domingo, 4 de abril de 2021

It's the little things

 Come and tell me your stories,
take and point me the stars.
Under the trees, show me both butterflies
and pour me the best wine of the bars.

It can be coffee, if you prefer -
what won't we do for a rhyme?
My promise remains to never say never
and to take what you want to be mine.

01/04/2021

sábado, 3 de abril de 2021

Flor de calçada

 O que já me tornei me assusta porque não sei se serve de alguma coisa e é por isso que sinto enjoo. Enjoo pra mim é dor de estômago, fígado bichado ou excesso de dor. Quem dera que fosse dor de amor.

O que foi que me tornei mesmo? Será que ainda estou fugindo? Será mesmo que adianta querer o que quero? Será que tem sentido saber da verdade? 

Eu quero ir embora daqui. Pelo menos desta casa e desta vida. Ou talvez a resposta nem esteja aqui onde nasci, mas para onde eu iria? Que outro lugar nessas calçadas vazias e esquecidas por deus pode abrigar o que se faz de grande, mas no fundo é pequeno?

Será que adianta não querer repetir padrões quando eles ainda me prendem aqui? Acho que na verdade é de mim que sinto asco. De mim e do meu dom para obedecer. De mim e da minha preguiça. De mim e da minha indecisão que parece que nunca acaba, mas que sempre acaba em tinta.


30/03/2021

- exercício de escrita proposto pela Maria Vitória do blog A Estranhamente

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Comédia da vida escancarada

 As batatas que assei ficaram duras e quase quebraram de novo o dente que quase arranquei na semana passada. Eu nunca tomo jeito mesmo, parece que nunca aprendo. Perco o tempo do forno, mordo do lado errado. Logo eu, que amo batata. Mais fácil ficar desdentada e fazer purê.

O Lucca veio aqui em casa hoje e me pediu dois adesivos. Custou muito pra eu lembrar que ainda tinha aquele caderno velho da faculdade que lá pela metade tem o diário da minha descoberta da depressão. Ele não especificou o tipo de adesivo então vai de praia mesmo.

Agora há pouco choveu granizo e quebrou uma das janelas da vizinha que, tentando fechar o basculante, cortou a mão. Tomou remédio e quando liguei pra ela, falou toda grogue que tinha certeza que o Michael Jackson ainda era vivo. Também me perguntou se a dor era real. Boa pergunta, D. Damiana. Com remédio não se discute.

Foi um dia insano. Vou tomar um banho e ler o livro da Ana Cláudia pra ver se rio um pouco da desgraça alheia. Coisa boa ver uns palavrão de vez em quando. Gente caretona, viu? Ninguém diz o que pensa.


30/03/2021

- exercício de escrita proposto pela Maria Vitória do blog A Estranhamente

quinta-feira, 1 de abril de 2021

New old lovers

I need not leave a mark
(be it a bruise or a burn)
on what insists to return
and to belong
to me.

We needn't be like the couples in the park
taking god knows how long
to shape
the letters of a love
upon a tree.

Not if we don't intend to escape
from every promise we have made
and the proof sits on your knee.

30/03/2021

quarta-feira, 31 de março de 2021

Sincericídio

 Respiração acelerada, passos apressados. A bolsa escorregando pelo ombro, por pouco não derruba tudo. Sempre foi um desastre, esquecendo o zíper aberto e a aba levantada, largada de qualquer jeito nas cadeiras. Hoje não. E mesmo assim…

Estação lotada, um frio do cão, gente se esbarrando mesmo sem querer. Esperava que não tentassem puxar a alça da bolsa porque não queria ter que usá-la para bater em alguém. Ainda que pesasse, aquele peso estava ali para tudo menos manter posição de defesa.

Não queria pensar no que carregava como um fardo, por mais que às vezes parecesse tão fácil de se quebrar. Não importa o que dissessem, aquilo estava sempre pronto para ser usado, para ser compartilhado, sem medo, no seu tempo, apesar dos riscos.

Sentou no banco da estação assim que encontrou um espaço, com a bolsa no colo e as mãos sentindo o calor que vinha dali através do tecido. Olhou para frente e achou ter visto um vulto do outro lado dos trilhos. Percebeu que a hora estava chegando e sorriu para consigo. Abriu o zíper da bolsa e enfiou o punho dentro dela num gesto tão delicado quanto decidido enquanto caminhava em direção ao trilho.

Contou até dez sem desviar os olhos e lentamente foi retirando a mão cheia, mas firme, apesar da pegada estranha, de dentro da bolsa… E ouviu o grito chocado de quem notou o que pulsava frenético entre os dedos, quase como se quisesse saltar e ir embora por vontade própria. E quem disse que não queria?

Alguns desmaiaram, outros fugiram, outros ameaçaram chamar a polícia. Mas tudo o que fez foi abanar a cabeça e afirmar com serenidade que aquele bem era seu e que podia fazer com ele o que quisesse. Que nada no ato era novidade; a única diferença era a frieza do lugar, o idioma diferente. Alguns dos que ouviram as palavras se perguntavam o que aconteceria e pararam para observar.

Mais por medo da própria pontaria do que do ato em si, aproximou-se com cuidado da beirada, mas não o bastante para pensarem que estava bancando Anna Kariênina. Apreciou por mais um momento o peso do que estava em sua palma e se pegou numa espécie de transe que só foi quebrado por ter visto o vulto outra vez.

Lutou contra o espasmo do próprio punho, agachou-se e rolou o que segurava pelos trilhos com os olhos apertados… Bem na hora em que o trem passou e parou, fazendo seus muitos barulhos que induziam aos susto e ao corpo encolhido. Podia ter dado tudo errado. 

Depois da eternidade que encheu os vagões e que o levou embora, quem ficou achou tudo aquilo loucura maior ainda depois que ouviu uma risada histérica misturada com choro de um lado, e um som parecido com ronronar do outro, vindo de quem agarrava o que foi jogado com as duas mãos - como um gato faz com novelos de lã. Empoeirado pelo caminho percorrido, mas intacto e que arrancou um suspiro de alívio.

“É teu agora, bichano. Fica com ele. Mas não é brinquedo, tá?”

“Eu sei, amor. Valeu esperar pra juntar esse coração com o meu.”


30/03/2021

- exercício de escrita proposto pela Maria Vitória do blog A Estranhamente

terça-feira, 30 de março de 2021

O basta há muito já veio

 Não importa o que chegasse perto da casa. Não importava quem saísse. Ele fazia barulho, ele gritava, esperneava, atormentava, sem ter noção da própria voz ou da própria força. Ele se assustava com o que nem tinha a ver com ele e pobre de quem ouvia. Dava vontade de mandá-lo embora. Dava vontade de questionar por que ele veio pra cá.

