domingo, 9 de agosto de 2020

Última passagem

Ele não é do tipo que faz promessa que não pode cumprir, nem eu. E muito por isso, nunca fiz cobrança - tudo que veio dele até hoje não foi menos do que presente para mim e acho que sempre há de ser, em toda aquela gentileza e calor que nunca deixei de amar. Ele faz as coisas do seu próprio jeito e no seu tempo, e me mostra vez após vez que eu também posso.

Embora eu no fundo esperasse que ele voltasse como dos outros dias, se não voltasse, tudo bem, porque no fundo nunca foi embora. O que eu tinha já era lindo, e muito daquilo já estava cravado como consolo da minha alma a ponto de ter me feito chorar depois que ele me deixou na ocasião interior. Ah, se soubesse de todas aquelas lágrimas que saíram de mim, aquela dor, aquele aperto como que de coração partido como nunca senti antes e com o adendo de que não era a dor de uma perda, mas pelo tanto que me foi ofertado e que me deixou transbordando como um cálice...

Mas ele voltou, para minha surpresa. Abri a janela da cozinha e lá estava ele, com aquele sorriso tímido, me enchendo de desculpas pelo atraso quando a honra é minha em recebê-lo de qualquer forma, e ele não me devia nada. Fi-lo entrar rapidamente para aplacar-lhe o grau de nervosismo e sentamo-nos à mesa de refeição de frente um para o outro. Ficarmos ali fez sentido por ser uma troca, como refeições são e deveriam ser. Anuí carinhosa e pacientemente a suas repetidas desculpas, perguntando-me que presente ele teria para mim naquela hora em que vinha com a selvageria e cheiro do mar mal contida no corpo, cabelo bagunçado e pigarro da garganta. Como de costume, seus desejos de que eu estivesse e permanecesse bem me aqueceram.

De novo, ele tinha vindo para ler para mim. Dividir comigo as jóias de suas estantes, as histórias e versos, pelo menos alguns deles, que lhe moviam o coração, e que achava justo compartilhar para que fossem talvez pontos de luz em meio ao caos crescente… Lá de fora e da minha vida, ainda, de certa forma. Eu e ele sabemos que as palavras são poderosas e que, às vezes, ainda que palavras sejam tudo o que se possa oferecer, que pelo menos dissessem a verdade, que fossem sinceras. E era ainda mais generoso poder ouvi-las dele próprio quando com a mesma ideia poderia ter simplesmente me emprestado os livros, marcados em certas passagens. Poesia e boas histórias podem mesmo curar pelo menos um pouco e acho que ele sente isso também.

Tirou do bolso um exemplar velho, amarelado, dizendo que não sabia se poderia fazer aquilo mais vezes porque a vida estava entrando no caminho… Mas que tinha tempo e vontade de ler nem que fosse um conto curto de um autor que gostava. Como se naquele gesto em si e naquela linda cadência uma única linha não fosse pão sovado e mel, ainda que a cena descrita fosse triste ou algo parecido. Nada daquilo me importava, contanto que ele estivesse ali por vontade própria e pelo tempo que desejasse. Tanto a presença como a ausência dentro daquela vida tão dele me alegravam à sua maneira.

Lá estávamos os dois, de um modo ou outro lamentando o mundano que nos interrompia com tolices como quase sempre parecia fazer em superfície. E mesmo assim ele tinha minha atenção, naquela voz que me puxava para si e me embrulhava no veludo elegante e escuro de um vestido de viúva jovem e enlutada em sua particular pitada de tristeza. Acho que foi até ter notado isso naquele dia em específico que fez com que, por baixo de todo o resto, eu mais sentisse do que ouvisse o que era lido.

Talvez mais do que se eu própria estivesse lendo, aquilo parecia tão tangível, tão vívido, vindo de uma boca tão humilde e tão consciente das pausas e da música nas coisas. Ou talvez só fosse meu jeito um tanto ingênuo de me enamorar tão fácil pelos pequenos detalhes e o tempero do meu afeto e admiração pelo homem que estava comigo. Tanto faz, na verdade. Nada se anula, muito menos o mérito do texto em si e do que a junção de tudo me fez sentir.

Eu me sentia como a mulher cega que vê poços do poema irlandês e a moça espanhola também cega que vê a cidade e lê os romances pelos olhos dos outros… Não digo que por cegueira minha, embora ela de certa forma exista, mas… Porque por melhor contadora de histórias que dissessem que eu fosse e os pormenores o que mais permanecesse comigo, era diferente ouvir as descrições, situações, as rimas dos poemas. De certa forma me apaixonei, assim como o protagonista do conto, pela mulher linda que ele admirava sob a luz dourada e onírica da tarde; mesma luz que a minha mão já havia descrito tocar pessoas que eu amava, tanto em prosa como em poesia. Claro que ouvi-lo ler até a lista telefônica seria um prazer, mas…

A luz artificial da minha casa cansou-se de nós e nos deixou no escuro, mas deve ter se apiedado depois, porque logo voltou para não me privar daquele amor retrocedido um tantinho em si mesmo antes de seguir desenrolando-se diante de mim como uma bandeira ou flor que desabrocha pela gentileza de quem lia; similar adoração do menino do livro catalão que segurei nas mãos há mais de uma década como quem explora uma paixão tão proibida e improvável quanto. Dali um tempo eu e minha visita nos pegamos desejando que a luz não se fosse outra vez.

Junto com a energia, o resto o puxou para longe de mim antes que ele pudesse terminar o conto, talvez em espelho ao que acontecia lá; hora que se faz tardia demais e sem explicação. E, mesmo assim, não o quis menos bem do que queria dias atrás, pois a vida tem dessas, embora parte de mim, humana que é, se chateasse como o próprio moço pela interrupção em si. A partida repentina não impediu o meu sorriso na beleza da companhia e tudo mais. O que eu não imaginava era, algumas horas depois, já com a lua como testemunha, ouvir o vento e as ondas trazerem consigo a voz do meu vizinho murmurar a última passagem da história e uma verdadeira despedida, como só ele poderia fazê-lo.

08/08/2020

sábado, 8 de agosto de 2020

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Em roda

Qual a minha sorte
de por um lado não ser mais menina
e, sabendo que outra morte
se aproxima,
ter mestre
campestre
que me conduz
com gentileza
de dança,
a da natureza,
para luz
e abundância.

01/08/2020

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Agape

Love is a building
where each ramification of love
is a room.

Each one
with its own mess,
light and darkness.

They all deserve to be explored
fully,
and many I have barely scratched

the surface of,
barely touched
its gloom.

Yet I know what I
am here learning,
and that is its great beauty -

if that is the human's nothing more
to be here for,
may we look at it for what it is

and value the caress and cut
of every yes and every but
in its breeze.


27/07/2020

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Other heartbreaks

If there is a heaven,
it might have touched me
in how much lower
and softer
the voice of a lover
can be.

In how I was humbled
to a fool,
to a pool,
to a blade of grass
as I crumbled,
falling
into rain,
crying,
at the edge of my breath
and I sighed
in relief
at such depth
as though I was in pain,
and in a way, I was.

I was broken,
yet full
and flooding,
once again ready and open,
and hopefully always so shall
it be, and that is all.

26/07/2020

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

He knows me not

He knows me not.
he knows the name
he has given me,
but maybe not its higher joy,
not my tears,
not the longings and fears
upon the years
that move my heart,
he knows not art,
not the flame he has sired upon the earth,
not to be seen as a toy
thrown to the sea.

He knows not of the poet under his roof,
his flesh's daughter,
and even if the first I were not,
he knows not how much I try
to swallow the knot
and the beautiful ache
of every good,
harsh truth
bestowed upon me to be understood
for the better,
for my own and everybody's sake,
so there might be another
in whose bosom, as I cry,
it stays between him and I,
maybe as the soul's father,
it seems,
for this one might know what I've got,
what bursts me at the seams...

26/07/2020

domingo, 2 de agosto de 2020

Pure dialect

Out there it is way fouler,
but as you know,
in my soul
I never sink too low,
so
in your ear it has its own law
that wasn't written,
sounds sweet
and raw
in word
in time with my heartbeat
of bird
like a kitten
held on by its claw
and even its rare dirt
is an ominous sign from the owls
of my respect,
of what is honest and correct.

25/07/2020

sábado, 1 de agosto de 2020

Return

show me the way...

to the forest
I carry in my name,
be it west
or east,
master
of every beast,
feeder of this flame.

that takes me
closer
to you
and my destiny
in what I do,
sower
of every old tree.

which is enough of a reason
not to sound like treason,
much less to you, crown prince,
who moves each season
with pure
gesture,
sound and glance.

am I better than I was yesterday?

20/07/2020

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Escriturado

Teu contrato
sem papel
assinado a unha,
suspiro e mel
me é tão barato
talvez por ser mero consumado,
lua e sol do meio em testemunha
de até antes desse querer
eu já ser tua
e bendita seja a água
debaixo da tua língua
e daquele
pelo que me fere
a fazer
e dizer
que, espero, acaba em dobro prazer.

19/07/2020

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Ouroboros

Primeiro, volta-se para o novo
que na verdade é velho,
ainda com peças faltando,
parafusos fora do lugar...
E o desespero de manter o mínimo
ainda ao alcance da mão.

Dentro do começo,
um final que se vira do avesso,
cheio de promessas
e de uma voz conhecida
mesmo com prazeres que acabam tão rápido...
Talvez pelas páginas viradas.

Falta de descanso perturba uns
e ninguém parece ouvir o aviso da sereia,
porque de repente se veem sem ar,
trancados aos gritos,
experimentando uma solidão
que para alguns é quase amante
em saturações baixas e específicas.

No começo parece fácil porque nada mudou -
as poucas razões se esfarelam diante de grandes medos,
mas ainda restam as canções
e orações vindas de outras mãos
que lembram de para onde não se deve olhar
e mostram um lar
que não sabia que poderia ser meu...

Até que, com o tempo,
se esquece do tempo,
ou talvez se percebe
que só o viu de relance
mas ainda pode sentir
comprovado nos nomes que se pergunta,
num verão que não foi vivido
e num inverno que abraça apertado
fazendo feridas.

