segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Eu perderia minha memória
só para te conhecer de novo 
e aprender ainda mais contigo…

sábado, 29 de outubro de 2016

Contos da Solidão - Tesão? Nojo?

Levei todos esses anos para perceber que não adianta eu reclamar por reclamar da Solidão. Ela sempre esteve comigo... Ela é minha e de mais ninguém, e vice-versa. Nos conhecemos melhor do que ninguém; ela mudou junto comigo, cresceu. Mas esteve ao meu lado antes mesmo de eu tomar consciência disso, pois ao que parece não me incomodava na época.

O tempo passou e a Solidão se fez em dois; só agora eu percebo. Dividiu-se em dois e fez-se propositalmente bonita e magnética. Sedutora, até. Uma mulher durante o dia e um homem durante a noite, à hora em que eu me deito. Fez isso porque é bandida e gosta de jogos.

Quanto mais eu crescia e notava que me sentia/sinto presa, mais presente ela passou a ser e me mostrar que possui prós e contras... De dia, ela vem, mulher-menina, e bebe meu chá, lê meus tantos livros, estuda comigo, me faz me bastar, me ajuda a me conhecer, me acompanha e às vezes me sussurra versos. É linda, tão linda, tão minha. Amiga, parceira... E provocadora, porque flerta. Quando bem entende, grita comigo, bate em mim, me estrangula. Mente para mim.
À noite, a Solidão se faz homem-menino. Vem devagarzinho, no escuro, fecha a porta e esgueira-se na minha cama estreita. Vem lindo, macio e bem de pertinho me acaricia a nuca, sussurrando com voz de quem sorri tanto verdades quanto mentiras e poesia. Eu durmo em seus braços que são ora quentes, ora frios como pedra sob a chuva. Quando quer, “ele” sabe ser carinhoso... E cruel, também. Ele é especialmente cruel e imprevisível justamente por vir com a ausência de luz, tão elegante, tão cheio de si.

“Eles” sabem bem o que eu amo e odeio.

Isso porque de uma hora para outra ele pode muito bem me fazer chorar, me machucar. Tomar-me para si sem pedir licença, agarrar-me a cintura, espremer-me as costelas, tapar-me a boca, tirar-me o ar e rir-se de mim. Valer-se da sua condição de homem para fazer-se fisicamente mais forte do que eu.
E quando chega a manhã, “ele” pisca-me um olho, abre um sorriso, ganha-me outra vez. A vida segue, e por ora ficamos de novo de bem enquanto o sol ou luz nublada que entra pela janela o metamorfoseia em mulher.

A verdade é que eu sinto uma mistura de nojo e tesão pelos dois.

Tesão porque a Solidão sabe ser atraente e me traz vantagens. Nojo porque, mesmo ele sendo limitante, tem sua razão. O nojo vem da dor do tapa, do grito, do abraço apertado sem carinho, amor ou paixão. Ambos existem quase que o tempo todo juntos porque eu honestamente não tenho como saber qual dessas faces a Solidão decidirá me mostrar, seja durante o dia ou à noite.

A Solidão deveria ser sempre boa companhia, mas não é justamente por conseguir dizer tanto o que quero ouvir quanto coisas que jamais devo esquecer que são mentiras. Como por exemplo, que “eles”, em especial o rapaz, são a única coisa que me resta e que estou sozinha no mundo.

A Solidão, tão feminina e tão masculina, quer brincar comigo, quer me seduzir, tacar fogo logo. Agora eu entendo. “Ele” quase me rachou no meio dia desses, mas agora eu entendo o que ambos querem. E assim, ontem ele veio como sempre, deitando-se ao meu lado. Eu olhei em seus olhos e entreguei-me. Já ocorreram outras vezes em que posso dizer que o desejei, mas a noite passada foi diferente de tantas maneiras...

