar da memória, corporificado numa frase que achou ter ouvido.

Foi ao olhar para si que a verdade não se deixou negar – nas roupas desabotoadas e fora do lugar (mesmo que ainda em cima do corpo), nas costas doloridas, no vazio da sala e dentro do peito. Nas lágrimas que vinham mais quentes que um último abraço carinhoso que nunca veio e não deveria ser o último, e que lhe prenderam ao lugar e posição como um sinal de descrença e derrota escrito em letras garrafais. Em sua respiração pesada e ao mesmo tempo rasa.

No fundo aquilo lhe deixou imaginando se não havia algo no ar que entregou as duas partes, mesmo depois de todos aqueles anos e que, se fosse percebido, pudesse ter sido evitado. Mas nada concreto lhe passava pela cabeça a não ser um resto de rastro de perfume na biblioteca que aos poucos se perdia de vez. E foi ao tentar repassar o que havia acontecido que pensou encontrar um sentido que não foi menos doloroso.

Acima daquele escritório/biblioteca, abriu a porta de casa para um rosto que conhecia muito bem e que chegava para outra daquelas visitas que, mesmo tão naturais e frequentes quanto respirar, sempre conseguiam trazer um sopro de ar fresco a tudo. Como de costume, dirigiram-se ao porão: o lugar onde ficam as palavras, as histórias e os silêncios mais bonitos. Levando desta vez taças e uma garrafa de vinho contra o frio que mantinha suas mãos nos bolsos e deixava seus hálitos visíveis acima dos olhos mesmo no meio da tarde.

 O vinho aos poucos deixava as duas vozes macias e moles enquanto liam trechos talvez não muito aleatórios dos livros que escolhiam e seguravam como quem o faz a uma criança ou uma flor. Para sentir o som e efeito de palavras alheias nas próprias bocas e na pessoa para quem liam enquanto caminhavam sonhadoramente pelo aposento com ouvidos atentos, olhos que se encontram ao levantarem-se da página. Ou mesmo recitavam coisas que sabiam de cor.

Ao sentar-se na poltrona perto das escadas com uma perna cruzada sobre a outra, quem morava na casa fechou os olhos um tanto sonolentos pelo álcool e, como numa meditação, procurava prestar atenção apenas no som da voz da outra pessoa e na própria respiração; talvez numa tentativa de parar o tempo e permanecer ali sob aquela meia-luz dourada para sempre... Sua companhia era do tipo de amante que dizia admirar e até invejar sua capacidade de se focar no presente e nada mais – o que lhe fez sorrir por dentro.

A espécie de transe em que se encontrava foi profunda o bastante para não lhe deixar notar que a outra parte se aproximava até sentir seu peso sobre as pernas e uma leve mordida na linha do maxilar, próximo à boca. Algo como instinto lhe sussurrou para passar os braços em quem lhe olhava e segurar contra o coração o mais forte que conseguisse, e foi o que fez.

Parecia como antes – como nos tempos em que aquilo acontecia por costume, saudade e oportunidade, nem que fosse apenas para descansar estando perto, para ouvir a respiração. Ou para ter um lugar onde chorar sem dizer nada com o bônus de não se sentir só. Mas quem olhasse de fora saberia que o par de mãos na cintura e o outro em volta do pescoço já não eram os mesmos, por mais que quisessem negar. O desespero, ainda que inconsciente, sempre nos revela.

Depois de alguns minutos assim e dentro de uma aura de silêncio quase mortal, quem ocupava a poltrona afastou o outro rosto de seu ombro uns centímetros para poder olhar em seus olhos. Meneou a cabeça e quase se assustou com a rouquidão da própria voz.

“Aquela história... A tua história. Conta-me de novo, meu amor.”

Ainda com os braços enroscados àqueles ombros como as crianças costumam fazer com os adultos, o interlocutor expôs o arco do da garganta de modo quase pensativo, piscando os olhos devagar, até que respirou fundo e fez que sim, também muito lentamente. Levantou-se com seu jeito lânguido e começou sua história com as mãos para trás e o olhar fixo naquele outro olhar.

Talvez por conta do próprio conteúdo do que dizia, quem contava se portava com uma linguagem corporal um tanto específica, quase como numa coreografia. Mas não é sempre assim que acontece? E, no entanto, para a plateia, o que mais importava não eram as palavras (embora fossem muito tristes e belas em sua tristeza), mas como elas eram enunciadas.

Apesar de já ter visto e ouvido aquilo tudo milhares de vezes, tanto em público como em particular, nunca parecia a mesma coisa. Seu olho afiado e alma que ainda conseguia ser facilmente tocada conseguiam notar as mudanças sutis em cada ocasião – e isso só fazia o conjunto todo parecer mais e mais atraente... Não à toa havia se apaixonado perdidamente por aquele ser.

Particularmente naquele dia, havia algo de lindamente etéreo e dolorido e ao mesmo tempo terreno, magnético e sujo naqueles gestos e sorriso que, mais do que antes, trouxeram um gemido à sua voz que não pôde esconder. Que juntava o estar acometido por uma dor lenta e repentina com uma onda de prazer logo depois, mas que não estavam relacionados. Era difícil explicar.

Como já tinha acontecido algumas outras vezes, uma coisa ou duas fizeram com que quem ouvia se levantasse de onde estava e andasse pelo aposento de modo a acompanhar quem contava como se também fizesse parte da “dança” (muito embora o gestual e verbal falasse da solidão de não mais reconhecer-se, saber que isso é ruim, e ainda assim, mesmo que um pouco, apegar-se a isso porque a sensação principal é gostosa).

Quem contava a história notou que a outra parte lhe seguia de perto. Provavelmente de forma deliberada fez com que tudo ficasse mais intenso e emocional do que jamais havia feito. Antes que qualquer um percebesse, lá estava com as pontas dos dedos prensadas na curva da cintura da pessoa amada, que acabou encostando-se na estante de livros de pernas um tanto amolecidas.

A franja de quem falava roçava de leve contra aquele rosto por causa da proximidade ao ouvido de uma voz quentinha, macia e areada. Conforme o tempo passava, os dois corpos cada vez mais diminuíam a distância entre si e, durante breves pausas entre uma sentença e a outra, podia-se ouvir uma das vozes pedir por um beijo debaixo da respiração entrecortada. Que a boca queria, mas que era a princípio negado no gesto provocador de limitar-se à bochecha mais próxima.

Sentindo as lombadas dos livros fazerem pressão contra a pele por cima da roupa, fechou os olhos um instante, para desviar-se dos que lhe puxavam. Tentava concentrar-se nas palavras que ouvia; algo na emoção delas fez suas pálpebras arderem enquanto a outra linda mão de seu oposto lhe segurava o queixo com delicadeza. E em sua cabeça ecoavam corações partidos e rostos que não parecem mais os mesmos...

Até que os dedos em seu queixo relaxam e escorregam, um tanto frios, em direção ao pescoço, mas a diferença de temperatura não incomoda. A antecipação daquilo não lhe deixa se mexer, mesmo querendo jogar-se naqueles braços. As tais mãos se deslocaram de onde estavam depois de permanecerem no lugar por um tempo; palmas cheias de cabelo e com pulsações aceleradas debaixo de si, aos poucos dando a um lado o que o outro desejava. O que parecia entorpecer mais quem era beijado não era o que havia bebido e sim o final de gosto que sentia entre as comissuras. Era como ser nocauteado para fora de si.

A separação por um milésimo de segundo lhe permitiu ver o gesto reflexo de sua própria mão ao puxar um tanto bruscamente o colarinho do longo casaco de quem beijava, fazendo-o escorregar para longe de um ombro. Se aproximaram para outro beijo longo, lento e faminto, que parecia sugar o ar de seus pulmões e lhe fazer suar. Ouviu-se implorando por mais ao sentir como se muitos outros pares de mãos lhe devorassem.

Nunca lhe passou pela cabeça perguntar se a história que ouvia era algo inventado, pescado de outro lugar, ou um pedaço de passado. De certa forma, pouco importava que fosse blefe. Tudo era triste e lindo por si mesmo; até o suspiro fundo, cansado e carente da outra pessoa após a última palavra e o último beijo, reverberando nas paredes e contra a pele. Viu-se tremendo pelo frio ao escorregar um pouco, tendo a impressão de que os passos que se afastavam eram apenas um truque da excitação que abaixava. Só depois entenderia tudo e ao mesmo tempo nada... Que em muitas palavras também se diz adeus e “Não restava mais nada a fazer”.

27/01/2019

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

(A)brigada

(A)brigada!
Não por todas as respostas me dar,
mas por se fazer parada
no meu procurar
para onde sempre quero voltar.

25/01/2019

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Reconto

Ainda que seja a mesma história,
debaixo da pele e da memória,
como uma canção, em sua dor...

Conta de novo, meu amor.

Com carinho, como quem chora,
num sussurro, do que foi embora,
tudo o que se abandonou...

E pelo menos em sonho, ficou.

Fala-me, ainda mais outra vez,
como um e um podem ser três,
indo da lágrima ao sorriso...

Do jeito que sabes ser preciso.

E, apesar da ilusão,
deixa-me tudo, de coração,
que és e tens, naquela bandeja...

Preciso de ti - da forma que seja.

24/01/2019

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Transcendent

Such poets
are we, my darling!
Our tongues don't see as secrets
the sacred hex
of our sex,
nothing in everything...

23/01/2019

domingo, 27 de janeiro de 2019

(Ins)piração

Como um beijo
de quem se tem saudade
e não se recusa,
vem num gracejo,
conduz à liberdade
pela minha mão,
me usa,
toma meu coração!

21/01/2019

sábado, 26 de janeiro de 2019

Tapera

Sou ruim
de flerte...
Poemas meus
à distância,
letras tuas
em pessoa -
jogo verde
minha insignificância
num sim
pelas ruas
a fora...

21/01/2019

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Bloqueio criativo

Quando não aparece a poesia
que bom que a prosa
tem cheiro e graça de rosa
e pergunta do meu dia...

E se até ela fica dengosa
e some,
eu espero e chamo pelo nome
a musa de alma curiosa...

Quem não vai para o papel
fica pelo menos na boca
até que a mão lhe toca
só para espalhar o mel...

21/01/2019

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Descanso

Cabeça no teu ombro, de lado,
olho fechado
para ver dourado
de bom grado
e sentir teu jeito sagrado,
de menino, de falar do amado...

21/01/2019

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Verso moço

Ela sempre foi poema
que eu nunca soube escrever
mesmo numa quadra tão pequena -
tanto mais é seu por merecer...

E até ousei tentar
por um pedido
que não sei negar,
mas quem dera fosse mais florido...