Olha-se no rosto da verdade
em cada poça de lágrimas,
em cada lembrança de sol,
nas conversas retomadas,
nas que não se tem
e em cada ânsia que não se faz negar
valendo-se delas
e de dias de verso escolhido
em boca amada
para lembrar-se que está vivo.

A vida e a morte
resumidas em cores,
retorcidas em egoísmos e distâncias
e motivos (antes e talvez ainda)
desconhecidos
para os silêncios da dor
e dos galos que cantam para a lua,
mas, quem sabe, em linhas espelhadas,
cartas e na borra de mel do café.

18/07/2020

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Essencial

Na casa
nem um pouco rasa
em que o futuro pisa
em cama,
mesa
e banho
como o ditado proclama
as três partes da baliza
da certeza,
não querendo que soe tacanho,
são a brancura,
a lonjura
e do sutil a leitura
e, por mais que pareça louco
e que a vida esteja jogada às traças,
não importa a quem eu dê graças
por ter disso, agora,
mesmo com a demora,
pelo menos um pouco.

17/07/2020

terça-feira, 28 de julho de 2020

Homilia

Tão fácil parir filhos
poéticos
olhando nos teus olhos...
Versos
que não são para lábios
de homem,
mas que nos teus, meu bem,
como outros
tantos,
se transcendem...

17/07/2020

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Metodismo

Perdoa
se soa
como alarme,
mas não dorme
comigo
a menos que queira,
entre uma e outra besteira,
poesia perto do ouvido.

17/07/2020

domingo, 26 de julho de 2020

Languidness

I may sound mad
as if there was only Friday,
but I can say that if I could
spend the rest of life in bed
feeding you honey,
sure I would.

16/07/2020

sábado, 25 de julho de 2020

Mise en place

I wonder if you are really aware
of how photography gets timeless
at the falling of your hair
in its elegant brown mess
or how your hands are poems
of death and life and love and folly
like an ode by Keats or a song of Cohen's
touching the dirty and making it holy
in front of my naive eye,
deep into my every bone,
cause of this sigh
that the night hears, us both alone.

14/07/2020

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Makeover

You know me well
enough to smell
when the screen
shows the usual scene
of how easy
to the point of cheesy
I am to read,
to get enamoured,
what is my creed;
and it only serves to reinforce
that you coming into my life's course
along with them
and him
are the marrow, the bones, the muscle,
the old and new hustle,
grace
and face
of my poetry
and if that isn't artistry,
then all else is a sin.

13/07/2020

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Esparrame

Corpo em si que não se contém
de ardil
e amor que não se mede em mil,
muito menos em cem...
Só cama larga recebe bem.

12/07/2020

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Resumo

Tudo pela tua boca... Tudo.
Eu bem sei que certas palavras
podem e merecem ser ditas,
bem como soam,
em pelo menos duas línguas
e que, com elas, se conquista o mundo.

12/07/2020

terça-feira, 21 de julho de 2020

Pose

Lábios
e garganta
que tivessem sempre a mesma voz
sensual, decidida e elegantemente atroz
que, carregada entre palma e dedos,
assim, contrafeita,
te ama, insiste e espanta
tanta gente.

12/07/2020

segunda-feira, 20 de julho de 2020

A queda e sua montanha

No esforço de não repetir outras falas
como leitura de borra,
o que tento
dizer que não temo
não é que eu morra
quando for meu tempo
e sim por dentro,
sem sustento,
das mesmas desgraças
de tantos outros poetas...

10/07/2020

domingo, 19 de julho de 2020

Neo-Renaissance

Da Vinci would die
for your hands
in his next masterpiece
just like you could kill me with these
and I
would gladly go.
How do I know?
Love, there are things only the heart understands.

10/07/2020

sábado, 18 de julho de 2020

Meia-luz

Gosto do escuro
pelo bem dos sentidos
de lábios em apuro
e dedos perdidos
a quem não se pode culpar
quando tocar-se
é uma catarse
para lembrar
que estamos vivos
e da tua mão na minha coxa,
ainda que me faça parecer trouxa.

07/07/2020

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Jornada do equilíbrio VI - Corpo-casa

Movimentos retardados,
desajeitados,
tentando ser delicados,
sem coordenação
de quem se move feito peça
tensa à beça
e no fundo tem mesmo pressa
por mais que jargão
e esquece que foi na quietude
em que ninguém espera que o mundo mude
que me vi e senti amiúde,
até o bater do meu próprio coração.

07/07/2020

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Verso de bilhete que escrevi

É, guri,
tenho saudade de ti,
de te contar das crianças que pari,
do vinho de mão e abraço vindo daí,
saber como está o mundo dentro em si,
porque não, eu não sumi,
mas me assusta o que li
e de nós eu não esqueci
então, quando quiser, estou aqui.

06/07/2020

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Names make a being

If we ever meet,
you and I,
call me the name you know me by,
for it is easier to say
and the one my soul chose
in a distant summer day
and also the one you gave
not for me to keep a pose
but maybe shine from under the wave.

06/07/2020

terça-feira, 14 de julho de 2020

Feito no campo II

Quem sabe deitar na grama
como se fosse cama,
de olhos fechados...

E tirar a roupa,
mera casca que mostra a polpa
nos avessos...

O negror da terra a segurar o corpo
que, ao virar-se de pouco em pouco,
o verde lhe lambe os seios...

Na mesma sensação tão bela
que devem ter flores quando da janela
recebem do sol os beijos...

06/07/2020

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Natural habitat

I much love the feeling
of your mouth's real breeze
where you don't have to try
to alter its core timing
just to please,
even if it's rather dry.

05/07/2020

domingo, 12 de julho de 2020

Jornada do equilíbrio V

É sempre bom ouvir o que o outro tem a propor, mesmo num caminho similar. O que me foi proposto refletir sobre nesses dias são coisas que eu venho trabalhando e é bom olhar para isso de novo com sugestão de outra pessoa, porque é um processo constante. Me fez perceber no que eu já evoluí também e o que eu ainda preciso fazer.
Acho que o meu maior problema com os meus defeitos agora é contorná-los e me perdoar pelo que eu ainda de certa forma faço só pra agradar os outros. Venho absorvendo que isso são micro (e às vezes macro) agressões contra nós mesmes e talvez justamente isso facilite a sensação de que a gente não sabe o que quer. Lidar com o mundo não apesar deles, mas com eles – a gente é assim e pronto, mas não pode esquecer do dano que causa. É fácil perceber que não se é perfeito, mas se acomodar nisso; por isso eu gosto de situações como a que eu vivi hoje porque elas me mostram isso, mas não de um jeito agressivo. Para mim é mais fácil contornar quando é assim.
Todas as relações pedem um nível de vulnerabilidade, não adianta. Se se quer ajudar o outro na dor dele tem-se que dizer olha, tá aqui a minha feridinha também. Comigo não falta isso... Mais em como lidar com o que vem do outro; o impacto que eu causo no outro. Eu tinha medo de falhar. Depois tive medo de mim, me assustei comigo. E agora tenho medo mais que tudo de falhar com os outros de uma maneira que não consiga arrumar, nas minhas relações com o outro. Sei bem o que é tentar fazer por si num processo de ganhar uma voz verdadeira e o quanto isso é importante. Mas isso se consegue se entendendo a mão para quem está ao lado, certo?

04/07/2020

sábado, 11 de julho de 2020

Jornada do equilíbrio IV

Há um tempo abracei a minha Sombra e, dentro dela, a minha impulsividade. É doido mesmo como a gente não tem controle sobre como os outros recebem aquilo que a gente faz e diz, não importam as nossas intenções. Venho tentando não passar a mão na minha própria cabeça, o que inclui reconhecer a toxicidade dentro daquilo que as pessoas fazem comigo e do que eu faço por elas. Considerando o momento atual, acho que sei quem eu veria, quem me entregaria a mensagem... Ou pelo menos quem eu gostaria que me entregasse... Que me lembrasse disso. Porque, para dizer a verdade, eu já comecei a absorver a afirmação.
Considerando isso, experiências recentes só me provaram que isso também se aplica a mim. A pessoa não encarou o que eu fiz como algo ruim quando poderia e foi só depois que eu disse o que eu ia fazer e a pessoa não se importou que eu percebi que o que eu estava fazendo tinha um lado ruim e poderia ser encarado dessa forma. E como não foi visto assim aquilo me emocionou; chorei mesmo. Porque a princípio eu devia ter guardado para mim porque poderia dar errado – eu percebi depois que já tinha dito. Eu tirando vantagem da dor de outra pessoa. Mas a pessoa não encarar assim e até ver como curativo me comoveu. Se fosse outra pessoa, poderia ter ficado com raiva de mim e com razão, mas não foi o caso.
Claro que eu a princípio fiz de impulso uma coisa que eu depois vi que talvez não deveria ter feito, mas tenho abertura com essa pessoa para fazer o que fiz e se não tivesse gostado me falaria, mas depois de feito eu percebi que nem sempre aconteceria de receberem aquilo tão bem e foi a reação legal que me surpreendeu. Me fizeram chorar, mas porque foram legais demais comigo. Até estou meio dividida com isso porque fiz algo bom, mas ao mesmo tempo tem essa parte. Acho que nesse caso daria certo de qualquer forma, tivesse ele gostado ou não, porque tenho essa abertura. Mas foi naquela hora que eu me senti mal que percebi que não vale para todo mundo. Talvez essa sensação de divisão seja eu refletindo sobre o que eu fiz, de verdade. Talvez... Isso seja eu perceber que essa abertura não existe com todo mundo para eu ter feito o que eu fiz, qualquer que fosse a resposta; por isso a própria resposta positiva me surpreendeu... E tudo isso me serve de alerta.

04/07/2020

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Magnifying glass

There's a bit of a struggle in life
when one hand is a crooked paw
and both are seen as blades to a knife
with nothing but evil claws
for pain and inception,
but I carry my cross -
are you willing to change your perception?