Ele era grosseiro. Se estourava fácil, dizia coisas sem sentido, achava que podia dizer o que passasse pela cabeça. Não me conhecia de verdade e eu estava há muito já cansada de tentar. Só queria que ele parasse, que não falasse comigo, que parasse de achar que o que é só meu também é dele pra dar pitaco. Que ele parasse de achar que manda.

Não tem tato. Não tem noção das consequências do que diz, que mesmo as pequenas coisas ficam e machucam. Acho que foi assim que aprendi a ser cruel. No fundo quer ajudar, mas a verdade é que só atrapalha, porque quer tomar meu lugar fazendo tudo e tudo do próprio jeito. Não sabe ensinar, não sabe dar espaço, não sabe quando parar de se envolver. Dane-se quem esteja ouvindo - despeja ordens e põe a mão no que não é seu. E quem não faz é mal-agradecido e burro.

Só o que eu quero é que pare. Só o que eu quero é ir embora.

29/03/2021

- exercício de escrita proposto pela Maria Vitória do blog A Estranhamente

segunda-feira, 29 de março de 2021

Vida de segunda

 Mais uma segunda. Na segunda eu tento ter disciplina. Na segunda eu tento ser adulta, ainda que digam que eu ajo como uma criança, nem que seja só um pouquinho. 

Nem que seja pra gastar os dedos mandando emails que provavelmente não serão respondidos. Nem que seja só pra receber um não. Nem que seja pra tentar construir um futuro onde, olhando lá pra fora, parece não haver nenhum.

Gastando os dedos com variações das mesmas palavras, quando eles poderiam estar fazendo carinho no inesperado que veio pra mim. No que quer o que quer mesmo de longe, mesmo com a loucura, mesmo com o medo, mesmo com o contexto insano.

Na segunda eu levanto e tento de novo. Quero pelo menos um fim de semana. Dois dias e meio pra lembrar das histórias largadas, das profundidades necessárias, de que existe mais nesse mundo, do formato da lua e das estrelas do céu, nem que seja pela voz do inesperado.


29/03/2021

- exercício de escrita criativa proposto pela Maria Vitória do blog A Estranhamente

sábado, 27 de março de 2021

Projections

don't tighten your grip
on me,
please no,
for my soul is to be free.

but also, 
don't quite let me go...

for time might be generous
to trust us 
and might allow me to be
more than this.

more than the shadow of a kiss
to bruise your lip.

27/03/2021

quarta-feira, 24 de março de 2021

Faun's labyrinth

 Your presence
is in the air
in the constance
in which it makes me aware
of every rightness
and dissonance.

In every image
you planted and won't take back
from the darkness -
the palm on my hip
playing with the fingertip,
the mouth on my neck
down the warmth of the cleavage.

You are present
and yet absent
in the mark behind the ear
waiting god knows how many a year
to be maybe more than a ghost.

I don't blame the hunger now
when there was nothing then.
After all, I don't even know
if things are ever gonna get even.

In the meantime, I appreciate the host.

24/03/2021

segunda-feira, 22 de março de 2021

A pelican's wound

 Poor, poor lad!
By making an art
of all the ways I could break your heart
I cast you the hardest stone,
the one that makes you most sad -
I break my own.

22/03/2021

sábado, 20 de março de 2021

Of the sublime

Your voice to me
is more than sound -
it is a sea,
it is among the things, the forces that abound
in how they rise and rise
and come,
so wise
only to forevermore,
however briefly,
touch the shore.

Only to go back
in their track,
in and out, on and on,
a wall that knows
the ways it grows
from the bottom, paramount,
Topkapi outside of Istambul,
only to suddenly be undone
into a touch so humble
as you speak...

Never detrimentally weak.
Instead, just conducted by a hand so warm
that can cause and stop the same storm.
One of which I wonder if I would feel afraid
but through which
I take the pleasure in being a wee fish
just here, to navigate.

19/03/2021

sexta-feira, 19 de março de 2021

Homecoming

 I wish I could talk
with way more pride
of the language, name and land
I was given.

With the same one with which I write
these lines
under this taken pen
that reaches far and wide
so that even my folk
who dream that I would walk
do not understand.

I wish I didn't let down
my own past,
this wretched, forgotten town,
on its, like mine, old, disjointed bones
that insist to last
at the corner
of the border
only to watch its own doom.

I wish I knew it as well
as the worst parts of myself -
to hear its voice like the bell
at five o'clock.

I guess I can still wish
for high river with fish
and good enough health
from the boon
of a late, yet welcomed bloom
to our stock.

Or do I really?

18/03/2021

quinta-feira, 18 de março de 2021

Work anew

 I love you
not like you do...

Not yet.

I'm sorry
if it seems that I play hard to get
when loving for me
is a thing so easy...

But who knows,
time is a river that flows
exactly the way it wants!

If you work hard enough
to woo
a buttery skin that tries to be tough
when you least expect...

You may achieve the goal you pursue
watched by the sunset.

18/03/2021

segunda-feira, 8 de março de 2021

08/03/2021

 Mesmo quando ofereço
sem esperar por algo em troca,
sei que ofereço
aquilo que gostaria de ter.

- trecho do meu diário

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Deprimida e poeta

 Escrevo desde que consigo me lembrar e desde antes de entender o que estava fazendo ou o que eu dizia. Era e é de certa forma automático colocar no papel o que me passasse pela cabeça sempre que houvesse a oportunidade… E isso em parte forjou quem eu sou hoje.

Isso não mudou quando desenvolvi ansiedade e depressão. Muito pelo contrário, só se intensificou. Foi quando questionei absolutamente tudo e enfrentei uma das piores épocas da minha vida que eu me agarrei a tudo o que me restava e hoje percebo ser o que tenho de mais valioso.

Por me sentir sozinha, eu escrevia. Por me sentir um fardo e um fracasso, eu escrevia. Ainda que estivesse exausta, eu escrevia. Mesmo tendo largado tudo e estivesse estudando para um vestibular que não fiz, eu escrevia. Preferia escrever a fazer qualquer outra coisa, na verdade.

Escrevia para me ocupar. Escrevia porque não sabia que tinha tanto a dizer. Escrevia para entender o que acontecia comigo. Vi minha poesia mudar, ficar curta, grossa, perder o enfeite, ficar calculada e ao mesmo tempo sem rumo. Aprendi sobre ser brutalmente honesta. E é por isso que ainda estou aqui.


23/02/2021

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Feito para (a)mar

Toda mulher é mar
livre e sem farsa
que no seu ir e voltar
em onda nua
filha da lua
no fim sempre abraça
em gozo e graça
o respeito
ao seu leito
que não há de lhe afogar.

14/02/2021

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Fontes de inspiração

 Uma amiga que tive o gosto de fazer há alguns anos e que influenciou muitos dos riscos que passei a tomar como poeta costuma dizer que a inspiração está dentro do poeta… E concordo com ela. Acredito que isso vale para independentemente da forma de expressão.