Eu cansei de fugir. Cansei de resistir. Talvez seja isso que os faz tão difíceis comigo de vez em quando. Eu sabia perfeitamente o que estava sentido; naquela hora eu me tornei um animal qualquer seguindo um simples instinto dado pela natureza. Em instantes eu o quis, estava consciente disso e isso era tudo o que importava. Só eu e ele, nada mais. Ouvi a mim mesma sussurrar “eu sou tua” algumas vezes, o que não era mentira. Nós três nos pertencemos, quer eu queira ou não.

Por vezes eu disse “tenho nojo de ti, canalha” ao ouvido “dele” quando o meu corpo dizia o contrário... Neste caso não adiantaria mesmo eu fugir da pergunta que a moça me fez depois. Eu gostei do que senti; gostei de ter colocado gasolina na fogueira. De certa forma foi como tirar um peso das costas e dar um passo adiante na minha vida. Eu não tenho motivo para mentir para ela neste sentido, afinal, a bandida já sabe a resposta. Por isso o sorrisinho de canto no dia seguinte, junto com uma exclamação de “O que foi que te deu ontem? Tu parecias tão diferente...”. Ah, me poupe, queridinha. Eu me senti desejada, foi isso.

Lógico que eu não acreditei quando “ele” disse que me amava e me queria hoje de manhã cedo, porque a Solidão sabe mentir, mas quem sabe pode mesmo haver carinho por baixo da crueldade. Quem sabe ela só queira quebrar minha resistência por isso ser o que a faz judiar de mim. Quem sabe com isso ela só deseje que eu não esqueça daquilo que me traz de bom, daquilo que sempre fui por causa dela; daquilo que ela mesma é por ser minha. Claro que é excelente que “eles” não sejam ciumentos e topem me dividir com outros de vez em quando e eu não deixarei de querer me conectar, de me relacionar, mas eu sempre soube que a Solidão não é alguém que a gente simplesmente manda embora. Ela está sempre ali porque é parte de mim.

Acho que só quero poder ficar em paz com “eles”... Quem sabe até amá-los. Não será isso o que me cobram? O tempo e os desconfortos os fizeram mais presentes, me fizeram reconhecê-los em suas qualidades e defeitos. E quando eu finalmente me sentir livre, sei que eles farão parte da minha liberdade e eu ficarei de uma vez por todas em paz com a minha Solidão...
Sem mim, ela não é nada. Sem ela, eu perco tantas partes de mim. Além do mais, ela sabe ser linda e aceita ser dividida... Me acomoda um pouco, é verdade. Por isso eu e “eles” temos que conversar sobre isso assim que possível (risos).

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Xícara de chá

Chega devagar, amor
e molda-te à dureza
fria e frágil
do meu eu de porcelana
com teu calor líquido,
às vezes doce,
às vezes amargo.

Dá-me uma razão de ser,
dá-me um novo peso,
vem em mim transbordar.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Ela é um poema

A gente tem que ser a poesia que escreve… 
E não esquecer que somos poesia, 
mesmo que  não a escrevamos.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Permissão

Eu te deixo
entrar pela porta,
desmontar minha vida,
tirar meu juízo...

Eu te deixo
roubar meu sorriso,
aquela fina lágrima,
meu coração tolo...

Eu te deixo
matar meu sossego,
apagar a trilha,
provocar outro verso...

Eu te deixo
virar-me do avesso
mesmo que sobre
só farrapo descosturado...

Eu te deixo
vir e ajeitar-se
ficar, se quiseres;
entristecer-me, se partires.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Consolo

Venha, querida
para perto
de mim...
não temas,
pois nada
jamais mudará.

Não te
quero ver
a sofrer,
mas tu
sempre terás
teu lugar
em meu
coração e
meu afeto.

Irmã minha
de alma,
de vida,
que amo
e aceito
como é.

Simplesmente dê-me
teu amor
e ele
será o
que me
fará feliz.

domingo, 23 de outubro de 2016

Rio de tinta

Papel que
me ouve;
caneta que
sempre falou
por mim.