04/07/2020

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Hell of repetition

She escaped from me like sand
and now I suppose mine is the burden
to be yet another man
tying himself to the ship's pole
not to jump out with the pain
from and into the salty hole
which is her voice... That siren.

04/07/2020

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Laments on what never was

Love is love, I guess,
inside the heart,
even in war,
like a ribbon bow does its best
to hold neat together a raven tress
one sees only from afar
and might end up on the ground,
stepped on, torn apart,
and, by another soldier, maybe found
and returned...
If it's really the end,
maybe a wave of bad luck,
does it matter that much
whose is the fault?

03/07/2020

terça-feira, 7 de julho de 2020

Intentions

If I never get to see you, then
may I feel god
through a worthy man
who strikes me just as awed.

Either that or...

Your taste in sweet fruit that I eat,
your touch in certain breaths of wind.
Your kiss from the sun and the rain
that I go back to time and again.

And if I never lay on the forest floor,
may I find another way to still adore.

03/07/2020

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Cantadora

deixa-me deitar no teu colo,
me aquecer na tua pele,
dar à luz no teu solo
e conceber outra vez nele.

seja pai desses meus filhos,
faça-os comigo...
filhos em versos
e rostos ambíguos.

assiste-me nos meus partos,
ampara essas cabeças
nas tuas mãos santas
de meninas altas, espertas
e meninos às vezes minguados
sempre alimentados em seios fartos.

é meu destino ser essa mãe e cantar
como o senhor também é pai,
mesmo que puxando outro ar
em outra dor, mas... ai!

crias do éter,
do vento e do fogo,
tantas, com ânsia de chegar logo,
cheias de amor e prazer
e também no tempo que tem que ser.

outra bruxa que se abre,
quem sabe,
entre aquelas que o senhor queira
e nelas deixe bosque em carne.

mas talvez nesta era,
com esta serva,
seja diversa a primavera -
mais sutil,
mas não menos fértil.

02/07/2020

domingo, 5 de julho de 2020

Roleta russa

O universo
parece gostar de brincadeira
de tortura
por nos dar verso
e tremedeira
na secura
e colocar no processo
mais que simples fronteira
que fácil se fura
quando se quer nem que seja un beso
e não nos importa dar bandeira
da quentura...

02/07/2020

sábado, 4 de julho de 2020

Jornada do equilíbrio III

No inverno, o frio nos força a nos cobrirmos para reter o calor; em nos fazer em mais camadas exteriores do que já possuímos numa situação geral e até ideal. Também nos induz, ou pelo menos induzia, a ficarmos mais perto uns dos outros, a nos resguardarmos e encontrarmos outras maneiras de sentir o tempo que passa. Dependendo da situação, parece que nenhuma roupa ou coberta consegue aquecer... Nem por fora, e, às vezes, nem por dentro, e honestamente não sei dizer o que é mais triste.
Somos feitos de muitas camadas, tanto no corpo como na psique e, assim como os selkies, conforme se faz necessário ou dita nosso desejo, nos desfazemos temporariamente de alguma ou algumas delas para que outras partes de nós possam ser mostradas. Mas o povo selkie sabe que sua camada talvez menos óbvia é também a mais importante para si e a mais preciosa em si mesma e até como valor de mercado, pois os faz aquilo que são simplesmente sendo, acima de qualquer outra coisa, e também moldada de acordo com o jeito de cada um... E nunca esquece onde a deixou antes de voltar para casa, porque não há como estar em casa sem ser tudo o que se é e escolhe ser – seja essa casa um lugar ou o sagrado templo do corpo.
Mas essa casa também pode não ser onde pensamos que é, ainda que tenha sido por escolha nossa ou falta dela. Escolha de experimentar algo que parece bom e que com o tempo nos mostra que merecemos mais... Ou uma mais inconsciente, talvez, e eu diria dormente, de ficar onde não há a luz estalada do fogo em conjunto porque dizem que certas peles bastam... Ainda que ela não seja a nossa pele em primeiro lugar, talvez nos escondendo de nós mesmos e do mundo. Que não seja a do animal que vive em cada um. Da foca que uma linda moça e rapaz selkie nunca deixa de ser.
Nos vestem seja com o que está ao alcance, com o que acham que nos convém... E a gente acredita naquilo, seja a vida toda, seja só por um tempo, porque, querendo ou não, contanto que nos cubra, não mostre aquilo que temos ou julgamos ruim (ou mesmo que os outros julgam assim) e cumpra sua função mínima no inverno e verão, não nos importamos muito ou de jeito nenhum. Mesmo que fique talvez mais largo ou apertado do que deveria, seja de uma cor que não exatamente gostamos ou nos favoreça e/ou seja de um tecido que incomode de alguma forma – coisa que muitos demoram ou nunca chegam a perceber e em alguns casos percebem, porém não modificam, por medo da mágoa do outro.
Mas tem coisa melhor do que estar em casa? A casa que se tem, a casa que se fez, a casa que se é? Com tudo o que se gosta, com tudo o que se sabe, quer e precisa? Olhando pra si, no corpo e na psique, e nos reconhecendo na beleza serena talvez não das nossas imperfeições em si, mas no fato de elas estarem ali por serem normais. E nos reconhecer na nossa forma debaixo de qualquer camada – seja na pele exposta pelo verão que nos descasca e quando nos vestimos de céu quem sabe em mais de um sentido perante o divino e o amor verdadeiro, seja na que temos de que às vezes só a lua sabe, seja a nível ainda mais profundo... E uma roupa que reflita por fora, de verdade, um pouquinho do que somos por dentro. Que nos caia bem, que valorize o que nos foi dado, que não nos aprisione. Às vezes tudo começa por aí, e todos merecem essa chance. Eu bem espero pela minha.

01/07/2020

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Retrato antigo

Como vieste,
tu ficarás,
o gesto é justo,
este
que não te deixa para trás,
no tempo parada
e enterrada
no escuro
e sim onde o olho alcança
como ao teu e o eu criança
e a minha última lembrança
com seu custo
e se foi honra dourada
que me deste
mesmo tão pequenina
contra a parede,
que tu, mão olguina
permaneça onde estás,
até onde se estende
o que fizeste.

01/07/2020

quinta-feira, 2 de julho de 2020

As it should be

I would rather bleed into the earth
having you sing to me like a bird.

I would rather be wrapped in your furs,
on your lap, a kitten that just purrs.

I would rather be shown my real pelt,
as free as the child me had never felt.

I would rather be a bee inside a flower
than a maiden locked up in a broken tower.

01/07/2020

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Allowance

I love hands
and what they can do...

Yours during nows and thens
in the enough I know...

Maybe keys to a spell
birthing storms anew...

Out of which beauties burst
like a fruit...

Always treated as the first
and last things to ever be touched and built...

Oh well.
There's no such thing as mercy with you...

30/06/2020

terça-feira, 30 de junho de 2020

Jornada do equilíbrio II

As vozes dos outros fazem a nossa, muitas vezes. Tanto aquela que de fato temos, como a que achamos que temos e a que sabemos que deveríamos ter. A voz que cobra, a que julga e culpa a si mesma e aos outros... Que nos põe na zona de conforto com mensagens um tanto contraditórias que são para ser de aceitação e acabam como crítica ao mesmo tempo e aponta muito mais o dedo para os nossos relapsos, talvez encarando conquistas como obrigações ou coisas maiores do que realmente são... E que, de uma forma ou outra, talvez correspondam àquilo que esperam de nós, que é muitas vezes algo idealizado e fixo.
Vozes que alimentam os nossos padrões de comportamento e de percepção de si e do mundo... Que nos paralisam justamente diante daquilo dentro de nós que foi desenvolvido por causa delas porque absorvemos absolutamente tudo como uma verdade e/ou como uma verdade que não é maleável. Que de qualquer forma nos machucam e são difíceis de ignorar.
E às vezes, para nos livramos disso, sentimos que temos de provar o contrário – que conseguimos fazer diferente, que não estamos destinados a viver e morrer ou pensar daquela forma. Mas será que não é só para nos desfazermos de um peso? Estamos levando em consideração as nossas aptidões, aquilo que realmente queremos, ou só a satisfação temporária de eles verem que estavam errados? Ou até para conosco mesmos, que somos capazes de chegar em algum lugar... E no fim das contas esse não ser aquele para onde deveríamos ter ido.
E a voz que mais importa, será que escutamos de verdade? Será que deixamos que o que as outras dizem nos impeça de pelo menos tentar de novo, ou, como talvez Bentinho Santiago, que nos ensurdeçam para aquelas que realmente nos desejem a felicidade que merecemos, à nossa maneira? É possível encontrar o limite entre frouxidão e excesso de rigidez, sendo que certas coisas nunca poderão ser curadas totalmente?