As coisas acontecem de acordo com intenção, método, tipo de conteúdo que se consome e, principalmente, do olhar que se tem sobre o mundo. Afinal de contas, a obra final vem de nós, não importa o quanto nos distanciemos dela a nível pessoal.

Acredito que a minha obra seja fruto da minha vontade de deixar algo para trás. E, dentro disso, das minhas memórias, experiências, contato com outras pessoas, o observar daquelas que estão à minha volta e escolhas literárias, musicais e no cinema, que se expandem gradualmente e deixam seu rastro.

Quanto mais velha fico, mais conscientemente busco conteúdo que vá além da superfície, que me faça pensar e que tenha honestidade por trás. Que tenha uma história para contar e que me induza a refletir sobre a minha a partir do entendimento da perspectiva do outro.

Talvez a verdade seja que, como costureira de palavras e amante dos detalhes, eu busque as histórias por trás de tudo. A beleza por trás da feiura e a verdade debaixo da  bravata. O que é e poderia ter sido a partir da possibilidade de mudança onde ela se faz presente.


12/02/2021

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Próxima aventura: empreendedora

 Então, gente... Sou MEI agora!

Faz um tempo que estou para contar que na finaleira do ano passado abri meu CNPJ como redatora, desde que a fantástica Maria Vitória me mostrou que era possível viver de escrita e se tornou alguém que quero ser quando crescer.

Apesar de todas as minhas inseguranças, é melhor fazer trabalho de formiguinha do que esperar que as coisas caiam do céu. É por isso que venho compartilhando minha história por aqui e dando um passo de cada vez.

A verdade é que eu fugi do meu destino por tempo demais, e esse destino é escrever. Quem liga que não seja por literatura? Lidar com palavras é o que sei fazer de melhor, ainda mais quando se trata das que vem de mim. Se elas podem ajudar alguém e me dar sustento, é o que pretendo fazer.

Independentemente do que ainda me falta, eu não vou esperar estar “pronta” para abraçar as oportunidades... Ganhar experiência e habilidades e criar hábitos ao longo do caminho parece ser a coisa certa para alguém como eu, do contrário a hora da verdade nunca chega.

Então acho que esse texto sou eu “botando minha cara no sol”, como a Maria costuma dizer. Dizendo quem eu sou e a essência do que posso fazer. No próximo a gente vê quanto ser eu há de custar... Por ora, me desejem sabedoria.


08/02/2021

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Minha querida impostora

 Não sei se posso dizer que sou impostora quando se trata de literatura. Talvez o mais correto seja dizer que sempre considerei que existe muita gente por aí que escreve com um estilo muito mais bonito do que eu, o que não quer dizer que o meu não seja, de acordo com suas limitações.

Gosto de pensar que estou sendo humilde e reconhecendo a beleza no trabalho do outro, que pode vir a influenciar o meu e contribuindo para que melhore cada vez mais. O escrever desde que consigo me lembrar me faz enxergar tanto a qualidade no momento do que faço e também naquilo que consumo.

Tenho quase certeza que o confiar nas minhas habilidades e capacidade de aprender com teoria e prática são o que faz a minha escrita o que ela foi, é e será. Assim como a reconhecer e respeitar o processo de criação em geral e dentro de cada gênero. Eu sei o custo de escrever um poema, um conto e um romance.

Também sei o que cada trabalho nos ensina sobre os pontos fracos na execução de cada gênero. Eu escrevo prosa poética e versos melhor que escrevo histórias. Mas nada disso me impede de tentar um pouco de cada, nem ambicionar redação para a web. Então a minha impostora está não na falta de confiança, mas de autoestima.

Eu não sou impostora naquilo que sei que sou boa e no que sei que pode ser ainda melhor. Cada vez mais tenho consciência das minhas habilidades e que é loucura da minha parte não encontrar um jeito de usá-las para meu proveito e dos outros. Se eu não fosse inteligente e pelo menos um pouco louca, não estaria aqui agora.

Eu sou impostora por causa daquilo que não me foi ensinado. Sou impostora porque fui armada para ambicionar ter o mundo nas mãos, mas não para saber o que fazer com isso. Sou impostora porque quero pensar fora da caixa, fazer o que os que vieram antes de mim não fizeram, agarrar as chances… Mas tenho medo.

Por mais que eu deseje que as possibilidades do meu intelecto me façam transcender os limites do corpo e da geografia, eu carrego um medo que talvez nem seja meu. Medo disfarçado de cautela, mas que sei que é medo. E ele me faz questionar até o que no fundo sempre foi verdade. Mas é tudo barulho, eu sei agora.

Medo que me faz ter que correr atrás de tanta coisa completamente sozinha, nem que seja para tentar. Porque sem tentar, nada acontece, não se chega em lugar nenhum, nem mesmo no errado. Medo que me faz duvidar que conseguirei crescer, ter disciplina, dar conta do tempo que passa e viver. Mas os mentores estão aí para isso...

02/02/2021

 

02/02/2021

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

O prazer na minha escrita

 Talvez o que eu considere mais bonito no escrever sejam os processos e as mudanças que acontecem (e digo isso sendo uma pessoa que tem dificuldade com mudanças). A evolução que se enxerga nas entrelinhas do que se faz e, com o tempo, perceber os padrões em como a criação acontece.

Como a coisa mais mundana, seja uma imagem, uma memória ou uma conversa com alguém traz poesia dentro de si... E basta que a gente preste atenção. Como às vezes as palavras simplesmente vêm de uma só vez, meio que prontas, ou são filhos que se revelam a nós aos poucos, mas sempre como precisa ser.

Como os hábitos são tão fáceis de se perder quando podem ser difíceis de se adquirir e, ainda assim, são o que facilita tudo. Como as histórias que contamos revelam mais sobre nós do que gostamos de admitir, porque crescem conosco, consciente ou inconscientemente. Que o ato de criar é cíclico.

Que ainda que se tome uma direção específica na intenção do texto, a escrita mais honesta, eficiente e natural acontece no deixar os pensamentos fluírem e serem expressados sem censura. Sentir que a vontade de dizer algo, ainda que pela palavra escrita, é mais forte do que qualquer coisa.

01/02/2021

domingo, 31 de janeiro de 2021

Delicacies

 My flower,
I wish I had the wings and the grace of a hummingbird
to perhaps kiss you better
than every love letter
you write me without saying a word.

30/01/2021

sábado, 30 de janeiro de 2021

Fates

Warm water
that holds and caresses
like the waist of the prettiest dresses...
Red flower.

You love me, no?

If that is the path you choose to go,
just remember
that just like you musn't drown
me to make me clean
you shouldn't break while bent
down
just to mark me with the most pleasing scent
any god has ever seen.