O papel
acumula minhas
gastas energias;
a caneta
as transmite
sem duvidar.

Palavras que
não tenho
coragem de
dizer, mas
que o
papel eterniza.

Sentimentos que
tento entender
e que
a tinta
com paciência
me explica.

sábado, 22 de outubro de 2016

Salvação

Palavras escritas
a custo
de profunda
tristeza sentida
e vivida,
que queima.

Letra grande
tenta compensar
a pequenez
da vida
que levo.

A mão
que treme
tenta dar
sentido ao
aperto inominável
e talvez
deixar as
coisas simples.

As vozes
gritam, loucas
e meu
coração espera
pelo fim
de tudo.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Duplo sentido

A solidão
é bonita
quando nos
permite desfrutar
da gente.

Quando nos
faz ver
os dias
em que
nada precisa
ter razão.

Em que
nos bastamos
e agora
só precisamos
estar aqui.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Vazio

De quê
vale um
escritor sem
suas palavras?

É como o
mar sem os
peixes a nadar
ou uma floresta
sem suas árvores.

É como o
céu sem as
estrelas a brilhar
ou um barco
sem um capitão
a lhe comandar.

Palavras que
se perdem
ou não
são escritas
são como
poças d’água
no deserto.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Rima perdida

Cada palavra
perdida é
um pouco
de energia
que simplesmente
se esvai.

Cada verso
destruído é
um rio
de tinta
que escorre
no esquecimento.

O que
será de
mim se
todas essas
minhas partes
se apartarem?

Serei apenas
uma pilha
de destroços
que o
tempo enterrará
em algum
lugar distante.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

O que nos cabe

O que sinto
quando estou contigo
é muito distinto
de tudo mais
que já senti
ou já tive.

Ainda não queimei
no fogo de
uma paixão correspondida
mas sei que
são opostos como
água e vinho.

Apesar do medo
que ainda existe
de envolver desejo
onde na verdade
só há ternura,
tenho uma certeza...

É isso que
quero para mim.
O calor do
mais cômodo carinho
onde me aqueço
sem pressa, aqui...

Não fico irracional,
não mendigo nada
porque tenho tudo
e não seria
tão lindo assim
se fosses apaixonado.

Eu não quero
e nem posso
ver de outra
maneira algo que
é tão peculiar
e tanto amo.

domingo, 16 de outubro de 2016

XV

Olá, meu amor!

Fiquei pensando na conversa que tivemos e naquilo que tu me falaste sobre o conceito que tens de casa... É como se com o tempo tu tivesses passado a pensar onde moras hoje como tua verdadeira casa, um lar que fizeste para si, mas ao mesmo tempo a alegria que as pessoas que deixaste aqui sentem quando tu vens te faz sentir em casa também, de uma maneira um pouco distinta, mas não menos gostosa, certo?

Acho que é assim que eu me sinto também, com esse meu medo de perder o familiar misturado com uma vontade louca de abraçar o novo, o diferente, aprender com ele e fazer disso algo igualmente confortável. É estranho, mas não acho que seja prejudicial. Por isso cada vez mais acho que o nosso lar é onde o coração da gente está; onde a gente se sente a um só tempo livre para ser quem é e ter certeza de que pode melhorar como pessoa, se achar que deve.

O que me leva a crer (até por experiência própria) que um lar não precisa ser necessariamente um lugar, ou apenas um lugar. Mas com certeza um lar é um conceito construído por cada um à sua maneira, embora tenha mais ou menos o mesmo esqueleto para todo mundo. Eu, por exemplo, talvez possua pelo menos três idéias do que foi, é ou será um lar para mim.

A casa onde 4 gerações de um lado da minha família morou, onde eu mesma fui criada até os 6 anos de idade, pode ser considerada um lar que eu tive e do qual sinto falta. Talvez pela história toda dela e o significado que todos nós atribuímos a ela por conta deste histórico; talvez porque nela eu vivi o que provavelmente foram os anos mais felizes e inocentes da minha vida. Acho que sempre será estranho para mim passar em frente a ela sabendo que não hei de adentrá-la de novo.