Já devia saber que o tempo passa
e planta a semente -
e quanto à tua graça,
a musa jamais mente.

- para Maria Eduarda

21/01/2019

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Selvageria

Posso não me lembrar
da grandeza do que já fui
por não exatamente ter sido
e ainda assim, tentar,
como o gelo derretido que flui,
viver o destino em mim contido.

21/01/2019

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Coisa de graça

O que gosto mais nela,
já que é tão bela?
O sorriso, a luz de alegria
pela janela
nunca apagado
mesmo de lado
no cabelo jogado...
O buscar poesia
nos quadrinhos da calçada,
o momento e mais nada...
Acho que a coisa inteira:
a moça e a noite como parceira,
e ela ainda diz que sou poeta;
tremenda besteira!

20/01/2019

- Para Maria Eduarda

domingo, 20 de janeiro de 2019

Parceria

Talvez a razão do meu olhar
ficar perdido e se desviar
é não ter a sorte ou azar
de outro para buscar
e mais que tudo consiga o puxar
para perto de um novo lugar.

20/01/2019

sábado, 19 de janeiro de 2019

Anatomia da linguagem

Não tenho intimidade
o bastante
com aquela língua
para saber que sons
ela faz quando a boca
está aberta ou fechada.

Resta curiosidade
de um talvez iniciante
pela coisa mais antiga
com suas maldades e os bons
instantes que a deixam rouca,
macia ou calada.

19/01/2019

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Parfum

Desisti de ti
porque eras fumaça.
Te queria de novo,
te queria inteiro –
mais que perfume que passa.
Mas que desgraça!
Nunca mais estiveste aqui...

18/01/2018

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

In private

What you have said a thousand times from afar
for all the others
into joy's colors
with the door ajar
has a new magic
everytime you choose
to have nothing to lose
and whisper up-close,
just you and me, no other noise or distraction,
your oh, so needy and tragic
blend of sorrow, playfulness, anger and subtle seduction.

14/01/2019

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

05/01/2019

Apesar de ser normal por causa da passagem do tempo, 
e das minhas circunstâncias, 
me entristece ver que certas coisas 
já não me bastem mais.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Quadra rosa

Só espeto
quem não me deixa em canto quieto,
com mão sem jeito,
sem carinho, sem respeito.

10/01/2019

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

05/01/2019

(...)
Mas a mágica
da poesia está
em tornar tudo possível,
ainda que por
um instante.
(...)

- trecho do meu diário

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Sedenta

Não aceito ser outra
que não mais minha e também tua
quando a verdade nos encontra
e me deixa nua
só para que tua boca em minha nuca,
orvalho nas minhas costas,
me prometa que nunca
esquecerás a rainha que te gosta.

07/01/2019

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Lições que o amor pelas palavras me ensinou

- tudo o que sei é que, por melhor que minha professora de literatura tenha sido, aprendi mais sobre isso e poesia lendo por conta própria e em mais de dez anos de escrita do que em três anos de ensino médio.

- não há nada como transformar conversas aleatórias (ou nem tanto assim) em uma cadeia inteira de pensamentos. E depois num texto, numa postagem...

- eu costumava dizer que meu processo de escrita se baseia naquelas "vozezinhas" que me sussurram palavras, mas na verdade não é bem este o caso. Trata-se mais de um pensamento repetitivo. Às vezes são palavras mais específicas que vêm de pronto, e outras vezes eles repetem a ideia geral, por isso preciso esperar até ter os termos certos. Outras, sou apenas eu falando comigo mesma - sussurro algo qualquer que se torna um verso.

- arrependimentos acontecem e são normais.

- sou humilde o suficiente para saber para saber que sempre posso melhorar minha escrita e talvez vendê-la pelo quanto ela valer pelo que é, mas não pretensiosa para pensar que apenas uma palavra vale diamante.

- às vezes podemos nos surpreender conosco mesmos no bom sentido ao olhar para a própria evolução.

- o que acontece inconscientemente pode produzir um ótimo resultado.

- há beleza nos rabiscos do ato de refrasear e no resultado final de um poema passado a limpo.

- não há nada como ter textos sobrando para manter o blog atualizado.

- nem como ler um poema e sentir que as palavras são os pregos do seu caixão (risos).

- o coração de um escritor sempre se aquece quando vê lucros acumulando, ainda que lentamente. Especialmente de pessoas que sabemos que nos apoiam não importa o que aconteça.

- escrever com outras pessoas é extremamente gratificante e prazeroso.

- há sempre chance de se aprender algo novo.

- cerque-se das pessoas certas, e elas despertarão o melhor de você.

- tu sabes que é um poeta quando a maior parte do que dizes tem mais de um significado. E quando até tuas entradas de diário são escritas em verso.

- uma das melhores partes de ser prolífico é ver o quanto estamos melhorando conforme se pensa, trabalha e escreve, se tu me perguntares. E digo isso com completa consciência de que qualidade é mais importante que quantidade. Ser prolífica é meu filtro pessoal.

05/01/2019

domingo, 6 de janeiro de 2019

Unexpectance

There has never been a gift
as welcomed and swift
or more ours
at this sacred hour
than a flower
from a flower
wrapper up in flowers
that is you.

You, who threw yourself away
for the world to catch,
light the match
and know your name
for whatever you do
wouldn't be the one to blame
for deserving the world on a silver tray
that I'd give you, if I could.

03/01/2019

sábado, 5 de janeiro de 2019

Das nossas descobertas

Sei que não posso voltar no tempo. Mas, se pudesse, adoraria viver de novo o dia em que te encontrei de verdade.

Ao dia e momento em que te dei uma chance e teu nome se tornou fácil e lindo na minha boca. Quando senti teus olhos nos meus e tuas mãos nas minhas, num convite mais que gracioso.

Em que te emprestei meus ouvidos e depositaste entre minhas palmas a flor que agora sei que és - no êxtase de seu desabrochar em belas cores. Cores que parecem me conhecer e serem parecidas comigo; que me deixaram sem palavras e com anseio por muito mais.

Quando tua voz, macia como uma pétala, roçou meus ouvidos feito brisa de verão mágoas que poderiam ser as minhas, e de certa forma o são. Quando ela tocou meu coração com seus carinhosos dedos um tanto frios de amante no pescoço do ser amado.

Em que me perguntei onde estavas e te pedi para ficar aqui... A fresta aberta pelo teu olhar, e que depois te deixou entrar. Que se fez surpresa que nunca foi tão bem-vinda; e sei que é só o começo de tudo para nós. Conduzido por mãos e pés que sabem perfeitamente o que querem.

01/01/2019

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Serenata

Tantas vezes sem calmaria,
reinava o tédio
até que trouxeste melodia
ao paralisado, sem remédio.

E o passar compassado do tempo
ganha sentido no correr da mágoa
como sussurro ecoado num templo
de confissão que afaga.

Porque mesmo dor contida
não deixa de ser verdade
ou de deixar marca e ferida
talvez por toda a eternidade.

O que tinha de ser dito
e do jeito que chegou
só torna tudo mais bendito,
bonito e certo, meu amor.

30/12/2018

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

A girl knows she's lonely

A girl knows she's lonely
when she holds herself
dreaming of the same things she wanted
when she was twelve.

A girl knows she's lonely
when her mouth says she's lovely
in the dark, a hand on her face
that stroke with a lover's grace.

A girl knows she's lonely
When she stays outside
and mostly observes, only,
the sea of life in every tide.

29/12/2018

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A game for two

You play with lights,
I with words.
We walk through the nights
to sing like its birds.

You mess with sounds
like I dare to make a rhyme.
We test ours and their bounds
even if it seems like a crime.

You and your knowing eyes
and that grin
stealing everyone's hour.

These big brown fireflies
fighting the dark to win
and turn you into a flower.

I stay here, a gem, solitary
against your hands covered in rings
but to us, the tiniest is extraordinary,
a glory fit for kings.

29/12/2018

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Derretida

Sempre que penso que sou de pedra,
vem um olhar
de ti que me quebra
em folhas de um outonar...

E sinto bater um coração
na lágrima que me cai
aqui sozinha, sem fazer questão
de mostrar a dor num ai.

Até que proves do sal
pousado nos meus lábios
e afastes deles o mal
na oração muda dos templários.

29/12/2018

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

domingo, 30 de dezembro de 2018

Transfiguração

Não sei das tuas fraquezas,
mas foi depois de ti
que vi em mim
a mulher que sou.

Mais afiadas ficaram as belezas
de cada um que já vi aqui
e acho que no fim
tudo se encaixou.

Certas coisas não parecem o bastante
e não faz mal querer mais
quando estar contigo me leva adiante
a distâncias abissais...

28/12/2018

sábado, 29 de dezembro de 2018

Ungida

Teu colo é meu trono,
teu corpo é o meu manto.
Teu beijo, ouro de abono
que ainda me casa espanto.

Mãos que se fazem coroa
na marca do ser divino
que diz que sou suficiente e boa
para aceitar meu destino.

Talvez me toques
e eu volte para mim mesma.
Talvez me beijes
e eu exploda num cataclismo.

26/12/2018

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Whisper

Come here,
kiss me,
with no fear
the crook of the neck.
Tenderly,
surely,
firstly
a peck.
And maybe,
pretty please,
a long, slow, loving kiss.

24/12/2018

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Esparramada

Faz sentido que as minhas verdades mais fundas estejam espalhadas em pedaços aleatórios de papel e pelos mais diversos cadernos. É quase como estar bêbado e desabafar no primeiro ombro que se encontra, exceto que os do meu caso são sempre do tipo confiável (ou pelo menos é como eu os vejo).

Faz sentido porque a honestidade pedida para ocasiões como esta obriga-me a de certa forma montar um quebra-cabeças com as palavras certas e do jeito certo, para que o importante possa ser entendido. Os textos estão espalhados porque os próprios pensamentos estão.

Eu sei que o amor é algo que mereço como todo mundo e que sei que quero para mim, mesmo que diga que não... Só não quero que desejar ou mesmo ter isso me faça esquecer quem sou.

Às vezes olho à minha volta e parece que isso não vai acontecer... Claro que deve ser a dupla Solidão e Idealização sussurrando bobagens, mas, cara, se acontecer não pode ser só para preencher um vazio. Amar assim é crueldade e falsidade com todas as partes.

Parece que tenho mesmo que aprender a ser sozinha e me conhecer antes de estar com alguém, para que tudo aconteça pelas razões certas.

21/12/2018

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Afago

Quando tanto se sabe dos espaços,
toque é ato de bravura
contra nós e a favor dos laços
e ser água para a secura.