30/01/2021

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Chiaroscuro

Is it to your taste
if I happened to strip
off the white flower of my dress
just so I can better feel your grip
on my waist
as your warmth steps close against
my skin and our loneliness,
much hotter
than a night of summer,
like a young king 
offers willing,
kind hands
to a distant princess,
swallowed by dark golden lighting? 

25/01/2021

sábado, 23 de janeiro de 2021

De memória e de Mar

te revela
na primavera
e te consagra
no verão.

se te aprouver,
escuta o chamado,
vem delicado,
enrodilhado,
curvado
sobre o dorso do que te foi reservado
e dizem ser depravado
no que lhe é desejado
e, assim, sejas elevado.

faz a ele tua saudação
e escreve nele teus bilhetes
de amor entre os filetes
desta terra alheia
que, como areia,
os conserva
no seu desfazer
em canção.

faz destas raízes
de solo pela tua mão
revirado
teus tapetes
de oração
onde, sem posses,
a testa encostes,
e dos nomes
sussurrados
que moram no coração,
de reis, princesas
e coisas tão puras
quanto as tuas juras,
as minhas presas
e nossas garras...

entre talvezes,
se assim quiseres,
tenhas mais que uma religião.

23/01/2021

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

A vós que me fizestes

 talvez eu sempre tenha sido semente
plantada 
inconscientemente 
em árido solo
depois que já não cabe, tão somente,
num colo.

talvez meu destino daninho
seja ser cacto
coroado de espinho
que guarda a sede ardente
do ato
em tempo e tato
de chama declarada
e água derramada
que não canta as letras do amor.

e, mesmo assim, não sendo rosa,
olha só, que coisa estrondosa,
quando em mim se vê uma flor!

22/01/21

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

sábado, 16 de janeiro de 2021

Cadence

 You are a storm
and I say this for they are strong
and were born
since the dawn of the age
to move as they desire,
light an unabashed fire
only to smile at the damage.

14/01/2021

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Pequenez

 Só quero voltar para casa,
abraçar minha vida,
ser acolhida 
em brasa
e percorrida.

14/01/2021

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Livro de presença

Sou papel importante,
marcado,
rasgado,
alinhado,
espinhado
no crescer abundante.

Onde o poeta se vê gravar
com os dedos
e selar com os lábios
cartas de amar
e devotar
perpétuos.

14/01/2021

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Aparências

Ainda bem
que não preciso me fazer de forte
no meu jeito que se mostra
e não se nega
se digo o "vem"
que o prostra
para ser flor no meu peito
desfeito
em pele exposta
a quem eu tomo
a pleno palmo
na hora da morte
como quem lê um salmo.

05/01/2021

sábado, 2 de janeiro de 2021

Cycles

 If I stayed this young for much longer,
how could I get wiser?
How could I become stronger?

If I never learn the laws
of Earth and time
and their mark
how will I know that in truth their claws
are as sharp
as mine?

31/12/2020

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Acoustic versions

 What is it about you
that touches me so
that I'm a cat,
I blink slow
as if our souls had already met?

The only so much and small
that makes you this all
where I could hear you forever
about trivial
and vital,
and not say a thing, ever.

Where there's such things I could do
and you only have to ask
my breaking dawn and my dusk,
and this will have many and no name
always said as a prayer, never a shame.

31/12/2020

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Truth's song

 Who knows what language a lover speaks?

As long as hands and lips
are silken,
devoted, shaken
and hungry
and kind
even when the land is barren...

The stars won't mind,
mostly when aligned
whether they come from mountain peaks
and their songs are from bird's beaks
or they are but a siren
here to deceive you and me.

30/12/2020

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Cômodo

 O jeito
como o meu acento
se perde
de ouvido
e flutua
depois toma assento
na tua língua
tão linda
é de corpo que pede
por leito
ou a minha cabeça
se tocasse sem pressa
o teu peito.

28/12/2020

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Amor

 I care neither what this is
in its many types
nor where this will go
as stars care not about rhymes
except to please
you and let you know
I just love you, love you, love you...


24/12/2020

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Wish-making

Just like light is for sunsets,
darkness is for secrets

and I could use some focus,
some rest,
a kiss on the neck
and maybe even sex...

Ah, ma fleur canadienne,
better if I could care for you with my own hand
and you filled with your scent
the warmth of my bosom where you'd take the stand.

23/12/2020

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Oi, Carolina

 Saudades de ti.

Que bom saber que tudo deu certo. Que tu falou o que tinha que ser dito, ainda que parecesse impossível. Que alívio que ao que parece tua mãe lida bem com isso e vai te ajudar com o resto.

A verdade é que hora certa não existe porque o pior é não fazer nada. O pior é esconder esse tipo de coisa de certas pessoas quando a gente sabe que o melhor seria contar, ainda que no nosso tempo. Com as consequências a gente aprende a lidar, e é claro que o desejo de todo mundo é uma resposta como a que tu recebeu.

Eu não tenho a melhor das relações com a minha mãe e há muitas coisas sobre mim que ela não sabe, embora goste de achar o contrário. Mas ela também escondeu informações de mim, então acho que estamos quites. O que eu espero é ter tua coragem.

Talvez ela já saiba, até porque deixo cair indícios pelo chão de vez em quando. Como quando ela descobriu só pelo meu jeito que eu estava apaixonada e que tinha sido magoada, há tantos anos, e sem querer.

Não faço ideia se ela sabe, mas acho que quando eu contar quero que seja assim. Eu e ela durante o café da tarde ou a janta de quarta que a gente costuma comer só as duas e que pra mim é sagrado. O pai por perto só vai me travar. Não que o que ele diga me afete mais, porque eu sei o que ele pensa. Só não quero discutir na hora da comida. As refeições têm mesmo poder.

Coragem de dizer e de me afastar de quem for preciso, não importa quem seja e nem se ela acha que estou sendo teimosa igual o pai. Isso sou eu defendendo o que é meu e exigindo respeito. Não que eu ache que precise contar, mas é algo que quero. Até a hora chegar, me deseje sorte.


21/12/2020

sábado, 19 de dezembro de 2020

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Resposta

 Se nem minha alma fala minha língua,
quem disse que amante
feito para luz quente
e amor resiliente
não conhece distância
e ela não se torna coisa ínfima?
Quem disse que estás aqui?
Qual a garantia?
Ainda que não te toque a face,
pessoas fazem tudo nascer do nada,
a paixão não conhece a noite do dia
nem o animal da gente
quando se decide e atravessa.

18/12/2020

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Casting

but I was human, I played 
my part
and didn't care
who could be the one to blame
for the flame
that I turned 
into art
and burned,
poisoned,
before I went insane.