Não sei se essa sensação de conforto mudaria se algumas das minhas circunstâncias fossem diferentes e eu por acaso acabasse morando lá até hoje ou mais algum tempo, mas é inútil pensar nisso agora. Provavelmente sim.

Há muito tempo não consigo ver a casa onde escrevo estas linhas como meu lar, apesar do medo que ainda tenho de enfrentar o mundo e de ela ter sido construída para ser minha, para que eu pudesse viver melhor do que onde eu estava. Provavelmente por conta do modo como fui criada e de tudo de doloroso que eu passei a entender aos poucos desde a morte do meu avô; a imperfeição à minha volta e dentro de mim.

Talvez meu verdadeiro medo não seja exatamente o que vem por eu ter de ir embora desta casa, sendo que por ora e não sei quanto tempo ainda terei de ficar com meus pais e carregar minha raiva e dor comigo para onde eu for, mas por saber que não tenho como construir uma vida nesta cidade. Ter de ir embora da fronteira. Saber que aqui não há como eu encontrar o que eu busco.

Pelo jeito sou mais provinciana do que eu pensava; me dói saber que este lugar é tão longe de todo o resto e há muito já não é o que um dia foi e poderia ser. O que deve significar que embora eu não veja minha casa como meu lar no momento (e nem sei se verdadeiramente consigo ou posso chamá-la de “minha casa”), esta cidade perdida no mapa que ninguém de fora sabe direito onde fica ou mesmo deve ter ouvido falar é um lar para mim. É de onde eu venho e onde eu gostaria de morrer, se puder escolher.

E, como tu já sabes, outro dos meus lares é estar perto de ti e principalmente dentro do teu abraço. Dentro dele nada mais precisa ser dito e toda a dor se vai; talvez seja meu outro lar porque funcione não só como um gesto carinhoso que já se tornou nosso e do qual sentimos falta, mas como uma confirmação de que estamos mesmo no coração um do outro o tempo todo e de que a esperança que o que temos me dá ainda fará de mim alguém muito melhor e possivelmente vice-versa.

Eles me fazem ir para casa acreditando outra vez no mundo e nas pessoas e ir dormir com o coração mais sereno. Serão nossos abraços nossos maiores e mais bonitos silêncios?

É lindo saber que sou uma das razões para tu vires para cá, entre tantas... É a maior das lisonjas e um dos meus muitos agradecimentos a ti. Também é maravilhoso que tu venhas me visitar onde eu for daqui um tempo. Toca-me tu sempre cumprires tuas promessas a mim; sei que desta vez não será diferente e isso não deixará que os dias passados num lugar onde não pertenço e não quero estar sejam tão doídos... Sei que tu o fazes por amor e honra a mim.

Eu ainda hei de ter prazer de verdade em te abrir a porta da minha casa, como fiz com a do meu coração. Da minha casa de verdade; do meu lar de paredes, teto, concreto, livros, poesia e quadros pendurados que ninguém há de tirar de mim. Embora eu hoje não te convide muito para vir aqui pelas coisas que sabes que sinto, tu sempre serás minha visita mais ilustre e mais linda, onde quer que eu esteja, mesmo dormindo no escritório (risos). Quilômetros não nos separam de verdade e sabemos muito bem disso.

O que tu disseste dissipou qualquer medo que eu tinha de que uma distância maior pudesse mudar alguma coisa, mas de todo modo espero poder mudar a nova parada do teu mapa de novo para um lugar melhor, não tão distante, embora ainda não saiba qual; só o tempo dirá. Quem sabe fisicamente mais perto de ti do que imaginas...