Contra o estranho que te prende
longe do que não é o bastante
e quando vencido, fica e entende,
olha conosco para outro horizonte.

Que não te deixa ser fria,
mas sim ao alcance do amor
e tudo o que há de ser teu um dia,
seja como for.

23/12/2018

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Evanescente

A verdade é que não sei se um dia
de mim já tive consciência.
Ainda me falta a sapiência
do que cada presente valia.

Alguma vez já estive mesmo aqui
disposta a ficar e viver?
Quem sabe se um beijo de ti
me tire dos olhos mero acontecer...

Ou talvez eu deixe de existir
e quando não seja mais que bruma
tão fria a tocar teus cabelos

tu guardes em gestos inteiros
algo mais leve que pluma
e que se recusa a sumir.

23/12/2018

domingo, 23 de dezembro de 2018

Pelas pontas

Se apenas tu soubesses
que o que carregas nas mãos
com a graça de apóstolos irmãos
são nada menos ou mais que estes...

Mais lindos que os diamantes
ou qualquer das pedras preciosas
que a muitos parecem distantes
e te adornam como as rosas!

Assim tão finos, ternos, longos
como os segredos que guardam
e hoje se fazem conhecer

para deixar os cegos tontos
quando estendem e tocam
o oculto em cada ser...

23/12/2018

sábado, 22 de dezembro de 2018

Paladar

Os bons vinhos
devem ser como beijos,
cada garrafa tão única
como cada boca
que os prova
e nos beija...

E por simples desejos
ou motivo qualquer
que seja
um dia parece coisa nova
e não nos toca
como os mesmos carinhos.

21/12/2018

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Ósculo

Beija-me devagarzinho
como se não houvesse amanhã
e trilha o caminho
para seguirmos sem afã...

Um em que eu siga meu coração
e diga mais vezes sim
embora lembre que o não
também pertence a mim...

Beija-me com o carinho
de um deus para sua irmã
envolto em taça de vinho
como o frio num xale de lã...

Um que pareça canção
e cheire como jasmim
que caiu da minha mão
pintado de carmim...

21/12/2018

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Morte viva

Se eu não puder viver
do que amo e sei fazer
e cada vez mais aprender,
será o mesmo que em vida morrer.

10/03/2018

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

30/12/2017

(...)

Talvez muito de mim seja ingenuidade, 
mas gosto do conceito do amor incondicional. 
Acho que sou capaz de sentir e de viver isso.

- trecho do meu diário

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

18/08/2017

Se somos nós que construímos 
quem somos ao descobrirmos aquilo que cada coração deseja 
em cada mudança, quem sabe não seja a poesia 
que enxergamos apesar de tudo 
e a capacidade de nos agarrarmos às migalhas de alegria
podem ser, quem sabe, fontes de sentido...

- trecho do meu diário

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Trejeitos

Não é porque sou poeta
que sempre sei o que sei o que dizer;
que tenho cada palavra certa
pronta para te arrepender.

Digo coisas sem pensar
ou que não fazem sentido
embora consiga rimar
rico e pobre, amor e amigo.

A tal língua de prata
nem tem tanto vocabulário
quanto às vezes faz parecer.

Faz descer mágoa em cascata
e silencia ao temerário
e que surpreende por difícil (ou fácil) de ler.

17/12/2018

domingo, 16 de dezembro de 2018

Receita

O que faz um escritor:

Altas doses de observação,
tempo e dedicação.
Talvez pitadas de experiência,
umas colheradas de paciência
e resiliência.

Xícaras generosas de amor.

16/12/2018

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Prontidão

Não que eu mereça,
mas teu rosto
e gosto
é de fruta fresca.

Não que eu tenha pressa
por outro agosto
que traga desgosto
de obra folhetinesca.

Mas eu estou nessa
sem nada imposto -
sequer nenhum esforço
e aqui para o que apareça.

14/12/2018

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Achado

Rosa linda que vi no chão,
caída suave nos caminhos!
Se eu me ferisse em teus espinhos,
tu beijarias a minha mão?

Eu te poria entre os linhos
mais claros que o sol do verão,
em taças de vinho fino
que só oferecem perdão.

Que apenas a água mais pura
te cobrisse como diamante
diante da mais elegante
nudez, que merece mesura.

Porque ao te ver, num instante
foi-me oferecida a maior cura,
o privilégio de ser amante
ao contemplar tua figura.

13/12/2018

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

11/12/2018

Se fazer as coisas do meu jeito 
é pensar pequeno, 
então muito bem, 
eu penso pequeno...

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Speechless

Your hands and words on me
are the silk you have over your body.
Soft, warm, fresh, shiny,
somewhat slippery.
To them, all I can say, all I can be
is the silence and moan of a tragedy.

11 de dezembro de 2018

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

09/12/2018

Por que as pessoas não se permitem sentir as coisas? Não digo isso como forma de julgamento. É que para mim, em que sentimentos e sensações formam tudo o que conheço pelo que sou, não entendo por que as pessoas se pseudo-entorpecem desse jeito.

Quanto mais se reprime, menos se entende. Porque menos se enxerga. Aprendi isso ao longo dos anos, especialmente no caso da raiva e da frustração. Mas as coisas boas, também. É o que pude perceber quando tudo veio à tona.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Abandono

Talvez não haja sentido
em me agarrar
a certas lembranças
por serem como tranças
que se soltam e são fáceis de cortar
com um gemido.

7 de dezembro de 2018

sábado, 8 de dezembro de 2018

(A)part

You and me
so look like the sea
and the shore
in a slide
from side to side
by the beach
but always out of reach,
wanting more
and certainly not on someone else
or just anywhere.

Where did you go
with my soul,
will you ever come back
before it grows old
and loses its mold?
Without your light
not even the moon feels right,
the nights are always deep black.
I don't ask for much
more than you here,
in just a touch.

7 de dezembro de 2018

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Hesitation

I may not look you in the eye
with ease,
but I drink on every detail.

And I ascend to Heaven
for what I see,
smelling of moss.

That is maybe why
words such as these
would look and sound pale,

like untruths, even,
that would make me flee
if not from your lips - utter loss.

So if ever daring am I,
would you please
gon on with your tale...

And freshen
the fever in me
with eyes and fingers from across?

6 de dezembro de 2018

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Lighthouse

We shall shine on earth
and on and for each other
even from miles away
no matter what comes forth
and be together,
tomorrow, if not today.

And maybe in the north
get to remember
that no matter what they say
we know what is light -
it still deserves to feel bright
when night comes to play.

05/12/2018

- for DeltaLambda

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

03/12/2018

Faz sentido se arrepender de não ter publicado um livro? Faz. Faz sentido se arrepender de TER PUBLICADO um livro, porque anos depois disso tu percebe que ele deveria ter ficado na gaveta? FAZ SIM SENHOR. Faz parte dos erros que a gente comete pra melhorar como escritor.
Faz sentido porque de nada adianta a gente deixar para trás uma coisa com a qual não está satisfeito. Algo que poderia ser melhorado e até mesmo substituído, só para dizer que fez.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

A(r)mado

Num dia de maio
eu caio
nas tuas garras
e me pergunto
onde é que estavas
todo este tempo...

Isso porque te olho
e falho
em não ceder
à tua mão
e ao teu querer
por alguma atenção...

Não tem de falar
teu olhar
nada, nunca mais
para que eu saiba
que é capaz
de tudo o que lhe caiba.

02/12/2018

domingo, 2 de dezembro de 2018

Vida de cão

Eles são crianças
como nós,
com simples esperanças
e uma voz...

Vivem pouco,
mas com a sorte
de um louco
de não saber da morte.

1º de dezembro de 2018

sábado, 1 de dezembro de 2018

Quando não estás

Na minha roupa, procuro teu cheiro
junto do meu como um inteiro.
Eu me abraço, talvez para fingir que o calor
que vem de mim é o mesmo do teu amor.
Puxo tua voz do fundo da memória
como se não tivesse outra escolha.
Faço o meu toque parecer não outro
se não o teu, que não está morto.
Esqueço que conheço teu jogo
só para aprender tudo de novo,
porque sei que voltas logo.

1º de dezembro de 2018

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Vestimenta

Tua pele contra a minha
desfaz a face mesquinha
tornando tudo o que eu já tinha
em nada quando estou sozinha,
o meu andar em algo sem linha.

30/11/2018

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Dos fingidores

Há algo tão mágico em ser escritor. Não apenas porque tornamos o intocável em algo visível. Mas porque podemos ser muito bons mentirosos se assim desejarmos.

Podemos até ser do tipo que se distancia de sua obra porque a história que contamos não foi uma que vivemos (e é aí que entram o eu-lírico e o lugar de fala), mas as palavras que usamos não deixam de ser nossas. E é por elas que os outros nos reconhecem.

Acho que isso também acontece nos casos em que cantamos palavras que não são nossas, talvez apenas emprestadas, com paixão e personalidade o bastante para convencer o mundo do contrário... E assim ninguém nos esqueça. Todo escritor tem um pouco de ator, talvez...

27/11/2018

sábado, 24 de novembro de 2018

Dez anos depois

Dez anos depois, meu humilde cantinho de certa forma cresceu comigo, e se tornou a casa das minhas palavras e de sua evolução. Não apenas de poesia, mas de prosa também. Uma prosa honesta, selecionada e cuidadosa, talvez melhor do que muitos dos meus versos.

Dez anos depois, eu posso me reconhecer cada vez mais naquilo que escrevo e ter mais orgulho disso e de deixar quietinho aqui para quem quiser ver. Dez anos depois, ele segue aqui dizendo que, mesmo se eu me ausentar, sempre posso voltar, como já voltei antes, e tê-lo como sinal de que nada me impedirá de seguir escrevendo. Ainda vivo, como respeito ao que está no papel e o tempo pode muito bem comer.

Dez anos depois, eu tenho na minha vida gente que muito e de verdade valoriza, à sua maneira, cada letra. Enxergo em certos versos potencial de retorno talvez mais que afetivo. Convivo, ainda que por enquanto virtualmente, com gente generosa, inspiradora e tão apaixonada quanto eu pelo que faz. Dez anos depois, o blog testemunha minha convicção em escrever num outro idioma, e palavras cada vez mais intensas. Com os olhos ainda mais abertos.

Dez anos depois, eu abraço o rótulo e aceito meu destino. Escrevo não apenas por amor a alguém, mas por amor às palavras. Dez anos depois, talvez mais que isso considerando certas coisas, me enxergo pelo que sou, fui, e talvez sempre tenha sido: como poeta.

24/11/2018

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Das cartas e palavras de amor

Ah, as cartas de amor...