10/12/2020

sábado, 5 de dezembro de 2020

Nostalgia

Antes de qualquer de nós saber
que eu já o fazia
e que de certa forma
roubaria
a ideia

ele me ensinou sem querer
sobre contar história
de ficção
num escrever
de memória

se agarrando, sem se arrepender
à nostalgia
nem que seja só para lembrar
da sensação
da paixão
que ardia...

05/12/2020

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Precious thing

all the best of your love
and the worst 
of your hurt
yet again left here, 
so soft,
as if only for the dark and the void
could hear...

oh my dear,
oh my own heart,
please, do trust
it never has been so good to be a child
maybe only with you.

yes, a child still,
despite my age,
the blue bird with pain as its cage,
and one so spoiled
by the touch of this you do,
and likely never will,
for nothing could be more real...

04/12/2020

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Água

 Tu és água. Água em ondas sobre mim, mas sem o gosto de sal. Tu és água em que se banha e de que se bebe. Que se oferece a mim em goles esparsos, porém sôfregos, que me fazem arfar e querer mais na sede de que me lembras.

Água funda mas limpa para que se veja muito do quanto é mostrado. Água nova e boa que me lava, que me acaricia, que se derrama, que escorre lenta ora desde os cabelos, ora do pescoço para baixo, como numa purificação, ora desde os lábios porque neles não se contém. 

Furtiva, se guarda em certos lugares, certas taças, até morrer em outros, entre pétalas de flor, entre folhas e linhas. De mãos trêmulas e quentes, faz estremecer a finura que toca com misto de devoção e rotina. Água que canta, que sussurra, que recebe. Água.


26/11/2020

terça-feira, 24 de novembro de 2020

A liberdade (e talvez única escolha) de SER

 Tudo tem mais de uma faceta. O que fazemos com isso depende da nossa visão de mundo, das nossas experiências e das escolhas que fazemos. E, dependendo do que acontece conosco e à nossa volta, isso só fica mais evidente. Somos forçados a voltar a encarar o que talvez nunca tenhamos superado e que se torna maior diante de certas circunstâncias novas e do que elas nos impedem de fazer... E de ser.

Mas é justamente por isso que no fundo nada para. O mundo tem o seu próprio ritmo, assim como nós temos e é nossa obrigação respeitá-lo. Não importa o que acontece conosco ou com o mundo, tudo passa. A passagem dói menos quando a gente não esquece quem é e daquilo que nos é importante. Quando vivemos a dor e incerteza que nos prende no lugar sem deixar que ela nos engula porque encontramos maneiras de compartilhá-la e expressá-la, estreitando as relações positivas nas nossas vidas.

É por isso mesmo que não conseguimos evitar nos imaginarmos em melhores contextos, com outros resultados ou pelo menos os bons de antes. E não há nada de mal nisso. Assim como é válido celebrar o que ainda existe de bonito mesmo dentro do caos, porque ela ainda segue lá ainda que não se possa apreciá-la da mesma forma. Aquilo que temos e que somos que nada exterior conseguiu modificar.

Histórias seguem sendo contadas, e aqui não poderia ser diferente, porque é de nós que elas dependem para existir. O apenas SER é uma liberdade que vai se conquistando conforme nos conhecemos melhor. Que não perde o valor quando parece ter se tornado a única opção disponível... E por que não usar essa chance para tentar algo novo, para tomar de vez as rédeas de si mesmo, aceitar o imperfeito, olhar as coisas de outro ângulo e fazer o que é possível?


24/11/2020

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Obrigada, pai

 Obrigada, pai, por andar por aí e do nada acordar tremendo, com febre, e ainda ter a audácia de ser teimoso. Obrigada por fazer a mãe se preocupar, ter que te levar ao médico como se tu fosse criança e força-la a dividir o quarto comigo. Obrigada pela incerteza.

Obrigada por sair quando, como nós, deveria estar em casa desde o começo, e acabar sendo ralhado pela mãe porque podiam te processar se te vissem. Obrigada por não se cuidar e ainda ousar reclamar quando se sente mal. Obrigada por arruinar minha ida ao cabeleireiro. Obrigada por colaborar com esse ano estranho.

23/11/2020

- escrito conforme proposta da Maria Vitória do blog A Estranhamente sob o tema "Diário da Pandemia"

domingo, 22 de novembro de 2020

Moonshine, sunlight: the process

 This one was written in February 2018, and it happened as a sort of stream of consciousness - I just let the words flow as they pleased. 

I don't know if it's obvious by my wording but my initial intention was to reference and sort of pay homage to Apollo and his sister Artemis, two great figures of the greek mythology.

Apollo for his influence on poets and light as some of his attributes, and Artemis for her association with the moon, wilderness, and young femininity...

I as a poet and lover of the moon who always had these godly siblings at the back of my mind, hope I did them justice for what they represent as a whole and maybe even in my own life.


22/11/2020

sábado, 21 de novembro de 2020

Side-effects may include

 The things you say to me
are a poetry
that makes enough of a mess.

they are enough of a tease
to fit,
to suit,
to pretty,
to hug, to caress,
to strip
a girl
just the same.

because every word
is your mouth,
is your hands,
is your body
saying please.

That's the truth
that goes deep,
that's her real name.

21/11/2020

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

18/11/2020

 My unshed tears are the fire of my love 

that burns neither the pages 

nor your mouth, 

but my eyes only.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Velvet claws

 oh, the irony
of a hand that hurts
and breaks
fragile things
so easily

but is also hungry
for guilding kings
and knows sweet holding,
even kissing...

you are poisonous,
your every petal
burns
so much
making me curious,
it is more than lethal
in your brushing

yet it is i
who fears you may die
under my touch,
red poppy...


18/11/2020

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Fortunes

 It is easy to state
how much I hate
to find us in a song,
yet I don't
and I know you love it
that we've reached this stage.

Your poison
turned me into poem
and like Galatea and Pigmaleon
I am a statue
looking at you
from the corner of the eye
at the center of the garden.

Also, however
I too am a carer,
I use my weapon
and shape my men
into speaking like me
so if that's what you want,
why are you so hesitant
to let yourself be
another beloved flower?

Why the surprise
in taking your lot
when how I embrace 
the way you court
and trace
my lines
is what makes me wise?

12/11/2020

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

11/11/2020

 if we are to be flowers 

and other people the gardeners,

may we pay them back with beauty and perfume.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

17/05/2020

 Por mais distintas que as pessoas sejam,

crescemos e aprendemos uns com os outros

quando nossas almas falam

o bastante do mesmo idioma

e portanto estão abertas o suficiente.


- trecho do meu diário

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Reverse

 I know it might come as a surprise
to you
who dare to miss
and be jealous of men
and women
you never knew
the truth in the story
of my life
of girl who may have felt
the peak of sex
on her pelt
and the power of a hex,
not the one of a kiss
and the actual glory
of joy
of her life
has been
not being a man's wife,
much less to those guys,
but, as a teen,
being mistaken for a boy
when laid barer
than ever
by her own hair.