Espero com o tempo não me tornar uma decepção para ti. Até hoje tu me lembras do fogo que queima na minha alma e que não me deixou largar tudo, então muito obrigada; eu não desisti de mim, apesar de ainda me sentir presa e de coração gelado. Foi bom ter voltado para casa por umas horas e senti-lo quentinho outra vez! Já estou com saudades, mas tu segues sempre aqui comigo.

Talvez eu não goste mesmo de despedidas e por isso as nossas sejam longas nas cartas e até nas presenças... Mas isso é apenas um até logo. Desejo sorte e paciência a nós dois porque o mundo nos pertence e ainda temos tempo – a mortalidade e o medo não vão nos impedir de querer viver. Não vejo a hora de dividir uma torrada e mais um sorriso contigo, meu irmão, meu amigo, meu querido.

Com amor, da tua pequena.

sábado, 15 de outubro de 2016

Andarilha

Cada vez mais
certamente eu desejo
andar por aí
só a observar
algumas cenas banais
e de repente
enchê-las de significado.

Ainda quero achar
o belo simples
e não perder
o velho encanto
que faz os
meus olhos brilharem
diante do novo
e o que
já é conhecido.

E sentir-me viva
antes que meu
tempo aqui acabe.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Quatro estações

No verão da minha vida
meu coração queima
com seus bobos desejos
e se aquece
ao lembrar do teu carinho.

Vejo cada vez mais folhas minhas
mortas caírem
expondo-me nua, retorcida e fria
em meus medos...

Quando há de chegar
minha chance de florir?

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Certeza insana

Pode até ser
que um poeta
seja um louco
já de nascença...

Porém sei que
a poesia impede
que eu enlouqueça
por descrença
ou doença.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Lilie quis um pintor

Lilie deixou François e quis um pintor.

Não o pintor em si, mas o que ele ofereceu a ela.

Doeu em Lilie deixar François, mas doeu mais nele sentir nas cartas que ela vivia bem sem ele. Para um poeta, tudo é complicadamente simples.

E com o tempo, se estar com ela o fazia achar que não precisava mais escrever tanto, ficar sem ela o fez pensar que não precisava mais viver.

Num pesadelo ele a perdia, mas mesmo chorando ao abrir os olhos, ela ainda estava lá ao seu lado. Sempre estaria; era só um sonho ruim.

Quando o tal pesadelo se fez real e Lilie foi mesmo embora, ele chorou, fechou os olhos e a teve uma derradeira vez.
Tudo era bom e bonito, não doía, acontecia devagar…

François e Lilie.

- sequência acidental (ou não) de François e Lilie; inspirado em “Les Amants Reguilérs, de Phillipe Garrel.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Vida selvagem

A vida é
como um cavalo
que corre sem
destino por este
mundo tão grande.

Selvagem, bravo, livre
como deve ser
cada coração que
já esteve aqui.

Mas devemos tomar
logo as rédeas
de nossa vida,
para que juntos
nós possamos desfrutar.

Para que a
vida não passe
e fique apenas
nos nossos sonhos.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

François e Lilie

Lilie quis caminhar, tomar um ar.

François a acompanha; iria com ela a qualquer lugar.

Seu coração tolo a ama tanto que dá a sua postura e gestos a poesia que ainda lhe pertence, mas que ele diz não mais escrever pois a musa a seu lado é tudo o que hoje lhe basta.

Ele é tão jovem… Tudo parece durar para sempre.

Seu amor por aquela moça, o dela por ele e aquela caminhada de mãos nos bolsos e silêncio em que ele faz um gracejo e abre um sorriso para mostrá-la seu contentamento por aquele tipo de momento acontecer de novo e aparentemente ser como das outras vezes.

François é poeta, ele sente…

Ele “aperta-sem-apertar” a mão da moça.

Não exatamente a segura, mas a toma pelos dedos… Os dedos bonitinhos que “são iguais aos dele”.

A mão dela aberta em diagonal sob a sua, e, no entanto, inerte.