Claro que já escrevi algumas dessas e não me arrependo de nenhuma, apesar de na maior parte das vezes até agora eu ter escrito poemas de amor.

Acho que posso dizer que já recebi uma carta de amor de um potencial amante, embora eu não tenha como saber se foi realmente para mim. E considerando as cartas anônimas e não-anônimas que escrevi com um amigo em meus pensamentos e também suas respostas, acho que elas também contam como cartas de amor.

Dito isso, não diria que este é um hábito só entre amantes. Cartas de amor são escritas com a intenção de colocar nosso toque, energia e cuidado para expressar os sentimentos e mantê-los vivos. Deixar um pouco de nós ao alcance da mão do outro e quem sabe ter a mesma coisa de volta.

Esse amor pode estar nas pequenas amenidades que escrevemos; nos detalhes que só o outro entende porque pertence só aos dois. Na maneira como nos expressamos para manifestar o quanto a pessoa significa para nós. E acima de qualquer coisa, precisam ser sinceras.

Só eu sei o quanto aquelas respostas me fizeram e fazem feliz e me sentir amada; com ele perto de mim e com o papel como outro meio de podermos nos conhecer e nos amar - na intimidade da caligrafia. Talvez seja isso o que eu considere uma carta de amor.

É difícil me lembrar assim de pronto de algo específico ou de tudo o que já ouvi e li e pensei "adoraria que tivesse sido para mim", porque há vários exemplos de resposta. Mas acho que posso citar dois deles: meus sonetos favoritos por Florbela Espanca e uma fala específica do curta francês "Un lever de rideau"...

23/11/2018

- baseado neste post.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A gift

I know what you need.
You have it there, on your waist,
at my reach.
I swear you won't bleed.
I'll just have a taste
unless you want a leech.

Thank god I don't have to be on my knees.
I have no conception of sin to repent for!
Let's just sit here like the queen bees
carving gold off the floor.

If you don't mind getting small
to meet me eye to eye
for a bit of you in me
and something to remember you by,
you can have it all
if you take the tension and let it be.

I don't mind if promises are broken
as long as we stop time
and stay here in this moment
to there and cross an old line.

18/11/2018

domingo, 18 de novembro de 2018

Respiro

Com as pessoas certas
o nada se torna tudo,
as portas continuam abertas,
a nós ainda pertence o mundo.

Um pouco sempre parece muito,
uma hora é eterna e gigante.
Acaso, favor mais que fortuito
e um riso, música e eco vibrante.

Parece certo estar contigo
perto assim do meu coração.
Para a liberdade é um abrigo
ao qual eu jamais direi não.

18/11/2018

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Conquered

These days
if for just long enough
you look at him,
before you know
you might moan and scream.

Because he watches, he sways
and has no bluff.
Never the same thing twice
made the lord of his chateau
in just the right amount of silk and vice.

At the flesh,
you end up resting
so warm and smooth
with a thankful sigh
at the edge of his tooth.

He's there to thresh
and put to the testing
you both.
To tell you where he's always been
and swear a secret oath.

He's black and also white
smiling and touching your chin -
you just wanna see where's the border,
not always so clean a line
that brings chaos into order.

You feel a bite,
you hear the din
and want more
as it goes high,
you are ready for war.

12/11/2018

sábado, 10 de novembro de 2018

Os amantes

Quero que sintas a mim
como sentes tuas canções.
Como momentos sem fim
em todas as intenções.

Que sejas veludo contra a pele,
mudando tudo
mas que não fere
e eu não julgo.

Que sem que eu nem se quer espere
venhas e jures toda a minha sorte
como fazem os bem-me-queres
e dentes de leão, na morte.

Que sigas como cada flor
que a gentil te entrega
simplesmente por amor
e que teu sorriso não nega.

Quero que faças do teu olhar
a casa de alguns raios da lua
que talvez eu possa tocar
quando me sentir mais tua.

Quero que nossos dedos, lábios e pescoço,
tanto quanto nós, se amem
como sedentos e água de poço...
Porque contigo tudo eu posso.

10/11/2018

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

7 roses

I

He was both the one to be serious with
and the one to have fun.
I wish I had seen what was underneath
and was available only to some.

Heaven knows I should have loved you better
because that is what you deserved
and yet you were never bitter,
you did your best and it served.

That heart could appreciate
as if it was his, another's glory.
I guess I came around too late,
and for that I am deeply sorry.

II

You were both tranquility and fire,
my tortured poet!
How sharp was your tongue and lyre
and you knew your craft, breathed off of it.

Heart within the little details
I understood in your rare, soft laughter.
One who never tries always fails -
you taught me to hate small chatter.


I cannot imagine what you went through
to have it all at the palm of your hand,
eyes and ears towards what you do
although it could become sand.

III

The quiet leader with king's grace
let the others show.
Simple things brought a smile to your face,
you weren't afraid of any foe.

Even your smartness made you humble,
our greatest source of support!
You thrived at the highest struggle
through your pen and its art.

Intriguing, intimidating aura
over one of the kindest souls
that watches the stars waiting for Aurora
and knows their beauty and roles.

IV

All heart and hopefulness,
made me laugh like no other.
Your smile could light all darkness -
quick feet the next wonder.

Peace and passion lived in your verse
and at your every bone.
I miss the raspy colour of your voice,
I have been feeling so alone!

My tears and hers were proud,
of that you can be sure.
Your work spoke for you out loud:
was your life and your cure.

V

You just wanted to love
and be loved...
Were the one we could count on.
Emotions at the fingertips you carried
and your smile was a ray of moon.

You were grace and effort,
you swayed like a nympth.
Selflessness never ran short
of the love that made me sing.

I just wish you weren't so perfect,
didn't beat yourself up
and saw in you some of the effect
you happened to see in everyone.

VI
Day by day, more and more like a Prince
with the curious heart of a child
whom I never forgot ever since
you showed yourself to me and smiled.

Voice as warm as black tea
after a cold long day
with the breath of the sea
that I wish never went away.

My flower, you were so beautiful and intense!
It took me a while, but I found
you and myself without defense
after you made that sound.

VII

Much like me, you wanted to learn,
you wanted to grow.
I was there with my concern
at sure pace, however slow.

A grin all up to mischief
and your voice like a bird
was satin on the skin and the belief
right at the first word.

A boy into a man right before my eyes
achieved anything he wanted -
his were all clouds in the skies
because of the much he worked.

09/11/2018

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Desolate

If you twist these pages,
tears and blood will come out the most.
Laughter might be seen in some stages,
but at what cost?

I wish we didn't know about this pain
so, so early
and things were never the same again
so, so roughly!

But it seems that the world is not fair
to those like you, so pure
and it absolutely shouldn't dare
to make you feel so insecure.

At least I guess we know what is love
through the eyes of a soulmate
even when we don't think we are worthy of
walking through Heaven's gate.

05/11/2018

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Agrado

Dizes que sou linda.
Ah, como meu ego gosta
que tanto a mulher como a menina
sejam a tua aposta.

Que a alma, de luxo servida
perde o medo e já se mostra
quando tua pele na minha encosta -
não se ache mais dividida.

Que a saudade seja infinda
dos nossos olhos, lá na costa
antes de se encontrarem com a fome que ainda
oferece a bendita resposta.

04/11/2018

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Domesticity

Your gaze is the death of me,
yet your mouth brings me back to life
and I finally get to be
all from my promise in Paradise.

Another day and I'm here in your arms
as something I just happen to do.
I doubt the world has any qualms
to this, to me or to you.

And you don't even know the spell
that is only yours to carry
to make everything go so well
as the train upon the ferry.

The hours when I can't think of a line
that makes sense or fits
end with your hand crossed in mine,
a rhyme moaned to your lips.

What is the fun of this game
if both parties don't get to win -
if a song isn't heard from the name
we allowed to go under the skin?

04/11/2018

domingo, 4 de novembro de 2018

Lisonjeio

E eu beijo a tua timidez...

Com todo o cuidado e carinho
guardando o segredo que ela conta
no teu sorriso de ponta a ponta
de som tão mansinho...

E eu a beijo a cada vez...

Nos teus longos olhos baixos
e mãos ternas, mas inquietas
que buscam de todos os lados
as intenções mais honestas.

E eu a desejo, não vês...

Por este rosto assim corado
com jeito e cor de flor
quando ouve que é sagrado
e motivo do meu amor.

O que beijo é a tua maior nudez.

04/11/2018

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Side effect

Various people are sinks
and some are sources of heat.
I doubt anybody ever thinks
they have what warms another's heartbeat.

If my curious little eye blinks,
it shows me the day our souls got to meet
and how bountiful of riches and beads
mine became - how much it now sings.

Let us season with laughing and tears our drinks,
try and meet me eye to eye, take your seat!
One can never learn how one swims
if they don't touch the sea's feet.

And the calls and answers
echoing in our souls
showing the beauty of two new
a pair of gleaming light...

Become the warmth of what is ours,
always there, no need for controls,
because it already knows and has every clue
as to what is deserving of our sight.

For you are still here, glass of wine, you warm me inside
even at the night's darkest hue.
I guess these might be our roles:
another hand to go with ours in some words, and write.

02/11/2018

- L.B.S. e DeltaLambda

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Padrão alto

Nem em sonho me contento
com o barato
que posso achar em qualquer lugar.
Meu espírito é sedento
pelo que pensa que só tu podes me dar
e em cujo tato
e vereda
isso parece seda.

Quero muito mais que alento,
que algo caricato
perdido fácil no próximo vento
a se esfarelar
por se fingir de beato.
Quero o ouro desta moeda,
a tua mais linda pedra.

30/10/2018

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Contrapasso

I
Since we both mattered,
the doubts were gone.
Except this time it was I
who sat with you,
not the usual opposite.
It was I who asked you on a dance.

Since you never cared,
we just went on and on...
As if we would never die
and the sky was always blue,
wishes never moderate.
Ours was all patience.

II
And it was I who followed,
as pleased by the request
as the warmth that accompanied it.

The sweetness and fluidity -
our dance was something we held
close to each other
close to our hearts
with each step
it was you who asked me on a dance.

And with us there, was the unexpected
turned into a place of rest
for partners to meet...

The blues
that don't make you blue
but come together and smile
at the spin of a whisper.
I lost all I could lose
and was left with us two
sliding along the aisle,
running away from winter.

- L.B.S. and DeltaLambda

30/10/2018

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Our silence and stars

I am not of many words today.
You want an answer from me?
Good luck.

Give me your silence.
And a smile.
That is all I need.

You sit here beside me,
I smile too.
You are golden.

Questions are way more important.
They are the silver of the world.
Of your eyes.

Answers in the tilt of head.
More questions spill forth.
Everlasting conversation.