09/11/2020

domingo, 8 de novembro de 2020

Better treatment

 It wasn't that long
when in moments of stress
and uselessness
you said their disgrace
was a place
where I don't belong
and still you could learn
from this golden miss.

And I remember,
and that's why I confess
I don't care if it's utopia
or but a taste of home
if I like your idea
of your mouth on my bare shoulder
or if it's bad
that freedom might be clad
with the sheets of a bed.

Might be small
like me 
and the mole near my breast
and still
I feel
it would be the best
next to what we have now,
and I'd say you'd agree.

08/11/2020

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Untitled

my beauty
made of the earth,
touched by the sky...

my flower
of geranium
coated by the world
in petals of titanium,
stronger than gold
in its holy 
hour
of late winter birth
as I was told...

you, an honor I get to behold,
you are not a body
that can be dressed with words,
never the very right ones...

yet all I can do is try.

05/11/2020

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Out of reasons

oh, man, oh lad,
my bright star,
so many things you are,
oh,
brother
I never had,
lover
I may have lost
long ago,
maybe to war,
maybe to the frost!

oh,
in my travail
to explain the secret
of your velvet
words may fail,
yet I maybe now understand
and love how you grasped
my heart
with this hand,
yet it was never ripped apart,
but rather caressed
with grace
and laid to rest
in the calm
of your palm,
kept in place!

one that feels as right
as the night,
oh,
one that is like home,
a figure drawn
in between every fingertip
by a grip
just enough tight
so that I still stand
grown
yet unborn,
so unsure yet so aware 
of the cost,
for I feel
here still,
this gift
a thing more precious
than all living treasures
and their glow
and oh, so soft
that I would never let go!

05/11/2020

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Mardi Gras

Estou acostumada com cacofonia
e com não falarem minha língua,
mas para ser honesta,
eu não estava em clima de festa,
então boa parte do que acontecia
e também as pessoas que via
pareciam apenas ruídos
e vultos,
e ainda assim
para minha tristeza,
como por ti fui muito bem ensinada,
eu vi beleza,
a beleza que tu amas,
que tu verias 
também,
embora me faltasse a tua própria.

Eu queria aquele raio de ouro
chispando 
teu olhar,
mostrando
das botas o gasto couro
e queria naquele vento
cheiro de carne e o teu de terra, sândalo
e homem, cheio do teu cantar.

Eu te queria ali, 
ao meu lado,
talvez contra uma árvore encostado,
só pra dizer do meu jeito sussurrado
o quanto tu és amado
como se só estivéssemos os dois
e te pedir,
quem sabe para depois,
que pegasses o violão
e trinasse aquela canção
em que contigo eu diria
na ênfase do refrão,
embora eu não saiba de certa harmonia,
o quão doce tu és, meu coração...

Pode parecer criancice
ou carne fraca,
mas embora nunca tenha me metido em barraca
e merecêssemos o luxo da cama,
senti inveja da grama
e da gente nela deitada
porque nela nos queria
só para que tu me contasses coisas
de fim de dia,
como segredo,
sem medo
de quem nos visse
com esse teu sorriso de infância eterna
espalmada na minha perna.

Isso sim,
meu bem,
eu digo sem exagero
que não seria estrangeiro.

04/11/2020

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Dois pesos, mesma medida

 Se és ferreiro,
tuas armas
são os poemas,
as cantadas
e fazer mulheres
se sentirem desejadas
com golpe certeiro,
coisa fina
e sem muito atalho
é o que queres.

Já o meu trabalho
é costureiro
de quem sou neta
por bordado bonito
e peça elegante, discreta,
exceto que a minha
se faz com tinta
e não agulha e linha...

E mesmo assim
exige cuidado
porque no fim
quer juntas
ou separadas
ambas podem fazer estrago
desmedido.

02/11/2020

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Nightwalkers

 As for the light...
Well.
I can tell
that when its spark
is way too bright
it blinds
just as much.

Besides,
we learn through the eons
that the wild
teaches almost every child
to do their best
to see in the dark
using touch,
smell
and all the rest.

02/11/2020

domingo, 1 de novembro de 2020

30/10/2020

 É só entendendo como se faz,

ainda que tenha que ouvir

mais de uma voz,

que eu saberei falar com a minha.


- trecho do meu diário

sábado, 31 de outubro de 2020

Costume

 Eu
sou sempre quem quer,
quem deseja,
quem ama a outra
pessoa,
talvez até à toa,
vá saber.

Hoje vejo o que é teu
como uma roupa
com que me vestes,
como o vestido de seda
que jamais pus
e que, maleável assim,
me abraça
e se roça
em mim
melhor que cetim
até me deixar sem graça

me tornando fagulha
que brilha
a estes
teus olhos
com dourada
luz
quando por eles
sou adorada,
então que assim seja.

30/10/2020

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Rito de passagem

 Não é porque com elas
não brincam
que deixaram 
de ser crianças

e de serem adultas
não cessam
só porque as olham,
sorrindo, na prateleira.

29/10/2020

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Cancioneiro

Diante do olho
e dentro do verso
eu sou o pão sobre a mesa,
o passarinho,
tão bonitinho,
que dentro de casa
como se faz com ouro
guarda sua presa.

Sou a flor
comum e formosa
que ele vê 
pelo lado da estrada
que se abre
sem mim
e ele sorri porque sabe
ser venenosa,
causa de pele queimada...

E de ferida
que não parece tão ruim
se vem do torpor
pelo sol 
que sou
naquela vida.

Assim como a noite
de que ele me chama
com seu frio tão forte
que corta
mas que não importa
pois ele jura
que ama
a paz
e o mais
dessa dupla
faceta escura.

Sou ser complexo
cuja verdade não se esconde,
que ele sente permanecer
em cada canto,
não importa onde
e é lindo, eu confesso,
o amor saber com quem está lidando.

27/10/2020

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Translúcida

Era um dia ensolarado e quente, e eu estava usando uma roupa branca, talvez um vestido. Me vi em um jardim grande, do lado de arbustos que alcançavam minha altura sentada e com algumas árvores aparecendo distantemente do lado esquerdo.  Não havia flores por perto.

Meu vestido não tinha mangas ou algo assim, porque quase todo o meu braço era visível; principalmente quando estendi a mão talvez para olhar para minhas unhas ou o contraste da pele clara contra o verde escuro das folhas. Não tenho certeza, mas me lembro que eu quase luzia debaixo do sol forte.

Foi quando, para minha surpresa, uma borboleta de tamanho médio voou na minha direção e tentei segui-la com os olhos sem me mexer para não espantá-la. Até que ela pousou no meu braço e andou um pouco por ele antes de ir embora – uma borboleta monarca.