30/06/2020

domingo, 28 de junho de 2020

Jornada do equilíbrio I

É engraçado quando a gente vê padrão nas coisas porque comigo aconteceu mais ou menos na mesma época, que também é quando a ciência diz que o nosso corpo já está todo formado – mas ao mesmo tempo ainda faltava tanta coisa em mim e ainda falta... Já escrevi sobre isso outras vezes. No meu caso nem foram oportunidades que eu enxergava de forma destorcida, mas eu tomando decisões que no fim não me fizeram feliz e que fizeram com que o meu caminho fosse mais longo do que eu gostaria e que me encheram de culpa, me deixaram perdida.
Foi muito doloroso, mas o reverberar dessa ruptura em outras áreas da minha vida fez com que, por mais que algumas vezes eu quisesse desistir e que tenha sentido muita solidão, eu voltasse pra mim. Parasse de verdade para olhar para mim mesma e para quem eu sou desde lá de dentro, até para as coisas que eu apenas conjeturava – seja o que o meio fez de mim e o que eu mesma deixei acontecer – e percebi cada vez mais que esse é um processo que vai durar pelo resto da minha vida. Eventualmente, achei um caminho por onde recomeçar; sempre me apoiando naquilo que sempre foi minha cura, minha marca, minha maneira para poder lembrar da verdade. E cada vez mais estou sendo conduzida em direção a isso.
Mesmo hoje eu me questiono, se o que quero é o que realmente quero, se mesmo naquilo que eu mesma decido e que sei que é meu ainda existem resquícios daquele eu adormecido e rendido às circunstâncias que vive da forma como os outros esperam e não consegue se expressar completamente, se aquilo que eu escolhi me basta ou se preciso de mais nesse sentido como sei que preciso de mais na vida. Se ainda estou fugindo de alguma forma. Se o que eu quero que aconteça vai mesmo acontecer, se eu vou ter disciplina e paciência na vida geral e profissional para conseguir viver da maneira que acho melhor.
Quando tem tanta coisa à minha volta que parece não mudar, é fácil esquecer do meu progresso, do meu amadurecimento, e até do poder das minhas habilidades; do risco que vale correr para viver a partir delas; da única e talvez mais bela oferta que eu tenho para deixar para os outros, que é aquilo que eu penso e que vivo, minha maneira sempre disposta a evoluir de ver o mundo, que existe na latência da minha consciência talvez há mais tempo do que imagino, ainda mais para quem tem uma voz, e ao mesmo tempo não. E eu mesma, com o meu senso de lealdade, entrega e devoção.
Acho que o mais interessante nisso é esse processo de FAZER quem nós somos de verdade, a partir da experimentação das coisas que parte principalmente da nossa própria vontade e utilizar cada uma delas como ferramenta para nos manter aqui, para nos curarmos a nós mesmos e aos outros, talvez... E nos sentirmos vivos, nos levar adiante, seja em pequenez ou grandeza ou na grandeza da pequenez. Se permitimos, algumas se cristalizam – que essas sejam as que nos preenchem de forma verdadeira; que elas nos encham de sabedoria. Eu, pelo menos, estou tentando.
Tentando não pensar nos obstáculos e sim no que eu mesma posso fazer. Perdendo o medo de pedir ajuda e de aprender com os meus erros. Me agarrando cada vez mais ao que sei que faz parte de mim e que não me foi dado por ninguém (pelo menos não de carne, vá saber...) e reconhecendo padrões que não quero repetir, situações em que não quero me envolver. Aceitando os presentes, aprendendo a ler as sutilezas. Procurando me respeitar mais e também ao tempo das coisas, estabelecer limites e me abraçar pela pessoa que sou. Ainda e sempre dando o melhor de mim – não o que dizem que posso dar, mas onde sei que posso. Focando naquilo e naqueles que me inspiram e me fazem pensar; me abrindo cada vez mais para quem está aberto para mim e para cada milímetro de independência. Não esquecendo que aquilo que eu mais almejo é apenas um começo que agora sei ser possível, e um feito de pequenas grandes partes que me ajudarão a não ir embora daqui com mais arrependimentos do que plenitude. Tentando recuperar, cada vez mais acordada, o tempo que passei dormindo dentro de mim mesma, porque é tudo relativo.
Se não sei quem sou e talvez nunca saiba de todo, sei que sou mais do que os outros e eu mesma imaginavam, sei exatamente qual é o meu destino e de que caixa vem o fósforo que causa e causará o incêndio que não me consome e sim me alimenta. Se for para morrer, que seja deixando alguma coisa para trás. E que seja amor pelos outros e pela mulher que estou construindo, cinzas num jardim... E boas palavras de presente, quem sabe. Não para massagear meu ego solitário, mas pelo bem das conexões saudáveis e da capacidade que um gesto genuíno tem de trazer alegria e até laetitia, que descobri há pouco ser a alegria etérea, a nível divino e que está no meu nome, que, ainda que eu mesma não tenha escolhido, não deixo de assinar com orgulho por ser apenas o início da camada mais superficial do que mais importa, que sou eu mesma. Já o nome da minha alma... Esse ela mesma pegou para si e isso basta.

28/06/2020

sábado, 27 de junho de 2020

Lightness

Light cannot exist without shadow.
May we remember the little happinesses
even within the greatest sorrows.
May our souls
and Selves
be so at peace they don't forget
they transcend themselves...
But also have a home in the body, in the now.

11/03/2020

sexta-feira, 26 de junho de 2020

2001

I confess I miss
my time at the garden
with its bliss
of unawareness of the burden.

Sitting by, working and eating
on the same table,
wishes alone determined my walking,
much lighter,
much higher
and in a sense more stable,
a ballerina in motion.

Welcomed by peers
and loved by teachers,
things were not always even,
but there was always an option.
There I first heard of heaven
and tasted of kin.
Yet that was my Eden
without a single sin.

26/06/2020

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Obelisco

Vivo momentos históricos
e ao mesmo tempo, não.
Não porque sejam irrisórios
ou sem nenhuma ligação,
mas, dói dizer, parecem distantes aos olhos
e à mão.

Talvez porque lá fora
e aqui dentro
se viva mais de um tempo
e o que eu possa fazer agora
embora pareça muda
seja pedir,
me redimir
e oferecer ajuda.

E, por mais que só meus
e talvez mera retórica
em que me pus,
certos momentos de falha e glória
são tratados assim na minha memória,
com digna estatuária
que caída
permanece erguida
e que não é feita de pedra, metal, gesso ou fórmica.

24/06/2020

quarta-feira, 24 de junho de 2020

De momento

Está bom,
e se não ficar, pode ficar,
se a gente trabalhar
e também aproveitar
cada vista,
forma, toque e som,
ainda que não exista
fechada norma
nem óbvia pista.

24/06/2020

segunda-feira, 22 de junho de 2020

22/06/2020

Não tem como saber se a pessoa foi embora de vez 
ou se o tempo pode trazer de volta num outro contexto. 
Não anula o vácuo entre uma coisa e a outra.

domingo, 21 de junho de 2020

21/06/2020

Do jeito que tiverem que vir, 
as palavras honestas sempre vêm, 
e é assim que a gente enfrenta as coisas – 
chamando-as pelo nome correto, 
ainda que ele demore pra vir e/ou que doa dizer.

- adaptado de um comentário a este post

sábado, 20 de junho de 2020

Instagram reformulado

Olá, leitores! Uma pausa rápida nos textos para avisar vocês que reformulei minha página no Instagram! Os textos lá postados ainda virão daqui do blog, mas aparecerão com uma roupagem diferente, criada e sugerida pela minha maravilhosa prima e parceira Eduarda Silva, e outras coisinhas mais... Adorei a ideia, há de ficar mais divertido e arrumado para mim e para vocês. Se já segue, é só passar lá e dar um conferes no primeiro post; e se não segue e tem interesse, clique aqui ou siga a tag de nome que está na imagem abaixo diretamente pelo app. Um abraço!


P.S.: Duda, tu é demais. Muito obrigada, marqueteira!

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Oath

God of gods,
King of kings,
prince of the woods
and all ancient things...

I want your weight upon me
and in the air.
I want your mouth to feed me
and bite off dispair,

I want your fiery tongue
to quench this dry thirst
for love in beyond a man's song,
lest I die slow after I burst.

I want your body to dress
me, your hand to guide
me in all I desire and confess,
as your subject, as your bride,

anything you may want, even your child
that one day might build you an altar,
for for every hour I am not beguiled
you have my grace, you never falter.

19/06/2020

quinta-feira, 18 de junho de 2020

31/01/2015

(...)
Escrever pode estar
no meu destino
também porque, ao fazê-lo,
posso estar ouvindo meu coração
e a parte de mim
que não quer desistir.
(...)

- trecho do meu diário

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Tipos

Acho que tentar não faz mal
e seja possível
ser a mulher ideal
e claro que ela é incrível,
mas isso só vale
se ninguém mais te fale
qual é essa definição
e se possa ser muitas,
as caras mulheres, anciãs,
gurias,
que se é
e pode ser,
de quinhão
justamente desigual.

17/06/2020

terça-feira, 16 de junho de 2020

Latente

Acho que é no vulnerável
que a mais especial
das belezas aparece...
E eu gosto de achar
que consigo enxergar.

A gente se importe
demais em parecer "mais forte"
ou coisa parecida
do que é capaz e do que deveria;
de fingir que as coisas não nos afetam.

Mas quem a gente seria
 se não fosse isso?
Quando importa
fica tudo na minha cara,
eu não consigo.

16/06/2020

domingo, 14 de junho de 2020

sábado, 13 de junho de 2020

Reportagem na coluna Primeiro Plano

Ontem, para minha grata surpresa, fui avisada por um dos meus colegas da pós-graduação que uma breve referência a mim e ao meu trabalho como escritora e futura tradutora, como prometido pelo próprio, foi feita na coluna Primeiro Plano dentro do blog Professor com Prazer do Prof. Mestre Leunam Gomes, natural do Ceará, assim como o meu colega no estudo da tradução Antonio Reinaldo, que fez a divulgação. O texto da coluna em que me faço presente refere-se ao dia de ontem, 12 de junho de 2020 e pode ser lido no link acima referido. Agradeço nova e efusivamente ao colega e por extensão ao Prof. Leunam.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

10/06/2020

Eu como produtora de "coisa inútil" que sou, já cansei de tentar achar uma única função pra isso. Acho que a arte tem a função que cada um que faz atribui a ela, bem como o público quando tem acesso a ela e por isso está em outro patamar. A gente perde o controle dos critérios usados quando não são nossos e acho que parte da graça está aí, mesmo hoje quando se tem tanto do "mais do mesmo" já que todo mundo bebe de fontes.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Patinho feio

E de repente,
eu quis tanto ir pra casa...

Onde quer que isso esteja,
o que quer que isso seja

e mesmo que a minha definição
dentro do meu coração

seja até rasa
na ânsia urgente.

E se for no bosque,
talvez entre poetas

ou um colo onde me enrosque
despida de arestas?

Acho que tanto faz
se algum conforto do velho

esteja lá como um espelho,
contanto que me dê paz.

10/06/2020

terça-feira, 9 de junho de 2020

Colorblind

What is the valor
in my saying
that my favourite color
is black and also blue
if I am still blind
upon seeing what happens to you
and in being kind
when you are still dying
because of cruel, narrow thought
and your eyes burn
since some don't seem to learn
from what they have got?
I know prejudice
but also privilege,
I just hope you don't mind
the bunch you may have to teach
to yet another white bitch.