A language eager tongues and beasty hearts are yet to learn.
It's not me the golden one, my dear.
It's your mouth without fear.

Equal in shine.
We two look like a binary star system.
An orbit, a dance, encircling a point of dear silence.

Isn't that what love is?
What if the answer is you, or this?
I had nothing to ask either, anyway.

Your presence here is enough for me.
I may not dance often, but my soul, in its brightness, is quenched by this and dances about.
Dancing with a silent melody.

Every soul's right and duty -
nothing left for mine to do when given the chance.
If you really are to stay, so will I since I saw you, damn the distance.

30/10/2018

- L.B.S. and DeltaLambda

domingo, 28 de outubro de 2018

Gesture of courage

Yes, sir.
I'm looking right at you.
At this picture,
at this fracture
of the now.

You are piercing me
in the soul,
yet here I am.
I swear it's true,
I'm not running away.

28/10/2018

sábado, 27 de outubro de 2018

Petite mort: born out of passion



Seis meses depois do meu primeiro lançamento em poesia, é com alegria que eu anuncio minha mais nova aventura, desta vez em inglês! Ele pode ser encontrado neste link pela Amazon KDP.

"Petite mort: born out of passion" é um primeiro mergulho no risco maravilhoso de escrever em uma língua estrangeira, muito pelo incentivo de pessoas do mundo inteiro que hoje considero amigxs depois da honra de conhecê-lxos e ter sido recebida de braços abertos.

Poemas escolhidos a dedo por revelarem muito de mim até para mim mesma - da minha intensidade e recém descoberto refinamento na escrita, que vêm se estendendo até para os poemas em português, o que me deixa muito contente e empolgada especialmente com este volume...

Segue abaixo a sinopse original:

What is life without passion? What is life if not lived with intensity and love? What is a poet if they don't mean what they say? The craft of writing is certainly one of truth, never one of hiding; one of bringing the impossible, intangible and undescribable into the surface, whatever it costs. And to turn it into imagery, beauty and music. If we search long and hard enough within the world and ourselves, who knows what we can find? Who knows what recesses have a voice that needs to be heard and show us who we are?
I listened, and this is what they told me...

Muito obrigada e até a próxima!

terça-feira, 23 de outubro de 2018

TRATAMENTO DO IMIGRANTE HAITIANO NO BRASIL - ARTIGO DE CONCLUSÃO DE CURSO

Letícia Bolzon Silva*

Leonardo Mercher**

Resumo

O presente artigo propõe-se a apresentar uma análise da situação dos imigrantes haitianos após sua chegada em território brasileiro em busca de melhores condições de vida; bem como averiguar os motivos que os levam a optar pelo Brasil como nova moradia e local de emprego. Também analisa se existem casos de xenofobia e racismo e as políticas governamentais que visam apoiar a manutenção da vida digna e legalizada dos imigrantes – em especial, os haitianos. O escopo aqui utilizado inclui o que tende a ser retratado pela imprensa, estatísticas de órgãos especializados, depoimentos dos próprios imigrantes e de testemunhas, para que uma luz seja acesa sobre essa realidade e haja a possibilidade de repensarmos o modo como o Estado brasileiro de fato trata os haitianos que recebe; e que tais novas atitudes se reflitam em geral e com relação a qualquer imigrante, independentemente de qual seja sua nacionalidade.

Palavras-chave: Imigrantes. Haiti. Brasil.



Introdução

O presente instrumento se vale da análise de artigos de reportagem, artigos, trabalhos e monografias acadêmicas que apresentam dados e depoimentos de autoridades, testemunhas e imigrantes relatando e denunciando a situação do imigrante haitiano em território brasileiro e das políticas imigratórias do Governo Federal. Principalmente desde a ocorrência do terremoto de janeiro de 2010 no Haiti, o Brasil se apresentou como um dos destinos adotados pelos imigrantes da ilha caribenha que buscam melhores condições de vida. É importante que se tenha noção das condições de vida desta população tanto dentro de seu país, como na travessia para os novos destinos, de modo a facilitar a elaboração de melhores políticas públicas com relação ao imigrante em geral e para que se possa respeitar o contexto sócio-econômico-cultural de cada uma, em especial o dos haitianos.

Também é essencial que se possam apontar casos de racismo e outros tipos de preconceito e humilhação relatados por testemunhas e/ou pelos próprios imigrantes ao chegarem ao Brasil, para que sirvam de alerta às autoridades e população geral para os males que tais atitudes causam. Entre as causas e contribuintes da escolha dos imigrantes pelo território brasileiro, podemos citar:

• Brasil como porta de entrada para a Guiana Francesa e etapa para a obtenção de visto de entrada em países como EUA, Canadá ou França;

• Posição pública aberta e hospitaleira por parte do Governo do Brasil;

• Difusão de informações inverídicas aos imigrantes, como de incentivo do Governo à imigração haitiana, interesse em sua mão-de-obra para as construções da Copa do Mundo de 2014, além de promessas de alimentação e moradia gratuitas e salários em torno de dois mil a três mil dólares ao mês;

• Papel político e econômico importante do Brasil, bem como seu comando das tropas da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti e propagação da imagem de um Brasil sem discriminações;

• O terremoto de janeiro de 2010, impulsionando o deslocamento para um lugar que parecia, aos olhos internacionais, estar em todas as esferas comprometido com a estabilização e desenvolvimento haitianos e envolvimento com outros projetos sociais;

• O próprio enfraquecimento do apelo dos EUA e da Europa após a crise financeira internacional aumentou o fluxo imigratório para cá, principalmente como busca de refúgio por questões humanitárias, em que se julgam perseguidos ou desprotegidos por uma miríade de razões.

Com relação ao terremoto, nota-se que o evento acabou repercutindo em toda a população haitiana, mesmo nas regiões que não foram afetadas diretamente por ele. Isso vem ocorrendo dado que o visto humanitário, concedido pelo Governo brasileiro, é bastante abrangente e facilita a permanência de cidadãos haitianos pelos mais diversos motivos; o visto também diminui o ingresso ilegal pela fronteira terrestre do Acre. Tais políticas públicas, que também incluem casos como de imigrantes sírios, contam com serviços de assistência à saúde e orientação profissional, bem como comprometimento com campanhas de esclarecimento e prevenção da imigração ilegal; com destaque para os benefícios dos meios legais de imigração.

As campanhas, que também alertam sobre os custos e riscos da entrada irregular, mencionam o fim do prazo de validade dos vistos e da emissão de novos, conforme resolução do Conselho Nacional de Imigração. Porém, um grande problema é a dificuldade da embaixada brasileira em conceder o número de vistos demandado. Por isso, pelo menos até 2014, parte do fluxo migratório continuou acontecendo por via terrestre e intermédio de coiotes (FERNANDES e CASTRO, 2014, p. 5).

Antes da criação do visto humanitário em 2012, os haitianos solicitavam refúgio sob alegação de perseguição, o que é um processo mais demorado e sem garantia de que será atendido. O visto foi criado pelo Conselho Nacional de Imigração para regular legalmente a entrada de imigrantes e acolhida mais ágil por conta do agravamento das condições de vida da população devido ao terremoto.

Com o início da concessão de visto por parte do governo, segundo o MTE, houve um aumento em números absolutos de 406% entre 2011 e 2012 e 254% entre 2012 e 2013 na presença de haitianos no mercado de trabalho brasileiro formal. A impressão inicial era de 100 vistos por mês, mas tinha e tem como principal entrave a documentação exigida ao imigrante. De janeiro de 2012 a julho de 2013, foram emitidas 5728 autorizações permanentes.

No entanto, não foi acompanhada de inclusão e aculturação; pois é cedida a documentação para autorizar a viver e trabalhar no país, mas todos os outros aspectos ficam a cargo dos esforços de instituições da sociedade civil. Tais iniciativas esbarram na falta de conscientização da parte de quem recebe, o que facilita a exploração da mão-de-obra haitiana e aumento de trabalhadores clandestinos e envolvidos em trabalho pesado.

Por ter dificuldades com a língua portuguesa e não serem acostumados com os hábitos brasileiros, acabam reféns de maus empregadores que muitas vezes os colocam em condições análogas à escravidão. Em contextos assim, muitos não são pagos ou não recebem o suficiente para pagar alimentação e estadia. Alguns vivem da caridade de instituições como igrejas, porque estão aqui há mais de três anos e não encontram nenhuma forma de sustento.

Uma das instituições que vem ajudando os haitianos no Brasil é a ONG Viva Rio e seu projeto Haiti Aqui, que conta com treinamento, orientação profissional e até um programa de rádio em creole disponível na internet, com a intenção de auxiliar no processo de aculturação.

O Estado brasileiro se mostra incapaz de lidar com a situação imigratória porque, na mesma medida em que é aceito, ele é também rejeitado, através da negação do status de trabalhadores legais e outros direitos de cidadania, bem como outros tipos de exclusão velada como discriminação racial, dificuldade de comunicação e marginalização econômica – residindo em áreas periféricas e exercendo postos aquém de sua formação por conta de diplomas estrangeiros que não são reconhecidos em nosso território.

O fato de que pelo menos 85% dos cidadãos haitianos com ensino superior se encontra no exterior indica a diáspora da força de trabalho qualificada que migra, mas que nem sempre terá tal qualificação reconhecida no lugar onde chega; com a questão de idioma como um grande empecilho para a inserção no mercado numa posição compatível com sua formação, o que reforça de forma negativa a sua condição de estrangeiro.

Uma alternativa a essa questão pode estar na discussão sobre os direitos dos imigrantes durante os Ensinos Fundamental e Médio, o que aproximaria haitianos e brasileiros por meio de uma reflexão integrada. De acordo com dados de 2014 da OIM, 73,6% dos haitianos ganham salário insuficiente para sobreviver, com o custo alto de vida no Brasil e baixa remuneração como fortes geradores de discriminação e vulnerabilidade. Tais dificuldades e a falta de domínio da língua portuguesa aumentam o isolamento e prejudicam a inserção, aculturação e a ascensão social.

O fluxo imigratório para o país parece estar diretamente ligado ao mercado de trabalho nacional e sua demanda de dois extremos da força de trabalho – cargos destinados a pessoal super especializado, e o com o maior número de vagas, que é o setor de nível básico, que exige baixa qualificação e parece estar empregando mais imigrantes. De acordo com relatório da OIM do mesmo ano, as ocupações mais declaradas durante as solicitações de visto de permanência são na área de construção civil para os homens e no setor de serviços para as mulheres.