- exercício de escrita criativa proposto pela Maria Vitória do blog A Estranhamente no dia 23/10/2020 (adaptado)

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Cantada de bar

Cigarro em copo americano, café no canto da boca. O que pensava esse homem quando fez essa loucura de se envolver com ela? Era só mais um arrependimento por não ter dito o que deveria, e por medo de si mesmo. Assim como no mundo literal, o corpo entrega o que a cabeça não consegue admitir, a intenção que não se quis ou se esqueceu de passar... E tudo meio que sai do lugar.

É isso que acontece quando não se sabe direito o que se quer ou o que se está fazendo, e se é forçado a dizer a verdade. O que era mais visível, sólido e de cheiro óbvio vai pro segundo plano e o que só tinha forma por ter ficado guardado num recipiente deixa seu rastro e gosto do lado de fora... Mas pelo menos cumpre sua função e, assim, tudo se arruma, ainda que para isso seja necessário empurrar contra a parede para parar de brincar.


- exercício de escrita criativa proposto pela Maria Vitória do blog A Estranhamente no dia 23/10/2020

domingo, 25 de outubro de 2020

Do todo e nada menos

 Ela quebra,
é mordida,
falha,
pode ser descartada,
tem de todo preço,
no interior pode ser alterada.

Nem toda mão
sabe segurar
e muitas vezes nem é usada
porque tem gente
que usa outra coisa
por ser conveniente
e entre uma e outra
não sabe a diferença.

Por mais linda
que seja
alguns podem não saber
ou mesmo não querer
pôr tinta nela.

Eu e tu somos livros de novela
com potencial de romance
ainda incompleta
da qual não esqueço,
preenchidas por cada mão
que em nós encosta
e a verdade que resta
é querer outras histórias
como meta
nas nossas páginas.

Esses têm cabeça virada
em incerta
direção
porque objeto dinheiro paga
mas, um bom conto, não,
porque não somos caneta,
menina,
então não vale a pena
como uma pensar.

25/10/2020

sábado, 24 de outubro de 2020

São Paulo, 23 de outubro de 2020

Estou com o coração pesado. Pesado de um jeito estranho, por uma dor que nem é minha e ainda tive que voltar pra pegar o guarda-chuva; era dia de feira e vi uma mulher perguntando o preço de uma flor. Como se beleza genuína tivesse preço que dinheiro pudesse pagar. A meia que eu usava ficou encharcada por causa da chuva e a dor que eu não esperava sentir talvez seja minha também porque poderia ser só minha, e muito pior.

Que raio de dia. Quando voltei pra casa, tinha uma barata no quintal. Matei a barata com raiva, chorando por causa dele. Tomei banho e um barulho enorme me assustou... A porta da minha casa se abrindo com o vento como se fosse uma folha de papel. Parece ele dizendo o que me diz. De uma vez só, com toda a vontade, e eu que lide com o estrago que pode vir a fazer e com o susto que dá. Desarmada... Ou quase.

Foi por ele ou por mim que chorei? A raiva era da barata ou dele? Nem sei direito. Agora só quero poder dormir e sonhar com ele me dizendo a verdade depois dessas horas que ele usou para pensar no que quer, e eu para ir à feira, sendo que nem sou do tipo que faz isso. Talvez as coisas estejam mesmo mudando.

- exercício de escrita criativa proposto pela Maria Vitória do blog A Estranhamente

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Dark side of the moon

I don't mean to pressure
but you like how I'm open,
so let me just say

that yours is the grace
of falling on all fours
only if you bother
to face
what comes out of your pores,
as clear as water
for anyone to see

for otherwise 
you play
as if you are wild 
but instead, remain a child,
just a kitten
in disguise

and if it's real,
as in nature
all beasts know how they feel
and there's no fire
that can't burn a liar

if not to his muse,
to himself
not to delve
in what he says in the wee hours
but uses the comfort of any excuse
and one-sided broken heart
in its distance

and small fun
of working too hard
in being fair and direct
only to run
from the true aspect
of the mere chance
of anything
to happen

unless it's just some words 
you say to me
like you may have had to other girls
since it's easy,
because only then,
may be this the moment you can say you heard
even before it gets to hurt
and make me queasy
that you have lost my respect,
you are not honest

claiming so very confused
with something as obviously simple
as infection causes a pimple
for I don't mean to sound like a cunt,
just wish you an act coherent
with what you want
and what you give
and all else I can forgive,
and grant as present
even what you may not expect
from my land that is golden
and sacred terrain,

even its pleasure.
what if I was already in love?
you don't know who you are dealing with,
my good friend...

23/10/2020

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Routines

however fast or slow,
let them witness
as you go
and do your job
the way you want
in this dance
that I respond
to as I follow
keeping your glance
and aligned with your breath
because as long as you don't
step on my dress
or my foot,
this bold song
born of such depth
that knows nothing wrong
doesn't need to stop
to be given a name
nor cease to be a hot flame.

22/10/2020

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Of parties and wars

 you could have scared
me with all you dared,
such rampant,
yet with a touch of elegant
things you have said,
but thank god
after years of burning in the cold
this is a woman 
dealing with a man
that may play surprised
but knows it's no use to hide
that you do what you do
to invite
for a bed
that feels better for two
with maybe a little bite,
just because a kitten
is bold
and seems so, so smitten...

21/10/2020

sábado, 17 de outubro de 2020

Efeito colateral

Tão bonita
essa perícia
que em delícia
me desmonta,
deixa tonta
e excita...

Então, meu amigo,
não se espanta
com tanta,
tanta vontade
de dizer no teu ouvido
a verdade
de que isso mexe comigo...

E o moço sabe
que do jeito que eu prefiro,
mesmo em voz grave
seria discurso suave
dito em mais de um respiro
de mulher;
para ouvir, basta querer...

16/10/2020

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Breaking bread

 while those others
were never able
to do more than look at my table,
without any spite
you offered me your snack
and after taking a bite,
to pay you back
I returned a feast
for dinner
with more than everything you like.

You come,
never bitter,
with dessert
even sweeter
to taste my bounty
every other day
and I, this sensual beast,
am glad for every hour that you stay
to watch me eat it very slowly,
we both serene and absurd
and what is done is done.

13/10/2020

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Old knowledge

 What is devotion?
Is it a feeling,
an emotion,
a thing?

The savouring upon my tongue
of a good cup of tea,
his hand on me
after so long?

Presenting myself as I offer
my love within my tears
which I haven't felt for any other
aside from you in all those years?

Taking pride
in being yours
during low and high tide,
in and out the moors?

Not wanting much
in maybe what I could
but to at least touch
and hold what makes me this acute?