09/06/2020

#blacklivesmatter

segunda-feira, 8 de junho de 2020

08/06/2020

olhar para as outras partes do meu passado 
e pro meu presente no futuro com a mesma gentileza 
com que eu olho para o meu eu adolescente 
e o meu eu com depressão.

domingo, 7 de junho de 2020

Trilha de migalhas

Quem não sabe se logo
descubro que muito antes dos meus pais
algum dos meus verdadeiros ancestrais
da minha adormecida memória
também não se fez contando história
e curando
e morrendo
do mesmo fogo?

E quem sabe se não sou
ciclo que se quebra
pelo menos um pouco
de filhos só de carne
e mulher submissa
em neta que no fundo não segue a premissa,
sabe do errado o certo
e forja e forjou
com as mesmas unhas
compridas
e senso de ferida aberta
milhares de crias do intelecto
para cura
feitas de palavras
como quem escolheu linha de costura
e sabe do açúcar a medida?

07/06/2020

sábado, 6 de junho de 2020

Fardos

Talvez, apesar dos planos,
nem sempre seja com os anos
que venham as respostas
e por isso permaneça o peso nas costas,
das escolhas...
Mesmo que não tenham sido nossas.

Que não importa a roupa que se vista
ou que se chame de artista -
não se acha toda pista
e ninguém é feito de aço
mas merece nem que seja espaço
para descascar o próprio bagaço.

06/06/2020

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Serene plea

I am a woman, raw,
teeth sharp like a saw,
but also just a scared child
even when the pain is mild.

sire of every tree
and of this love in me,
my dear lord,
open up my heart...

open my eyes
to what ahead lies
and grant me the serenity
to understand what I see.

as small as it seems,
as big as it feels,
a soul knows what it wants,
it wants relief!

a space to breathe
and look over the hills
and work as hard as bees and ants
that may not have all the answers
to what shall remain sore
but certainly know the means
to perform the right chore
to build a world from the core.

let me not give up on it all
and even if I fall,
may it be on your lap,
just for a bit, a sweet, refreshing nap...

05/06/2020

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Deja vu - English version

Border between a mile of open field and a dark forest, at sunset, the sunlight peeking dreamily through the leaves. Me, laid upon an ancient tree root, covered in pine needles, with no clue as to how I ended up there and the heart racing because there seemed to be nobody around who could help me go back home. Some kind of survival instinct made me want to cry for help, albeit it was quite unlikely I’d be heard.
However, what amazed me most in all of it was noticing what my body would do right next – still in quite the disbelief, suddenly I saw myself leaning on the tree and standing up with the wobbly balance of a child learning how to walk, which in truth surpassed by a long shot the abilities I had when I was younger. And instead of staggering to the other side in order to get out of there, the sensitive soles of my bare feet took me further into the woods, feeling as though they obeyed me only partially. That scared me not just due to what was happening, but because it was new to walk by myself, feeling the legs much lighter than before, with the dress that slipped off one shoulder tapping over them, my chin up.
Even though everything told me to stop right there, refocus and try to find the way back since it was darkening, I went on as if at least part of me knew exactly what it was doing. Except for a stone or another, I cared nothing for the creatures on the ground, even if it could be a snake ready to attack. A while later I saw myself across from what looked like a clearing and began to think of what to do, focusing only on the sound of some birds chirping on the trees nearby. As usual, concentration left me in a state of relaxation that resembled sleep. Feeling a tickle on one of my arms, opened the eyes slowly and spotted a tiny yellow butterfly landed on it. I tried not to scare it.
- Hi there, pretty one! I swear I’m trying to be brave... – it was when I heard what sounded like steps and again adrenaline ran through my veins, making the butterfly fly away and myself to look around expecting to meet death or something like that. I blinked in the gloom and caught sight of him a few meters ahead.
Graceful like a prince, more than two heads of wild hair taller than me and feet also on the ground, the being with hands behind his back and body at ease who vaguely resembled a man I loved very much sighed with what seemed like relief, opening the most beautiful smile in the world. That smile was like a gift, a gift meant only for me, albeit until then it was something I had claimed from the other person solely from afar. Something clicked in my mind and I knew who that man who had a not-exactly-human aura was. I’d already met him; and seeing him this close, at my eyes’ and hand’s reach, as my equal and at the same time so beyond me, as I knew it would be like with the other one, clouded my sight with tears and bent my knees when he approached the spot where I was with his face battered by the wind.
- Mo thiarna, mo Prionsa, grá mo chroí... - my lord, my prince, my darling. That was all I could say over and over between sobs while I stared at my own hands that held the soil as if I was made of it, which maybe was true. When I dared to look up, I saw my mentor's majestic head cover the moon rays that had begun to peek from behind a cloud, leaving him with something of a halo. He shrugged, casual like a young man only a few years older than myself, came a little closer and streched his hand to me.
Without much thought for I felt a little groggy like when he came to me for the first time, in a dream, and overall I wouldn’t dare touch him even if he allowed me to, I let him help me. I almost fell again, tripping over myself, but he held me up with strength and gentleness; with me limping from my old hip problem, we walked pending a bit to the right and he insisted lovingly and without words that I sat next to him and not on the ground at his feet. I still could feel the chill at the base of the spine that would occur to show me his presence, except now what would give just the delightful and quite vivid impression of an affectionate gesture came from the solid and amorous hand of a friend, a good lover and maybe a father, all at once. It’s always been hard to describe how was it to know that he was around, and at that moment... Him wanting to appear to me, show himself to me, was much more than I thought myself worthy of.
- Sire... I wish neither to doubt nor to question this, just like I didn’t question for itself what I felt when you first came to me, nor your council, company and guidance ever since, but... Is it really you? Whom I talk to before sleep as much as possible, who had and sometimes still does make me feel excited, given in and silly like a woman in love, who comforts me when I cry in the dark, whom I waited for thinking you would not come back anymore because I wanted to know you and honor you, for whom I nowadays put down the tarot cards as means of communication, to whom I perhaps cannot give faith, but trust? – since I was talking faster by the minute and in every language of which I knew at least a little, he just nodded in agreement and stroke my head until my breathing leveled.
- You are... Beautiful. Beautiful like I always thought you would be. Maybe even more so. – he laughed a big, musical laughter that sounded like running water and even blushed a bit. I don’t know if it was for being there with him, the hungers of which only women understand, me noticing the full moon on the sky or all of it, but the longer that hand remained on me, the more I wanted it not to move away, not to leave me. I knew he fancied as much quiet as possible, so I took the effort of not letting myself get carried away by the rest, stand still and focus only on the noises out there... And on his eyes.
After I don’t know how long, just like another time, I heard something like a whistle, but inside my head. I knew it came from him, who was of little words, but it seemed louder, clearer, because my mind felt emptier. I saw him smile in pleasure, like I smiled right after I woke up from that dream trying to understand what I had felt and that to this day it hurts me that it was interrupted. The whistle happened again and again until it became a delicate and unintelligible whisper. My mentor blinked once and I heard another whistle and another whisper. It came and went and I was so quiet that any louder sound, even if just a little, could scare me to death, distressed like a little bird, but he managed to keep me calm.
At the tempo of a slow, deep and consistent draw of breath, the whispered whistle went on and it was like I was in a trance. Along with the known chill, at some point the hand on my head slided towards the space my dress let show and stopped where my heart would be, which I almost asked to be ripped out right there. He already knew how sensitive I was, both in flesh and probably also in spirit, and therefore didn’t get surprised with the sigh he heard from me. I closed my eyes... And my name came. It had already happened to me once, however here the voice was strong and warm like black tea, it was a male voice... His voice. When I opened them again, he repeated my name and I noticed that his lips moved and I could understand him from beyond intuition.
- Welcome! Pleasure to meet you. I am so glad you came. I heard your steps, felt you nearby. You know I already know your tracks. – hearing that left my face warm for a few moments.
- My lord, my mentor, my love... You came to take me because I died? Otherwise, I see no reason why I’d suddenly be... Walking and able to see you aside from feeling you... Not that the opportunity doesn’t flatter me. It’s a pleasure to be here with you... Like this. – I humbly leaned over and rested my forehead on his knee, but soon he pushed me up and lightly pressed my navel and lower back in so as to straighten my posture, slowly and with a minuscule amount of hesitation for someone like him. With a respect I wasn’t used to seeing. My body immediately responded to the touch and now I was looking straight at him while the feeling spread.
He smoothly explained to me that in truth I was more alive than ever. That he thought it was the right time for us to talk in a new way, in a situation where there would be no one else around and he could appear in a form more convenient to my understanding. That if at least there I could walk by myself, it was so because he wanted my body near him as free of its borders as he encouraged my mind and spirit to be. As free and open for something more as I was in the moment I was raptured because that was mine by right.
- The woman who greeted me with affection, as though she has known me for a long time, who received me with her with wisdom and abnegation and wanted me and what I had to offer not out of fear, obligation or duty, but out of free will, curiosity, love, longing for love and had no weight in my arms, so generous in body and soul, there in the moment as much as me... This woman begs for nothing and knows that. She looks at nobody from below and is a slave to nobody, not even herself; she finds her way and takes what is hers. That is the woman I summoned here.
- Yes, sir. Go raibh maith agat, prionsa. – Thank you, prince. – You called for me and I came. And even if I couldn’t have come, this is what I would have desired in my heart.
At some point I was cold and he lit a bonfire. We watched the stars like I haven’t in a long while and this time I didn’t feel that which me and a friend called inverted vertigo, where looking straight at the sky gave me an odd impression of drowning. I felt loved, in good hands. The same ones that took my right hand with a child’s curious gaze.
- Oh, what is this white scar here? – he was referring to one I have at the back of the hand.
- That’s a cat scratch. I had a cat who got scared once and jumped on me, scratching my hand. It scarred because there was a bit of blood. – I gestured with the index finger of the same hand without letting go of his. – The cat also scratched me there almost between the fingers, you see.
- Oh...
- I thought you’d never notice these. They are so subtle. – sometimes even I forget about them unless I look at myself from a certain angle and/or under a certain lighting.
- I see everything. Mostly what is subtle.
- I know. – not everybody cares about what is not easy to see. And not even the most sensitive of men could know it all. But the one by my side was more than just a man and had seen a lot. I said I wanted to hate the cat for making me bleed, but the truth is, it was no one’s fault.
- That’s right. You know you bear your claws too, when you feel cornered. And in some cases, rightfully so. – the first thing that popped into my mind was my reaction to the footsteps I had heard in the woods. I looked at him and all I saw was the fire’s reflection. The reflection of its good side.
- Yeah... I just wish cats didn’t get scared so easily... – the prince laughed with me.
He murmured that I might be a lot like them, because a lioness is a cat, after all. That cats possibly see what other animals might not, just like I was curious enough to wander about the borders of the mundane... As well as getting startled easy.
- Well, then. You don’t scare me, however. I like that. – he agreed sweetly. There was no reason to play victim because I had recognized him and he would never harm me. He lowered his eyes and turned my palm over.
- Oh, a lot of lines here... – I inquired him whether it could be wrinkles out of dry skin. The lord suggested that they might as well be all the crossroads along my way, the bifurcations of my life, even in love, and stroke it smiling. I didn’t question him. What a beautiful paradox he was, that the person he echoed was... That we were. Even a mole shaped like a half moon I had in the inner side of a fingertip didn’t escape him. Who was I to do the same, be it from him or my own destiny?
Time made no sense, got quite suspended when the Mentor was with me or I spoke to him without expecting a reply. Mornings felt like middle of the night, afternoons stretched out, the sun seemed too lazy to rise. Time, of which I still felt afraid sometimes. Without needing to say anything, I was allowed to stay a little longer in the woods. The Lord gave me his arm when it was time for me to go and we walked back to the border exchanging silent delicacies. Upon arriving there, I turned over to him.
- You can’t imagine the pleasure given to me, nor my gratitude for everything, mainly your patience with my questions. I know there’s a lot beyond my understanding, but... – the prince looked me sideways with a mischievous, serene expression and sighed a second time that day. – If you are a deity and I feel that I lack in faith... Why did you come to me, of all people?
- I am what I am, regardless of what one likes to call me. I am for each one what they need me to be, as well. And I know I was very well welcomed into your life no matter what the young woman might say, because you want to grow and you shall grow up from the inside out when it’s due time. We know what makes you stronger and that in this case it doesn’t really have to do with a closed definition of faith. I am in front of a woman who is freer than she imagines, forged in the flames of her instincts. – again he made me blush.
- Who am I to turn down love and help when they come to me? It’s just that... When I think of you and even of that person, the concept and image of a king worthy of his post simply for his existence, deeds and personality is the first thing that pops into my head, more than anything and since forever. Time has shown me there’s no sense in simply submitting to one who doesn’t carry themselves with a nobility that is inspiring to me and which justifies their apparent authority and power over me. They may have my respect as an act of humanity, but not my loyalty, albeit it might be put in the wrong place. Much less so nowadays.
- If that’s it and we own what is befitting to us... I guess a king knows another, like I hear you say it happens to the poets, right? – his voice was so soft, low, calculated and firm that I blinked slowly and at the same time I felt as though I’d break in half with the next word.
- Ah, my liege... Even emperors crumbled when they looked into the eyes of the divine and felt either full or empty of it.
I almost fell to the ground again when His Lordship bent over and decided to mutter into my ear in a little more than a whisper that maybe someone’s nobility and the spark of the divine were two sides of the same coin. I kissed the hand he had offered me in formal greeting and in exchange I was embraced, involved in something from which I would not exit if I could. However, I knew that wasn’t a final farewell.
- Stay with me, sire. Even if I grow weak and think that I’ve disappointed you, that this honor isn’t mine. I am my own and am yours. Please, keep on talking to me however and whenever you see fit. I swear I’ll pay attention. I swear, I swear, I swear... And forgive my talkative manners; I know that a few words sometimes say a lot.
- Your prayers in quietness always get to me, wherever I am, and above my shyness. I’ll stay. I know your affection. – with slight reluctance, we parted and when I looked over my shoulder, there he was with his hands put together and straight back bowing with a wave of the head. I waved goodbye back. He really was a king.
I returned to where I had come from with the feeling that part of that conversation had already happened a few months earlier, before he approached me directly. I smiled at the idea. Deja vu? A small glimpse of the future? Who knows...