Em outra pesquisa realizada pelo mesmo órgão, em 2013, constatou-se um conjunto de fatores sociais e econômicos que indicam as maiores dificuldades do imigrante. Entre eles estão o idioma, o acesso ao emprego, habitação, formação e a discriminação, com a maior delas sendo o idioma. A adaptação do imigrante, a partir do modelo de Berry, é um processo bidirecional que tem a ver com a redefinição da relação do migrante com a cultura tanto do lugar onde chega como a do lugar de onde vem. Ela caracteriza integração, caso hajam relações fortes com ambas as sociedades, marginalização em caso de ausência de vínculo com elas, separação (laços maiores com o país de origem) e a assimilação, em que elas são mais fortes com o local de acolhida.

Para que a aculturação possa ocorrer, e, com ela, a maior adaptação do imigrante, medidas educacionais devem ser adotadas através da incorporação de elementos culturais de várias fontes a que o indivíduo possa ter sido exposto, incluindo assim sua história de vida e formação a nível cultural; fazer uma nova análise das relações em comunhão com a lógica de mercados, que também acabam explicando o aumento no fluxo imigratório, que devem ser integradas e irrestritas a fronteiras políticas. A produção cultural é considerada um dos melhores modos de integrar os imigrantes.

No caso dos haitianos e do Brasil, há muita necessidade de união com os governos de Peru e Equador, por estarem na rota dos imigrantes para chegarem ao nosso país; para inibir a atuação de coiotes, que tornam a situação ainda mais difícil e vulnerável.



Da Imagem do Imigrante: a desilusão com o Brasil

Com relação aos haitianos, também ocorre a imagem de ameaça como povo estrangeiro a ser combatida pelos locais – através de estigmas espalhados em rodas de conversa, muitas vezes relacionados aos fenótipos dos imigrantes, utilizados como estratégia de dominação.

Tais atitudes tendem a fazer com que os imigrantes fiquem desacreditados e sejam considerados como um mal necessário que deve ser constantemente vigiado. Uma das formas pelas quais essas pessoas sofrem com casos de racismo no Brasil é a redução da sua condição à sua nacionalidade e sua utilidade como mão-de-obra necessária principalmente para funções básicas, pesadas e de baixa remuneração.

Provavelmente como uma resposta ao preconceito sofrido e como forma de afirmação de sua identidade, temos como exemplo o uso da religiosidade com tal objetivo encontrado na cidade gaúcha de Lajeado, onde uma indústria alimentícia oferece opções de cardápio diferenciadas nas refeições dos funcionários haitianos.

Por consideração àqueles que afirmam não consumir carne suína por motivos religiosos, feijão e outras preparações onde a presença da mesma é comum, portanto, não são oferecidas a eles. Outro indício está na preparação da carne, em que o método brasileiro é criticado por deixar um “gosto forte” no alimento; bem como na questão de estilo de vida, citando que fazem pouco uso de bebidas alcoólicas e são considerados pelos empregadores locais como funcionários extremamente organizados e responsáveis.

Com relação ao dinheiro, os brasileiros são vistos como mais individualistas, enquanto no Haiti a cultura de partilhar o que se possui é bem mais difundida.

Depois de chegar ao Brasil por conta do terremoto de 2010, alguns anos depois milhares de haitianos se encontram em pior situação econômica do que quando partiram e com isso consideram fazer outras travessias perigosas pela América Latina ou mesmo os EUA.Os que chegaram ao país em 2014 se disseram atraídos pelas promessas de oferta de emprego farto que a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos trariam. Mas o que se vê hoje é a pior crise econômica desde a volta dos governos democráticos, e os haitianos ficando sem trabalho. Mesmo assim, o governo brasileiro atualmente concede cerca de dois mil vistos de permanência por mês e segue aberto aos imigrantes, mas muitos estão indo embora para lugares como Chile e Costa Rica (40000 entre 2014 e 2015).

Com o aumento na emissão mensal de vistos, o número de imigrantes que chegam por vias ilegais diminuiu a ponto de o abrigo no Acre acabar sendo fechado. O Brasil tem deixado de ser um destino paradisíaco para os imigrantes principalmente pelo custo de vida alto e a falta de treinamento, que não os permite receber o suficiente para viver bem aqui e também conseguir enviar recursos para as famílias que permanecem na ilha. Sendo assim, não somos mais os maiores recebedores de imigrantes que éramos até a metade do século XX, quando obtemos muito de nossa diversidade cultural com a chegada de europeus, árabes e asiáticos.

Até 2015, o Brasil tinha apenas 713.568 (OIM, 2016) residentes estrangeiros, de acordo com relatório da Organização Internacional da Migração; especialmente na última década, a atração pelo Brasil como destino aumentou neste século, diminuindo em 20% de 2010 a 2015. O maior fluxo de imigração tem sido no eixo Sul-Sul.

Até 2011, não havia instância ou secretaria de governo responsável por tudo o que concerne a questão migratória; com políticas feitas pelo Conselho Nacional de Imigração, fiscalização e controle de permanência pela PF, regularização de vistos com o Ministério da Justiça e as negociações diplomáticas acontecem através do Itamaraty, ainda sendo tratadas majoritariamente sob viés econômico, segundo o caderno Economia do jornal O Globo e declarações do presidente. No dia 21 de novembro de 2017 entrou em vigor a Lei 13,445/2017 que diz respeito à migração e que promete transparência e menos burocracia ao derrubar o antigo Estatuto do Estrangeiro de 1980 e tirar do imigrante o rótulo de ameaça do Estado e frisar sua condição de ser humano pleno de direitos e obrigações; porém a polêmica começa com o decreto 9.199/2017 relacionado a ela e suas aparentes restrições à garantia de tratamento igualitário entre brasileiros e haitianos.

Isso ocorre porque o texto apresenta passagens que diminuem o enfoque humanitário e foi sancionado pelo Poder Executivo com apenas uma reunião e consulta pública consideradas insuficientes antes de ter sua minuta disponibilizada, como também artigos que apresentam problemas de legalidade. A Lei passou por extensa participação da sociedade civil e de organizações internacionais e propõe fim às prisões migratórias e deportações imediatas, com ilegais em território brasileiro sendo autuados e com assistência jurídica para sua permanência.

Pessoas sem documentação nas fronteiras, que busquem refúgio ou ajuda humanitária e crianças desacompanhadas serão agora acolhidas e expulsões ocorrerão apenas em caso de crime com pena de restrição de liberdade, ficando proibidos de retornar ao Brasil pelo dobro do tempo da condenação. Entre os motivos que podem ser alegados para a obtenção de visto temporário estão tratamentos de saúde, recebimento de oferta de trabalho, reunião com familiares e acolhida; o refúgio, mais especificamente, não se enquadra em casos com questões econômicas e ambientais. Também autoriza acordos em que o imigrante preso aqui cumpra pena em seu país de origem, mas outro entrave no acesso dessas pessoas a informações corretas é o número de instituições envolvidas nessas questões, que passam pelo Ministério das Relações Exteriores, MTE e pela Polícia Federal.



O Imigrante Haitiano e a Imprensa Brasileira

Com relação à imprensa, mesmo na década de 2010 ainda existe a escolha por uso de termos de lugar-comum dentro das abordagens da complexa questão imigratória. Apesar de aos poucos começarem a aparecer medidas que prestam mais atenção à questão dos direitos humanos, nota-se que, por exemplo, o fato de o imigrante não poder votar nem ser votado não possui tanta importância quanto a influência de um irregular no mercado de trabalho local. Isso sem contar que as discussões relevantes à área vêm sendo atropeladas por períodos eleitorais e outras tramitações. Também se percebe o “empurrão com a barriga” nas explicações de um lado e outro da sociedade civil e governo na tentativa de justificar a burocracia enfrentada pelos imigrantes. Ela, na maioria das vezes, oscila entre despreparo do Estado e a admissão de que são realmente numerosas as necessidades dessas pessoas.

Entre os lugares-comuns adotados por boa parte dos jornais (e que acaba se provando um mito na prática), está o de que o Brasil é uma nação hospitaleira e aberta a todos. Mas se analisarmos comentários a essas matérias que dão essa impressão, verificamos que se aplicam apenas aos “imigrantes desejados” – europeus e, eventualmente, asiáticos e árabes. O que também inclui generalizações que não condizem com o atual cenário internacional, números que não batem e omissão de dados.

Em reportagens como a da Folha de São Paulo narra-se a saga de haitianos e senegaleses desorientados após mais de 70 horas de viagem, de exploração por parte de “coiotes” e más condições ao chegar ao país – com o próprio repórter tendo de fazer contato com órgãos como a Missão de Paz, de SP, para que haja algum tipo de assistência. Há também destaque para as instituições religiosas envolvidas na questão. Imigrantes vagando em seus entornos porque não encontram trabalho devido à falta de documentação e que se alimentam através de doações. Assim como aqueles que recebem ajuda de compatriotas que estão no país há mais tempo.

Outros artigos ilustram o fechamento do abrigo de Brasileia, com o governo do Acre apressando-se para “dispensar” os imigrantes para seus destinos finais no Brasil e depoimentos que descrevem situações de grande humilhação. Também se vê por elas a necessidade de acordo entre as autoridades haitianas e brasileiras.

Percebem-se promessas de ação conjunta entre os governos estaduais em encontros que se afirmam inéditos, mas não são. Medidas que poderiam resultar em hospedarias como as existentes durante os séculos XIX e XX para os imigrantes chegam a ser consideradas nessas reuniões. Por conta da influência cada vez maior das instituições que defendem os direitos humanos, a imprensa vem tentando manter-se “politicamente correta”, com adaptações à intolerância diante dos imigrantes indesejáveis, embora ela ainda se mantenha.

Apesar de reconhecer que atualmente o número de imigrantes irregulares vem diminuindo e de que ele é pouco significativo em termos gerais, ela ainda tende a enfatizar que os números totais da imigração haitiana surpreendem o governo e a opinião pública. Tratando-os a priori como um problema social desde o século XIX e reforçando seu impacto na economia local, independentemente do racismo e xenofobia que sofram.

Mesmo fazendo críticas ao governo, coloca-se muito crédito na crença de um Brasil hospitaleiro e justo, em que o imigrante é um bode expiatório de questões genéricas. A questão imigratória se vê reduzida a interesses de partidos de oposição, algo de responsabilidade exclusiva do Governo Federal. Sem contar o uso de termos que associam a ilegalidade administrativa como algo inerente à sua pessoa e a relevância de seus direitos humanos assegurados é ignorada. Felizmente, nem todas as reportagens são assim. O número de artigos relativamente imparciais, que destacam posicionamentos que defendem os direitos dos imigrantes e apontam para falhas de políticas governais que podem torna-los mais vulneráveis vem aumentando.