13/10/2020

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Nox

É na calada
que se faz meu grande amor,
que deixo de ter idade,
digo minha verdade
e sinto mais frio e calor.

Que minha história é contada,
tomo posse do diamante,
olho no centro da chama
e, como carta e peça, uma dama,
movo-me ao horizonte.

12/10/2020

sábado, 10 de outubro de 2020

17/05/2020

 Estou aprendendo aos poucos

que toda vez que penso

no quanto as coisas estão levando

para acontecer na minha vida,

devo me lembrar que antes da primavera

há o inverno e, às vezes,

ele é mais longo...

Pelo menos não estou mais hibernando.


- trecho do meu diário

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Serenata

 Que saudade...
Mas como assim
me atrevo
a dizer que carrego
em mim
tais queixas
do ego
quando o enlevo
de que nunca apenas me deixas
aqui
é a pura verdade?
09/10/2020

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

O impacto do inglês na minha escrita

 Talvez por ser um os idiomas mais falados e ser o idioma do mundo globalizado desde que me entendo por gente, acho que minha ligação com a língua inglesa existe meio que de modo automático. Absorvi de modo inconsciente de que estudar o idioma de um modo ou outro faria diferença na minha vida e isso se estendeu em termos emocionais a eu sempre ter tido vontade e facilidade em estudá-lo.

As circunstâncias fizeram com que eu prestasse cada vez mais atenção nisso e que o conhecimento que na época eu recebia na escola regular não me parecesse o bastante. Por isso, me ocorreu pleitear uma vaga numa escola de idiomas, principalmente para ter noção do quanto eu sabia e não sabia. Tudo o que eu tinha em mente era que não estava mais no nível básico.

Até por ter um tempo depois entrado para a faculdade de Letras, logo compreendi de verdade que toda língua é uma criatura viva e cheia de particularidades, que nasce e se molda com o tempo e o povo que a usa. Que pode ser imposta, roubada e extinta justamente por se tratar de uma convenção.

Foi ao estudar inglês num contexto em que estou realmente imersa nele que me fez notar no primeiro dia que meu repertório era muito maior, mas também que ele está em constante expansão. Usando-o fora dali, entendi o poder daquilo como ponte, como gentileza, como parte de mim, como respeito para com o outro que também se aplica a outros idiomas. Ter me apaixonado pelas estruturas que tinha diante dos olhos, entrando pelos ouvidos e saindo pela boca com cada vez mais facilidade, foi arrebatador.

Ele realmente me abriu portas. Me fez correr riscos. Me fez pensar de forma mais sólida numa profissão. Me deu jeitos novos de expressar as mesmas coisas, a capacidade de ler autores que nunca tinha ouvido falar e me deixar inspirar por eles. Me deu amigos novos que talvez eu leve para a vida toda… 

Entre eles, pessoas tão fascinadas pelo poder das palavras quanto eu, que fomentaram uma beleza e uma verdade que minha poesia não possuía, ou só não tinha sido descoberta. Talvez um eu que estivesse oculto em mim. Me faz usar com orgulho um nome que sempre foi meu e, como bônus, ter passado por um batismo. Ter noção do impacto daquilo que sai da minha mão e, em parte, da minha boca. Deixou ser mais fácil falar sobre certas dores e se tornou um amor que veicula amor.

Notar as nuances e diferenças entre esses dois rios que correm aqui dentro, e ver ambos como água bendita que no fim mata a mesma sede. Água que muito mais gente pode beber comigo. Água em cujo reflexo finalmente me reconheci como isso que vocês veem por aqui, mais do que nunca.

08/10/2020

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Lençóis freáticos

Assim como as gotas de chá
pelo piso,
espero que não seja preciso
muito para mostrar
que meu derramar
não é só mais um drama
e sim coisa para ser vista
sem cinismo,
como batismo
em chama.

02/10/2020

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Ciclos

 Lua cheia
gosta de peleia
por rima bonita, feia
ou vinda em meia.

Lua que em nome é nova
é discreta senhora idosa
que já gostou da minha prosa
do tipo que comova
até botão de rosa.

02/10/2020

domingo, 4 de outubro de 2020

Coisa da juventude

Escrevi poema
querendo dizer
que foi num hoje mais cedo
que, me olhando, já se fez ontem

assim como a pena
não pôde prever
o meu quase amando
um medo
que nunca se fez homem.

02/10/2020

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Nivelamento

Tomara que não seja só fase
esse traquejo,
esse jeito ora mais grave
ora mais suave
de quem sabe
dar ênfase na frase,
esse queixo levantado,
esse olhar bem no meio
acertando em cheio
mesmo que de lado,
esse gesto de quem mais que nunca gosta
da própria proposta,
porque essa é a chave
de quem diz a que veio
e é isso que eu te desejo.
 
01/10/2020

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Maturity

 so huge a heart
for such tiny a chest...
how does one keep every single part
without leaving behind any rest?
well, I guess one has to start
somewhere and face the test
where to prove you are smart
you know what is the true art
and what is mere young zest.

30/09/2020

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Conquistador

 I've just grown.
I'm already better
in the things that matter
and that you don't own.

no one is god
just for standing on their feet
like little is left
of the girl who used to just nod
and bow her head,
she is dead
and shame's on you.

I don't care if anyone hears
me hissing when put into reins
because after all those years
of this body not stopping my gains
you don't get to tell me what to do
nor space to manipulate
affairs that are not of your state,
no matter if it's a scandal
or if I sound hard for you to handle.

If you don't want to meet my wrath,
learn to walk your own path
because I may not wear heels
and barely touch the floor,
but for your own sake
make no mistake -
even over wheels
there's only so much I can take
and I might drop you, shaken to the core...

Both my mind
and my body
are holy
and mine
only
to reign,
so don't be gross
and have some honor
to carry your own cross.

29/09/2020

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

06/05/2020

 Às vezes eu olho pra minha vidinha tão pacata 

e rasa e fico insatisfeita, lógico. 

Mas aí eu me lembro das coisas que eu aprendi, 

das pessoas com quem eu interajo, 

das coisas que eu já consegui e fico feliz de novo... 

Pelo menos mais feliz.


- trecho do meu diário

domingo, 27 de setembro de 2020

Comunhões

 Em que outro contexto
que não o de tudo perdido,
que deixa de ser o que é,
(e agora, José?)
quem diria,
haveria pretexto
mais bendito
para fazeres de escrivaninha,
do leito
e da mesa da cozinha
altares
para verdades
do peito
e dos longos dias
em vozes mais ou menos ciciadas
aos quais me co(n)vidas
nem que seja pela poesia
da companhia?
 
22/09/2020

Pode levar tudo, menos o meu direito de sentir

Me deixa chorar pelo que eu perdi e pelo que eu posso perder. Me deixa não me arrepender de absolutamente tudo o que digo. Me deixa escolher...