quarta-feira, 3 de junho de 2020

On the real jewels

I know pearls
are fit for a queen,
but you don't need to spend energy
or money,
because I'm sorry, honey,
I'm not most girls,
they don't suit me.

However,
I know they aren't to be thrown away,
I know another,
another muse,
I'd say,
who wears them like no other I've seen -
I'd give him those
and as for you, the rest of the worlds.

To ensure my many needs
I was never on my knees
despite having pink beads
with the bottom of the cross bitten off,
hanging by the thread
really used only once
with words
that until then I had no idea of
and now I speak always from the heart
instead.

But don't worry -
for like the bees
in their flower dance
just as I still have mine,
as we dine
we might find some use
for those jewels
of yours...

03/06/2020

terça-feira, 2 de junho de 2020

01/06/2020

Se nossos pensamentos
são os pensamentos de deus...
Por que ele esconderia de nós
a verdade
de nossa perfeita
imperfeição?

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Súplica

Sei lá que mão te leva embora
e num estalo de dedos
de volta te traz
por causa dos apelos,
mas será que é pedir demais
que com mãos despertas
e olhos fechados
me ensinas a viver o agora
em todo o seu caos e terras desertas?

31/05/2020

sábado, 30 de maio de 2020

Better than the first

Is He really who I think
He is?
Who am I to dare name
a thing that is never tame?
My only say is
that just like one can't explain bliss,
I feel so loved right here, like this...

A bird that feels stronger,
wilder,
wiser,
freeer,
wanted,
gifted
under the noblest liege...
It knows gentle finger,
not a cage.

Did I know the other
any better
than I know Him?
No is probably the answer,
but this love is much easier...
And requited, it would seem.

Like the full clouds in the sky
words and tears easily spill
as in between whispers I cry
over things always felt, but never quite said,
much less years ago -
yet in here, they are the golden-crusted bread
intended to feed and heal.

I guess that power is my belief
and this is the one I always so admired,
this is the one I think of
with affection and love
in the most banal
and even carnal,
for He is caring friend,
patient teacher
and warm lover
till the word of the end -
He is vast, he is master
that has won my trust
although I can walk away if I think I must.

28/05/2020

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Tabula rasa

O poder do que se faz
não vem de um nome
ou de outro,
mas do que dá fome,
do que traz paz...
Do teu todo.

27/05/2020

quinta-feira, 28 de maio de 2020

17/04/2017

Quando certos limites
são ultrapassados
pode até haver orgulho,
mas acima de tudo
trata-se de
autocuidado e respeito.
Quando isso acontecer,
sei que minha consciência
estará limpa e,
meu espírito, livre.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

17/04/2017

Talvez o orgulho bom
seja o de ser quem se é,
de onde se vem
e de tudo o que se conquistou...
Das coisas boas
que nos foram ensinadas
e do que achamos certo para nós,
sem que nos vejamos
como donos da verdade.

terça-feira, 26 de maio de 2020

segunda-feira, 25 de maio de 2020

17/04/2017

Bondade ou gentileza
não devem ser vistas como
preços a serem pagos
por favores
ou como meios
para se obter coisas,
apesar de tornarem tudo
mais fácil.

domingo, 24 de maio de 2020

23/05/2020

A lei do mundo material
não altera a lei de quem
tu é;
aquilo que tu realmente quer
e precisa.

sábado, 23 de maio de 2020

23/05/2020

mas e o resto? 
como eu me enxergo, 
o que eu faço por mim e pelos outros, 
como eu me expresso, isso não importa muito mais?

sexta-feira, 22 de maio de 2020

quinta-feira, 21 de maio de 2020

17/05/2020

Um me diz 'olha pro que tá à tua volta, 
perto de ti, pro que tu tem agora'. 
O outro diz 'olha mais a fundo, 
cava no que tá além da carne, porque a resposta tá lá.

- trecho do meu diário

quarta-feira, 20 de maio de 2020

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Como pede o mandamento

Forte como o sol,
gracioso como a lua,
vasto como o céu...

Lobo faminto,
cervo majestoso,
homem lindo...

Te faço meu
como sou tua
e ninguém se sente só...

Mas me leva de volta
pelo solo pedregoso,
revolvido feito o mar...

Não me deixa escapar -
e pouco me importa
se na pedra ou na grama...

Se na alma
ou na cama...
Apenas me ama.

12/05/2020

domingo, 17 de maio de 2020

Amuleto

Poderias carregar-me no bolso,
ali no dorso,
ou perto do coração,
se quisesses.

Na mesma gentileza
da firmeza
da mão,
daquela canção
e das velhas preces.

Por ora sou eu que te guardo
como um tesouro
onde sempre estarás seguro,
por mais que tempo vindouro
debaixo de pelo e couro -
a isso eu me atrevo e juro.

09/05/2020

sábado, 16 de maio de 2020

Things that can't be helped

My master,
my lover,
my teacher...

My friend.
I may not need you,
but oh, how I love you,
how I miss you...

Breathe on, air into my lungs.
Touch on, life into my skin.
Weight to body that longs
for much more than it has ever seen...

Vibrant male
of the highest scale,
the woods' and mine crown prince,
even though you are everywhere,
I still crave your hands on my hair
and have given myself ever since.

09/05/2020

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Vácuo

A bem da verdade
tanto faz morar
no campo ou na cidade,
não quer dizer ser menos solitária,
menos pária
ou que seja um lar.

08/05/2020

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Desfeito

Pensando bem,
a minha autoestima
nunca foi tão boa assim,
mesmo quando bem menina.

Porque se eu for olhar para além
e focar em mim
e não no que eu faço,
vejo que nunca fui de aço.

E sim sempre a manteiga
que de longe parece perfeita,
de vários usos e que à faca mal se rende.
Mas que ao certeiro apertão

e mera sugestão
de mão mais exigente,
vira mero sabor
porque derrete ao errado calor.