François ama tudo o que eles conseguem se dizer sem nem sequer abrir a boca. Mas Lilie agora está perto e ao mesmo tempo distante.

Ele quer o contato, mas mal se atreve a tocá-la.

Ela não exatamente responde ao toque; rapidamente afasta a mão para baixo.

A dele desiste. Uma eternidade em dois segundos.

Lilie vai embora junto com a guerra; para ele soa simples assim.

A mesma guerra civil que a uniu ao tolo François.

A mesma guerra que o fez acreditar que ela o quereria por toda a vida.

Um jovem poeta com uns trocados no bolso, a alma desnuda e uma cama de hotel não eram o bastante.

“E eu?”

Pesadelos também se realizam.

- texto inspirado em "Les Amants Reguilérs" de Phillipe Garrel.

domingo, 9 de outubro de 2016

Autocuidado

Seguro minha
própria mão
como quem
quer guiar
um filho
pelo caminho
do bem.

Me abraço
toda noite
como quem
protege aquele
que ama
de todo
o perigo.

Digo a
mim mesma
que tudo
vai ficar
bem logo
como quem
nada espera.

Às vezes
ainda sorrio
como quem
nunca chorou
e não
conhece a
pior escuridão.

sábado, 8 de outubro de 2016

Ter que fazer planos me deixa ansiosa. 
Eu mal consigo 
viver um dia depois do outro…

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Começo de agosto

Vivo em brasas
como uma labareda
que tudo queima.

Chama que consome
aos outros e
até a si.

Que se alastra
mesmo sem querer
soprada pelos ventos
de cada emoção.

Que se incendeia
em toda alegria,
dor e desejo,
todo grito sussurrado.

Emoção que queima
no calor líquido
de uma lágrima...

Riscada no fósforo
da vida que
não teme queimadura.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Fibromialgia

Não sei se te amo,
não sei se te odeio
e isso dói.

Não sei se te perdoo
mas sei que não esqueço
e isso dói.

Não sei o que fazer,
não sei o que te dizer,
e isso dói.

Não sei se te conheço
ou se ainda estás aqui,
e isso dói.

Sei da minha culpa
e também da tua
e isso dói.

Diferentes demais,
iguais demais
e isso dói.

Muita coisa mudou
mas muitas serão as mesmas
e isso dói.

Sinto raiva,
sinto medo,
e isso dói.

De mim
e até de ti
e isso dói.

Mal consigo te olhar
e teu jeito de me olhar me assusta;
isso dói.

Não sei se o tempo vai nos curar,
se algo vai mesmo melhorar,
e sei que isso te dói.

Não te cobro mais
o que um dia foste, nunca poderás ser e não és mais,
mas claro que dói.

Só não cobre de mim
o que nunca fui ou serei,
porque me dói…

Porque eu cresci
e tu envelheceste
e por isso dói.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Não cobre de mim o que eu não tenho 
como dar agora, 
muito menos o que 
nunca poderei.

domingo, 2 de outubro de 2016

Resiliência

A onda do mar
bate na pedra
da orla sem cessar
e a gasta
assim como eu bato na tecla
do amor sem medo
de me entregar.

15/01/2015

sábado, 1 de outubro de 2016

Bandida

A mesma solidão
que bebe meu chá,
que lê meu livro,
que estuda comigo...

Que me acompanha,
me faz me bastar,
me sussurra versos,
me ajuda a pensar...

À noite se esgueira
na minha cama estreita
e bem de pertinho
me acaricia a nuca.

Às vezes ela simplesmente
me toma nos braços
sem pedir licença,
me agarra a cintura...

Me espreme as costelas,
tapa minha boca,
me tira o ar
e debocha de mim... 

Dói mais por ser dor
de aperto sem carinho,
sem saudade, sem amor,
muito menos paixão...

O abraço da solidão
não é gole de vinho!

E quando vem a manhã
ela sorri,
me pisca um olho,
me ganha outra vez...

Ficamos outra vez de bem...
Por ora.