No entanto, o enfoque e tom da maioria continua nas tragédias e incidentes ocorridos nas travessias até aqui, além do uso de termos pejorativos. A maior parte das estatísticas é omitida, e as que aparecem são impregnadas do senso-comum de que o país está sendo “invadido” por imigrantes, e outras contradições. Entre as denúncias que podem ser encontradas nos relatos da imprensa, estão violações de direitos humanos e outras como não pagamento de horas extras, falta de assistência médica e falsas promessas na chegada ao Acre. Sem esquecer das jornadas de trabalho acima do tempo permitido e salário abaixo do piso e alojamento e comida de baixa qualidade.

Também há relatos de empregados escolhidos no Acre pela aparência de seus dentes e canelas, como no tempo da escravidão, e de acusações de que os imigrantes trouxeram ou podem trazer o vírus ebola para o Brasil, mesmo que não haja casos da doença no Haiti.



Considerações Finais

É triste e penoso perceber que, além de todas as desgraças pelas quais passam e que os obrigam a deixar o país de onde vêm, imigrantes, e mais ainda os haitianos, sejam obrigados a suportar entraves burocráticos, falta de emprego (ou situações de subemprego), casos de xenofobia, racismo e outros preconceitos.

O triste paradoxo do país que se diz aberto e que facilita a vinda de estrangeiros para morar e trabalhar aqui sempre que necessário, mas que não os auxilia em sua adaptação ou aculturação fica mais evidente nos mitos espalhados e na demora para a implantação de políticas públicas concretas para lidar com questões complexas como a dos imigrantes.

Certamente para que o slogan das fronteiras abertas faça sentido na prática, o Estado precisa estar preparado para dar a atenção devida às necessidades desta população, usar a educação como forma de mitigar ignorâncias e preconceitos com as novas culturas que chegam aqui e propiciar canais de denúncia para casos de maus tratos.



Referências 

BÖHM, Thais. Nova lei regula situação de estrangeiros no país. Disponível em: . Acesso em: 16 jun. 2018.

CAMPOS, Gustavo Barreto de. Dois séculos de imigração no Brasil: A construção da imagem e papel social dos estrangeiros pela imprensa entre 1808 e 2015. Rio de Janeiro, 2015. 545 f. Tese (Doutorado em Comunicação e Cultura) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Comunicação, Rio de Janeiro, 2015. Orientador: Mohammed El Hajji. Disponível em Acesso em 30 jun. 2018.

COSTA DE SÁ, Patrícia Rodrigues; SILVA, Filipe Rezende. Desafios à inclusão dos imigrantes haitianos na sociedade brasileira. Trabalho submetido ao Seminário “Migrações Internacionais, Refúgio e Políticas”, realizado no dia 12 de abril de 2016 no Memorial da América Latina, São Paulo. Disponível em Acesso em 30 jun. 2018.

DALMAGRO, Marcia Luíza Pit; LAJUS, Maria Luíza de Souza; RISSON, Ana Paula. Imigração e trabalho precário: Reflexões acerca da chegada da população haitiana no oeste de Santa Catarina. Estado das Artes. Periplos: revista de investigación sobre migraciones. v. 1, n. 1, 2017.

DE PAULA, Cykman Larissa. As experiências migratórias a partir da inserção local de migrantes haitianos(as). Estado das Artes. Periplos: revista de investigación sobre migraciones. v. 1, n. 1, 2017.

DIEHL, F. O processo de formação do estereótipo dos imigrantes haitianos em Lajeado, Rio Grande do Sul. Dossiê: Imigração Haitiana no Brasil: Estado das Artes. Periplos: revista de investigación sobre migraciones. v. 1, n. 1, 2017.

FERREIRA, Granada Daniel. Negritude e diferença no caso da imigração haitiana no sul do Brasil. Estado das Artes. Periplos: revista de investigación sobre migraciones. v. 1, n. 1, 2017.

GIRALDI, Renata. Sírios e haitianos têm tratamento diferenciado no Brasil. Disponível em Acesso em 15 jun. 2018.

HALL G., Kevin. Brazil, once a Heaven, now a dead end for many Haitians. Disponível em Acesso em 15 jun. 2018.

JOSEPH, Anderson. A historicidade da (e)migração internacional haitiana. O Brasil como novo espaço migratório. Estado das Artes. Periplos: revista de investigación sobre migraciones. v. 1, n. 1, 2017.

OSAVA, Mario. Wars, crises and catastrophes drive immigration to Brazil. Disponível em Acesso em 15 jun. 2018. 

OLIVEIRA, Márcio de. Haitianos no Paraná: Distinção, integração e mobilidade. Estado das Artes. Periplos: revista de investigación sobre migraciones. v. 1, n. 1, 2017.

*Bacharelanda em Relações Internacionais pelo Centro Universitário UNINTER

** Doutor em Ciência Politica - UFPR, Professor em Relações Internacionais Centro Universitário Uninter

- para melhor visualização das referências, clique aqui.

domingo, 21 de outubro de 2018

Das dificuldades de ser artista

Principalmente desde que publiquei meu primeiro livro de poesia (que pode ser adquirido aqui), de forma independente, sabia que as praticidades da possibilidade viriam com um preço: absolutamente tudo a respeito deste projeto de que tanto me orgulho ficaria por minha conta. O que, apesar de tudo o que ainda tenho de melhorar em termos de marketing pessoal, fez com que eu pensasse no assunto porque, pela primeira vez, eu teria a sensação de que minhas palavras pertencem a mim mais do que nunca. E é verdade.

Mas, como mais uma entre muitxs artistas que tentam ter algum tipo de renda através daquilo que mais lhe dá prazer, algumas constatações vêm me ocorrendo e obviamente não me fazendo desistir do ramo, mas me levando a muitos questionamentos de como a classe em geral (e especialmente aqueles na mesma situação que eu) é vista. Especialmente nos tempos atuais, com o advento da internet.

 Eu venho de uma cidade não muito grande, no interior do meu Estado, geograficamente bastante distante mesmo da capital Porto Alegre. Tanto assim, que nem mesmo sei se este artigo será lido. Ou seja, a geografia já não me ajuda. Quando publiquei um romance do qual muito me arrependo em 2013 e passei por alguns perrengues no processo, praticamente todos, se não todos, os livros que vendi, foram para pessoas que eram minhas conhecidas. Com certeza muito também porque o livro era físico e porque gastei dinheiro que nem era meu para fazer um evento de lançamento; que foi pago com cem por cento do lucro das razoáveis vendas daquele dia.

Quando decidi publicar meu ebook na Amazon, com toda a convicção do mundo, sinceramente pensei que as mesmas pessoas acabariam adquirindo o livro. Ainda mais por ser de poemas e eu já ter sido de certa forma cobrada a publicar algo do gênero. Mesmo sendo digital. Mesmo não sendo logo de imediato após o lançamento. Mas por enquanto, seis meses depois, nada disso aconteceu, nem por parte delas, e eu me questiono o motivo.

Falta de hábito de leitura? Falta de um evento de divulgação? Crise econômica, mesmo ele sendo muito mais barato do que o meu velho romance? Falta de livro físico? FALTA DE INTERESSE?

A possibilidade da falta de interesse fica clara para mim quando lembro que esta semana um pintor amador dos EUA, que até aquele momento havia vendido seus quadros apenas a pessoas próximas, viveu a maravilha de ter duas peças vendidas a uma jovem celebridade do outro lado do mundo, que nunca o tinha visto antes, por 400 dólares cada uma, em pessoa, porque achou justo, sendo que o mesmo rapaz poderia ter adquirido qualquer outra coisa ou mesmo comprado as obras por pena do artista (o que, conhecendo o histórico do sujeito, com certeza não foi o caso).

Não posso nem imaginar a alegria do homem. Sempre que me for possível, procurarei fazer o mesmo, seja como presente ou para minha coleção pessoal, e com a mesma intenção do rapaz, e não só por estar na mesma posição. Por experiência própria sei que muitas vezes joias que tocam fundo em nossos corações podem ser encontradas nos lugares mais inesperados. O fato de eu até agora não ter conseguido vender sequer um livro para alguém próximo a mim e que diz apoiar a minha escrita me faz sinceramente questionar se tal apoio é verdadeiro. Claro que não se trata apenas disso, mas se não fosse, não estaria à venda e não teria me dado o trabalho de fazer tudo isso quando já está tudo publicado de graça e com prazer no blog. Não importa quando nem como, queremos apoio concreto daqueles perto de nós com relação ao nosso trabalho – e isso inclui divulgação e coisas do tipo.

As pessoas não fazem ideia do quanto não ser renegado assim nos ajuda tanto na parte burocrática e prática da coisa, quanto na motivação para seguir adiante. E do quanto dispensamos tudo isso. Queremos gente que se importe conosco e com nossa arte. Que hajam menos Vincent van Goghs neste mundo, sendo reconhecidos tarde demais. Os tempos sempre foram difíceis para nós...

21/10/2018

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Fragmentos, I

Por um beijo ou outro
eu pagaria um verso
talvez sem sentido ou disperso
para tu levares no bolso.

Num pedacinho desse papel
que tu nem sabes que exerceu
quando veio e quis ser meu
isso que tu tens, esse mel.

Tantas são mais lindas
nos teus lábios
do que nos que se acham tão sábios
com suas falas medidas.

Pois que o amor da tua boca
não é em vão
nem sufoca
com mero jargão.

19/10/2018

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Rendição

Vulnerável, nua,
tão tua
na tua mão
de seda
onde meu coração
se enreda.

E me visto
dentro disto
que já não é acaso,
mas sorriso,
flor de vaso
em sacrifício.

09/10/2018

sábado, 6 de outubro de 2018

Das tantas singularidades

Acho que há uma beleza na constatação de que, talvez, por mais que eu leia a letra daquela música milhares de vezes, eu não consiga estabelecer interpretações e significações específicas e fixas para ela por mim mesma, mesmo sabendo que por natureza ela possui muitas palavras e ângulos de visão (o que já gosto muito em si)... E como mesmo estes mudam....

Mas isso não me impede de me sentir tocada por ela em todas as suas características. É interessante perceber como ele é outra dessas tristonhas que acabam sendo cantadas de forma bem sensual - talvez para destacar a melancolia.

À primeira vista ela me pareceu ser uma pessoa se queixando para outra de que deu tudo de si com relação àquela dinâmica, mas que isso não foi valorizado... Foi tratado como se não fosse importante, e a única solução do eu-lírico é voltar-se para si mesmo de modo a curar essas feridas.

Acho que se olhar de novo para ela, pode ser que veja outra forma de significá-la, e isso não deixa de ser algo bom. Vamos ver...