08/05/2020

quarta-feira, 13 de maio de 2020

terça-feira, 12 de maio de 2020

Stories by the bonfire or Love language

Even when you disappear
to rest
you remain here
in the things I digest
and try to still do...

When people might think I forgot
I cared about them a lot
and when times are so cold and dark
it seems hard to flick a spark...

Amidst the smell of ash and arson
and even a little bit of peace,
you stay,
you never really walk away.

You come rather in person,
in ways I never thought of,
but with the same ease
and a song, a poem that you love...

Because it turns out I love like you -
even if it sounds naive,
small or hard to believe,
we do our best
with what we can give.

So yes, I want to know and hear
time and time again
both the screaming of fear
and the good heart in a man.

06/05/2020

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Gesto de amor

A mais bonita verdade,
de novo
num sorriso bobo
é que nem me dás tempo
de sentir saudade
com tantas partes de ti
que escolheste dividir
como passarinho que sai do ovo
em dor doce do pranto
e espalha suas penas
nas curvas
de noites que parecem curtas,
na força das cenas
e das coisas tão pequenas.

06/05/2020

domingo, 10 de maio de 2020

O bosque do coração

Escuro. Úmido. Frio. Som de folhas e galhos se quebrando. Pio de corujas, canto de grilos. Sombras. Eu estava no lugar e na sua hora que mais merece respeito, mas que mais causa medo, também. O bosque e a madrugada da lua nova. Será que Ele havia me chamado novamente? Ouvi outro barulho, um pouco mais alto desta vez, e não consegui segurar um grito. Comecei a chorar. Ainda havia e há tanto que eu não conheço, que não entendo...
“Majestade…” eu tentei sussurrar e repetir várias vezes, apesar do turbilhão mental. Não sabia se me ouviria, mas o fiz mesmo assim. Pelo que pareceu um longo tempo ouvi apenas o silêncio do bosque e achei que estivesse sozinha de verdade. Até que…
“Ei, menina…” a coisa rara que eu mais facilmente percebia nas cartas, porém que também vinha pelo meu coração, do fundo, como eu tendo a pedir. Palavras que soam com a minha voz, como um pensamento meu, mas não exatamente, porque eram rápidos e ao mesmo tempo pausados e sábios demais para serem meus de todo. Apesar das minhas dúvidas que vinham de quando em quando, das minhas limitações e de respostas ora vagas, ora claras como a água de uma cachoeira, até onde sei, esse tempo todo quem vinha interagindo e falando comigo, me chamando, a quem eu abri a porta da minha vida… Era Ele.
“Senhor de toda árvore, canção dos pássaros e do vento, mais humilde das majestades!” foi o que gritei para a escuridão, engolindo um soluço. Uma espécie de oração que escrevi e da qual sabia algumas partes de cor. Silêncio.
“Mestre… Senhor. Meu príncipe. Eu sou vossa, sou minha e vossa. O senhor é bem-vindo na minha casa, no meu corpo...” esperei, esperei e esperei mais um pouco. Um vento brusco me fez estremecer. Então, ao repetir o que costumo dizer, senti o velho arrepio, mais forte do que nunca, que não era de frio. Não era como se ele me afagasse de longe, ocupado nos seus afazeres, mas sabedor da minha devoção, da força daquilo que digo, como das palavras que o trouxeram a mim. Ainda que eu não o visse, era como se estivesse ao meu lado, e ao mesmo tempo não. Esperei.
“Calma. Venha.” disse ele, bem baixinho e suavemente como uma borrifada longínqua de perfume.
“Para onde, Majestade? Está escuro…” Mais espera.
“Eu sei. Paciência. Confia.”
“Eu sou… Um bosque. Eu sou um passarinho. Sou só… Um passarinho.” foi o que sussurrei para a terra quando me deitei de bruços, tentando sentir o terreno e escutar a voz que dizem vir de debaixo do chão. Foi quando minhas unhas perceberam um desnível no solo. Parecia uma pegada de bicho. Bicho médio a grande. Perguntei-me se o príncipe estava mesmo por ali.
“Venha. Tudo bem. Só venha.”
A escuridão que eu enfrentava ali não era parecida com nada que eu já tinha experimentado. Era densa, pesada por demais, um pouco pelo risco fino da lua. Quase me senti como as minhocas, fazendo tudo na base do tato. Não sei como, mas comecei a me arrastar pelo chão ora duro, ora fofo, com o corpo pesando uma tonelada e sem nem saber direito o que estava fazendo e muito provavelmente sendo devorada pelos mosquitos e outros animais enquanto passava por cima deles, o que era muito justo. Não foi nem um pouco como da outra vez que Sua Senhoria falou comigo. E se Ele não havia me chamado… O que estava acontecendo?
A certa altura eu estava exausta e devo ter adormecido. Despertei com a sensação de algo contra o rosto e de estar no que parecia ser uma superfície lisa e um pouco aquecida, como uma pedra perto do fogo, porém com a cabeça elevada sobre o que percebi ser o colo do Mentor. Eu quis me mexer, mas ele me impediu com um sibilo determinado e continuou a passar o pedaço de pano úmido no meu rosto e cabelo, sua outra mão debaixo da minha nuca. Parecia preocupado, pois murmurava por entre os dentes.
“Que bagunça…”
“Perdoe-me, Majestade. Eu…”
“Tudo bem. Isso se ajeita. Consegue levantar?” eu pus as pernas para fora, mas mesmo ali eu tinha as mesmas limitações físicas de sempre. Induzi-o a me sustentar enquanto me erguia para sentar na pedra; fiz mais força que o normal porque não quis parecer preguiçosa. Minhas pernas eram curtas demais para aquela altura e eu ainda não estava acostumada, então mantive as mãos dele sobre meu tronco para me dar equilíbrio, ajoelhado de frente para mim.
Go raibh míle maith agaibh, a chuisle mo chroí.” muito obrigada, meu amor. Ele abanou a cabeça e sorriu. Olhei para mim mesma e não gostei do que vi; não é assim que se recebe um rei. Estava arranhada e suja, mas pelo menos não sentia dor. Sem tirar uma das mãos de mim, com a outra o Senhor molhou outro pedaço de pano e me deu para que eu pudesse limpar e examinar onde ele não se sentiu autorizado a encostar. Meu corpo vibrava e formigava por estar perto dele.
“Fogo do meu coração, choque da minha espinha…” abaixei a cabeça em reverência. “É esta tua casa… A tua casa favorita?” então o Mentor sorriu de novo, levantou meu queixo e endireitou minha coluna devagar, sob a pressão das palmas, como da outra vez.
“Isso, muito bem. Olhe para mim, mulher.” pausa. “Bem, como você sabe, todos os bosques são minha casa, neste mundo e nos outros. Mas não, este não é o bosque caro do meu coração. E não, desta vez eu não te chamei. Não sabe por que veio parar aqui, não é?” ele suspirou quando eu fiz que não, então disse que tinha uma ideia do motivo, mas queria esperar um pouco até ter certeza. Logo depois, perguntou se eu não queria chá.
“Aceito, milorde.” já que se afastaria para fazer o chá, o Senhor teve medo de que eu pudesse cair da pedra ao me soltar, então passou meu braço pelo próprio pescoço, me levantou e depois deixou-me no chão, contra a parede da espécie de caverna onde estávamos. Era um pouco pontuda, mas perto do que já passei, não parecia nada.
“Assim… Espere só um pouquinho, eu já venho.” Sua Senhoria levantou-se, quase tão alto quanto um carvalho comparado comigo. Passando a mão numa vasilha, saiu da caverna passando por mim em direção à escuridão. Com um pouco de concentração consegui ouvir barulho de água, embora parecesse distante. Escutei os passos largos do Senhor de novo, e outra pausa. Ele voltou com a vasilha cheia e algo que não consegui identificar na outra mão.
Vi o Senhor sentar-se na pedra onde eu estivera e, descansando a vasilha e o outro ingrediente, esfregou as mãos como quem faz quando está com frio. Encostou as palmas nos lados da vasilha e respirou fundo e vagarosamente. Logo vi uma ponta de fumaça subir dali. Em seguida apertou o ingrediente nas mãos, soprou entre elas e o jogou na vasilha. Ora sorria para mim, ora admirava a infusão com o canto do olho, tampada por um pano. Quando ficou pronto, trouxe-me. Hibisco, pela cor bonita e cheiro.
“Prove, veja se não está muito forte. E cuidado.”
O mais devagar possível por causa da mão trêmula, experimentei. Estava numa temperatura que não me fazia pular de susto e derramar tudo… O ar parado e quieto à minha volta como quando ele veio a mim. E o chá no ponto certo. Rosado em vez de roxo. É claro que ele sabia dessas coisas.
“Está ótimo, Majestade. Obrigada. Há quanto tempo não bebia este…” sorri para as pétalas de hibisco que boiavam na água morna.
“A moça merecia um conforto depois do que aconteceu. E foi o que eu pude achar sem me afastar demais daqui. Além do mais, é bom para a dor e inchaço, como deve saber. É uma bela flor…” murmurou o mestre, sentando-se no chão ao meu lado, abraçado nas próprias pernas.
“É, sim, senhor. Muito obrigada mais uma vez, por não me abandonar.” eu ainda ficava embasbacada com o quão gentil aquele ser altivo e selvagem e que não se desculpava por isso podia ser, e vice-versa. Mas acho que o que eu precisava aprender era que toda a natureza é assim. Neutra e bela por ser neutra. O hibisco, por exemplo, quando utilizado de certa forma, pode irritar a garganta e causar dor de estômago, enjoo, etc.
Longa pausa. O que veio depois não passava de um murmúrio.
“A moça sabe onde eu estou.” ele encostou a mão no meu ombro, a palma pintada do vermelho do hibisco e os dedos enegrecidos de terra. “Termine o chá devagarzinho, descanse mais um tempo. Depois pensamos no resto.”