Talvez o som que o eu-lírico ouve e que o impede de dormir seja a rachadura no lago congelado onde ele percebe que as circunstâncias o colocaram e que o afoga para impedir que ele se expresse livremente, porque de alguma forma aquele contato é tóxico.

O som é importante e não-familiar e por isso não o deixa dormir, de modo a fazê-lo perceber a situação em que se encontrava e esforçar-se para sair dela. Mesmo de vez em quando ainda se questionando se vale a pena se submeter àquilo tudo e se o próprio questionamento faz sentido, ele sabe que um dia a dor acabará e ele reencontrará seu ser e sua voz.

06/10/2018

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

04/10/2018

Tantas de nós fomos criadas achando que respeitar 
é engolir tudo e baixar a cabeça, 
que quando a gente faz o contrário
diz que somos revoltadas 
ou qualquer coisa do tipo... 
Eu estou percebendo isso com o tempo.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Moradia

Eu não sabia
o quanto era bom,
o quanto valia
um abafado som.

Eu só deitava nela
e, pequena, ouvia
com atenção e cautela
a música que se fazia.

Foi só notando em mim
o que me dava tal vida
que eu soube que era assim
a casa da minha maior dívida.

27/09/2018

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Oculta

A cidade se recolhe,
escuta o próprio silêncio
e dorme.

Sem saber que nem escolhe,
mas no escuro desnuda
e a enche de vida.

Com luz que dizem não ser sua,
talvez fraca e disforme -
mas que ainda ilumina.

Uma amada que beija, é sentida
no chão, na face nua
e até no vazio.

Basta um pio para que acuda
em mão e graça feminina
que abre os olhos, mais atentos...

Para a mudança dos ventos
que podem conduzir aos seus braços,
sorrisos e arranjos.

27/09/2018

terça-feira, 25 de setembro de 2018

O futuro da juventude brasileira em jogo

Quase nunca posto nada "opinativo", mas tem horas que os dedos coçam de verdade... Sei que estou acordando tarde para essas coisas, mas é melhor do que nunca. Fico jurando para mim mesma que não vou trabalhar na área de Relações Internacionais de jeito nenhum, mas aí leio coisas de fazer o sangue ferver.

Cara, ontem mesmo a ONU lançou a Agenda pra 2030 pra que a juventude consiga finalmente tomar as rédeas desse mundo e consertar a bagunça da geração anterior e o Brasil não teve sequer UM delegadx na Assembleia! Pleno ano eleitoral e o Brasil não abre candidatura prum delegadx poder abrir o bocão na Assembleia da Juventude. Não dá pra se conformar, só pode ser piada. Tínhamos que ter cobrado do governo SIM!

Claro que se a gente pensa bem, muitas (se não todas) as Agendas implementadas pela ONU deixaram de ser cumpridas, mas AGORA ESTÁ MAIS QUE NA HORA DE COBRAR! É da minha geração e da próxima que estamos falando. Estamos com medo dum futuro sem respeito ou emprego. Não tivemos voz nem mesmo na Reunião da Comissão de Desenvolvimento Social... Das duas uma: ou a juventude se apavorou e esqueceu de cobrar por essa chance, ou aconteceu e Brasília não fez nada.

Claro, é ano eleitoral, vamos concentrar nas picuinhas direita x esquerda e encher a cabeça do povo pra ele esquecer que dá pra fazer alguma coisa de cima pra baixo... Deus o livre alguém do exterior ficar sabendo da bagunça que está acontecendo aqui, não é mesmo?

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Nova Iorque, 24 de setembro de 2018

"Obrigado ao Sr. Secretário-Geral, à Diretora Executiva da UNICEF e a todas Vossas Excelências e distintos convidados do mundo inteiro. Meu nome é Kim Namjoon, também conhecido como RM, líder do grupo BTS. É uma honra incrível ser convidado para uma ocasião com tal significado para a geração jovem de hoje.
Em novembro passado, o BTS lançou a campanha LOVE MYSELF com a UNICEF, construída na nossa crença de que o amor verdadeiro começa primeiro com amar a mim mesmo. Temos estado em parceria com o Programa da UNICEF Para O Fim da Violência para proteger crianças e jovens ao redor do mundo da violência. E nossos fãs se tornaram uma parte maioritária desta campanha com sua ação e com seu entusiasmo. Nós temos mesmo os melhores fãs do mundo. E eu gostaria de começar falando sobre mim mesmo.
Eu nasci em Ilsan, uma cidade próxima a Seul, Coreia do Sul. É um lugar muito bonito com um lago, colinas, e até mesmo um festival anual das flores. Passei uma infância muito feliz lá, e era apenas um menino comum.
Eu costumava olhar para o céu noturno e me perguntar, e costumava sonhar os sonhos de um menino. Costumava imaginar que era um super-herói que poderia salvar o mundo. E na introdução de um dos nossos primeiros álbuns, há um verso que diz 'Meu coração parou quando eu tinha talvez nove ou dez anos'. Olhando para trás, acho que foi quando comecei a me preocupar com o que as outras pessoas pensavam de mim e comecei a me enxergar através dos olhos delas.
Eu parei de olhar para os céus noturnos, as estrelas. Parei de devanear. Em vez disso, eu apenas tentei me encaixar nos moldes que outras pessoas fizeram. Logo, comecei a calar minha própria voz e comecei a ouvir as vozes dos outros. Ninguém chamou pelo meu nome, nem eu. Meu coração parou e meus olhos se fecharam. Então, assim, eu, nós, todos nós, perdemos nossos nomes. Nos tornamos como fantasmas.
Mas eu tinha uma sensibilidade, e era a música.
Havia uma vozinha dentro de mim que dizia 'Acorde, cara, e escute a si mesmo'. Mas eu levei muito tempo para ouvir a música chamar pelo meu verdadeiro nome. Até mesmo depois de tomar a decisão de me juntar ao BTS, houveram muitos obstáculos. Alguns podem não acreditar, mas a maioria das pessoas achava que éramos incompetentes. E, às vezes, eu quis apenas ir embora.
Mas acho que fui muito sortudo por não desistir de tudo. E tenho certeza de que eu, e nós, continuaremos tropeçando e caindo assim.
O BTS se tornou artistas performando naqueles estádios enormes e vendendo milhões de álbuns agora, mas ainda sou um cara comum de 24 anos. Se há alguma coisa que eu tenha conquistado, isso só foi possível porque tenho meus companheiros do BTS bem ao meu lado e por causa do amor e apoio que nossos fãs do mundo inteiro têm por nós.
E talvez eu cometi um erro ontem, mas o meu eu de ontem ainda sou eu. Hoje eu sou quem sou, com todos os meus defeitos e meus erros. Amanhã, pode ser que eu seja um tantinho mais sábio, e este também será eu. Esses defeitos e erros são o que sou, formando as estrelas mais brilhantes na constelação da minha vida. Passei a amar a mim mesmo por quem eu sou, por quem eu fui, e por quem eu espero me tornar.
Eu gostaria de dizer uma última coisa.
Depois de lançar os nossos álbuns LOVE YOURSELF e a campanha LOVE MYSELF, começamos a ouvir notáveis histórias de nossos fãs do mundo todo de como a nossa mensagem os ajudou a superar suas dificuldades na vida e a começarem a se amar. Essas histórias nos lembram constantemente da nossa responsabilidade. Então, vamos todos dar mais um passo.
Nós aprendemos a amar a nós mesmos, então agora eu os exorto a falar. Eu gostaria de perguntar a todos vocês, 'Como você se chama? O que te empolga e faz seu coração bater?'. Conte-me sua história; eu quero ouvir sua voz e quero ouvir sua convicção. Não importa quem você é, de onde você seja, a cor da sua pele, sua identidade de gênero, apenas fale. Encontre seu nome e sua voz ao falar.
Eu sou Kim Namjoon, e também o RM do BTS. Sou um idol, e sou um artista de uma cidadezinha da Coreia. Como a maioria das pessoas, cometi muitos e muitos erros na minha vida. Tenho vários defeitos, e muitos outros medos, mas me aceitarei tanto quanto puder e estou começando a amar a mim mesmo gradualmente, de pouquinho em pouquinho.
Como você se chama? Fale. Muito obrigado."

- tradução minha

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

As verdadeiras cores

Meu coração literalmente se aquece quando eu noto que a primavera está se aproximando, mesmo que eu só raramente saia de casa.

É só quando agosto está terminando e setembro vem que eu me lembro que esta cidade está cheia de ipês espalhados pelas ruas. Porque durante metade do ano eles estão despidos e parecem as árvores que a gente vê nos filmes de terror, já que elas ficam sem folhas ou flores para deixar a luz passar durante o inverno.

Só me lembro do que elas realmente são uma vez que as vejo desabrochar. Com certeza como prova de que, apesar da nudez dos galhos, a vida ainda está pulsando, mesmo que adormecida. E é amarela, rosa, vermelha, roxa, branca, com duas cores...

Preciso mesmo olhar mais à minha volta e também para o céu; principalmente agora que há de ficar mais azul. E talvez guardar comigo o tecido das flores... Apesar de tudo o que no fundo ainda sangrará sem ser curado totalmente.

19/09/2018

terça-feira, 18 de setembro de 2018

August 2nd

The time when I came
whispers an echo in the air
to feed the flame
and remind me I'm still there.

If I listen really close,
I hear it say "hey, little rose -
only this month and a few more days
and the cold is gone,
just hang on,
still ablaze..."

18/09/2018

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Resto

Às vezes a solidão
faz isso;
te deixa sem memórias,
sem histórias para contar.

E a pergunta que resta
depois do sumiço
e da compreensão
é quem no fim vai ficar.

Nem tudo é feito para durar,
mas não quer dizer que não doa
ter que terminar o serviço
porque foi grande a viração...

Que já não passa de lembrança boa.

17/08/2018

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Incognito

I love how the queen
you always talk about
could either be me...

Or everyone,
even anyone
and no one
but a she...

And that's all your fault,
spread out under the sun,
as clean as any sin...

08/09/2018

domingo, 9 de setembro de 2018

Scarring

I wonder if such is the wish
of the flesh and soul of ours -
never forgotten, instead, engraved
even if it sounds selfish
to crave a path to be paved
into forever or a matter of hours.

The gentler you are,
the more you'll remain.
It's quite easy to raise the bar
and leave a beautiful stain.

The right way is an echo
of a sly boy like the ocean
and the power of a wave
at a motion -
even unheard, it doesn't go,
never learned how to behave.

For even if the mouth is silent,
the surface still sings
when no one is looking for repent
that no prayer ever brings.

08/09/2018