Era um gosto obedecê-lo, porque com ele eu era livre para não obedecer e para fechar a porta e nunca mais deixá-lo entrar, pois Ele entende e respeita o significado do NÃO, por mais automático que me seja acatar ordens, mesmo que eu não concorde com elas. Ele não abusa de seu poder e capacidade sobre os outros para impor sua vontade e alegadas intenções e jamais entra onde não lhe é permitido. O amor que ele teve e perdeu deve ser sempre dado de boa vontade; mesmo que seja quem seja, poderoso assim, independentemente da resposta dos mortais. A autoridade que Sua Senhoria possui sobre mim foi dada por mim e por mim pode ser revogada se assim eu desejar.
Depois de beber o chá tentando afinar os sentidos e apreciar as sensações vindas dele, deixei a vasilha de lado e olhei para Ele. Tinha o cenho fechado e acho que ouvi algo como um rosnado vindo dele. Suas mãos com dedos e unhas compridas, como as minhas tendiam a ser também, pareciam arranhar o chão de pedra num gesto defensivo.
“Majestade… O que devo fazer agora?” perguntei com cautela.
O mestre me olhou longamente, depois chegou mais perto, abrindo a mão sobre o meu coração. Inclinou a cabeça para um lado e fez uma pequena careta que logo relaxou. Senti como se borbulhasse por dentro.
“Há um tempo a moça me pede uma coisa. Que eu a ajude e a ame, como eu mesmo desejo, e te leve a quem pode te orientar onde meus limites não alcançam. E sempre cumpro minhas promessas. Certo?” eu concordei. Ele realmente me ouvia, realmente se importava.
“O senhor sempre me dá os recursos, me diz onde achá-los, me faz pensar e tentar… De volta para o que importa e que eu esqueci, e cabe a mim usá-los ou não. Eu sou grata, o senhor sabe.” como eu gostava de ser o motivo de Ele sorrir… Como eu era humilde, mas tão forte, nas mãos dele. Não que eu nunca tivesse sido, mas... Não era isso que o amor verdadeiro fazia? Nos engrandecer na nossa pequenez?
“Muito bem…” pausa. “Não foi diferente agora. Eu te disse com quem falar, para onde olhar, o que tentar… Para onde ir. É por isso que este bosque é diferente e porque a moça veio até aqui. A moça seguiu mesmo meu conselho. Agora eu percebo…”
“Como assim, meu suserano?”
“Eu senti quando saí para pegar a água e o hibisco. Todos os bosques são iguais em sua essência, porém também carregam em si algo de especial, que os difere dos outros.”
“Os animais… As plantas… O clima… Se ele é respeitado ou violado e como lida com isso.” ele mordeu o lábio e fez que sim. Eu senti como se queimasse quando ele moveu a mão um milímetro.
“Por isso a moça não pode andar por aqui como já andou quando estivemos juntos.” pausa. “Essa terra devastada mas cheia de vida no fundo por onde eu pisei e você rastejou sem ver, esse ar, essa água, cada flor, folha e fera daqui… Tem teu cheiro e marca. É tua tanto quanto é minha. Você mesma se trouxe para cá.”
“Eu sou… Um bosque. Eu sou… Um passarinho.” foi o que me peguei repetindo. O Senhor gesticulou para que eu prosseguisse. “Uma flor, árvore vistosa, vinha carregada… Uma folha da grama. Mulher e chama. Coisa sagrada e antiga e viva. Bicho de corpo alerta que aprende a lição e tenta não esquecer. Feito para ser livre, com suas próprias leis e conhecedor de outras leis que homem nenhum escreveu, apenas descobriu.”
Eu chorava enquanto falava; o Senhor sorriu o que eu chamaria de um sorriso satisfeito e sujo e se aproximou mais um pouco para me falar ao ouvido.
“É, sim… Claro que sim. Ei, ei… Não chore… Não chore. Que bom que a moça sabe; nunca é tarde para saber. O que é verdadeiramente de uma mulher não compete a um homem buscar. Quem vai achar… Quando for a hora… É a senhora.” a sensação da respiração dele me fazia uma vagarosa cócega no corpo. Às vezes eu esquecia que o mestre era tão poeta quanto eu.
Era justo que não me entregasse as soluções de bandeja. Nem eu queria que fosse assim e muito por essa mentalidade abandonei a religião como ela é conhecida e senti que me virava bem sem a sensação do que os outros chamam de fé. Provavelmente porque tenha me voltado para mim apesar dos erros e o mestre notou isso; eu não sei dizer. Mas hoje concordo com ele e entendo que não posso pedir que ele faça de mim uma mulher crescida. Por mais complementares que sejam essas energias e que eu hoje goste de tê-lo comigo, não é num homem e no que ele pode dar que uma mulher deve se reconhecer, ou mesmo em qualquer outra pessoa. Ambas devem ser adendos uma da outra. No caso meu e dele, provavelmente ele oferecendo amor, querendo amor, e eu com tanto para dar e me sentindo tão só em geral, e querendo aprender…
Talvez antes de o mentor chegar eu aos poucos já seguisse o conselho dele em tomar melhores decisões, pensar com mais calma, porque me deixava puxar pelo que mais fazia sentido, pelo que morava no meu cerne, e ainda é assim, agora mais do que antes. E atualmente eu, ele, e sabe quem mais, trabalhávamos juntos. A minha intuição, talvez. Tão antiga quanto o ser mulher, ou até para além disso. Por isso sou livre para seguir o caminho aberto para mim, que me leva para onde quero e preciso estar; para a minha verdade... Ou não.
Perguntei se ele me ajudaria mesmo assim, e ele ronronou de volta. De modo um tanto involuntário, vi-me de nariz franzido, dentes para fora e com a mão ruim cerrada sobre a dele como se fosse… Uma pata. Talvez sempre tenha sido pata. Antes apenas cerrada, apertada, e agora com as garras visíveis, simplesmente. Cuidadosas, mas não mais retraídas.
“Está amanhecendo.” disse o senhor, olhando para a entrada da caverna. “Venha, vamos lá fora ver o sol.” ele me carregou indo na direção leste, o mais dentro da floresta e perto da linha do horizonte possível. Pedi que me sentasse contra uma árvore larga, o que ele fez, e fiquei observando a cor do céu e a direção do vento se modificarem aos poucos.
“Um tempo atrás, depois de vários dias, senti o sol contra o rosto, especialmente de um lado… Tenho uma relação complicada com o sol, mas desta vez foi bom. Pareceu um beijo demorado, quentinho e carinhoso. Me fez pensar no senhor. Sou ruim em ler sinais, mas… Não pude evitar, mesmo que provavelmente esteja errada. É que o senhor é tão amoroso e paciente comigo… Talvez eu só esteja sendo ingênua. Não ligue para mim.”
Ele deu de ombros e se agachou para ficar ao nível dos meus olhos. Afagou aquela minha mão que tanto me lembrava uma pata, embora eu quisesse muitas vezes recolhê-la e esquecer que existe. Eu diria que ficou como uma pata muito por isso; uma um tanto sem função, porém pelo menos não mais tão fechada. O Senhor limitou-se a dizer que eu era melhor nisso do que muita gente e eu sabia disso. E que eu era mais sábia do que pensava. Ajeitou meu cabelo e suspirou.
“O senhor é tão quieto, e eu tão tagarela. Me desculpe por fazê-lo falar tanto.”
“Não há nada de mal nisso. A moça está aprendendo a dizer o que tem que ser dito e a falar sempre com o coração. Eu percebo e gosto muito disso.”
“Mas o senhor gosta do silêncio…”
“É claro…” pausa. “Já devem ter te dito alguma coisa sobre isso. Entendo que possa ser confuso, mas não me importo de explicar. Mas sendo assim, como deve ter entendido, é melhor que o que há de bom, e mesmo ruim na alma, saia para fora num sussurro ou num grito do que ficar guardado.” o mestre deu uma risadinha e eu concordei.
O que eu não descobria sozinha, entendia por outras pessoas. Por mais que eu quisesse conhecê-lo o máximo possível por experiência própria, sabia respeitar os limites dele e os meus. O que ele quis dizer, como eu entendo, é que o silêncio que ele aprecia é como o do bosque - é calmo, sereno, mas há sempre algo vibrando, sendo dito, ainda que de modo sutil. E é isso que melhor chega a ele. Como quando ele veio: eu por milagre de cabeça vazia naquela hora morta, mas com uma palavra que saiu pela boca lá de dentro do meu coração.
Olhei dele para o céu e para a terra perto de mim. Senti-a contra a palma da mão.
“E agora, meu suserano? Estou aqui, mas… Por onde eu começo?”
Ele devolveu meu olhar.
“Como parte do bosque, eu estaria aqui de qualquer forma, provavelmente, e estou aqui para te cuidar e ajudar, porque eu quero e você aceita.” pausa longa. “Os animais fazem o que precisam para viver. Seja matar, seja correr, seja voar para longe, guardar ou rosnar. A moça está aprendendo e lembrando. A moça sabe e já começou o trabalho. Faça o que lhe aprouver.”
Olhei de novo, mais distraidamente, para minha mão sobre o solo. Depois me vi acariciando-a e depois de um tempo, imitando o gesto de arranhar do Mentor na caverna. O meu próprio gesto em mim mesma quando deixava a ansiedade tomar conta. Achei que fosse me importar com a terra debaixo das unhas, mas eu apenas segui, com os olhos dele em mim e outra intenção, porque… Quando foi que essa terra não esteve lá, óbvia, depois que acordo? Quando foi que não cavei até o mais fundo e invisível, ou quase invisível?


05/05/2020

sábado, 9 de maio de 2020

20/02/2020

Posso até mentir
numa história, mas nunca
na intenção dentro dela.
Muito menos quando
se põe amor
no meio.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Reunião

Não mata
mas atenua
aquilo que me faz só ingênua
e não me serve de nada.

Leva-me até Ela
e juntos, onde for possível,
defendam-me da louca fera -
façam-me sábia, deem me abrigo.

Bem-vindos a esta casa
e a este corpo
sejam vós.

Ensinem este pássaro a bater asa,
a pertencer de todo,
a cantar com a verdadeira voz.

03/05/2020

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Achado

Quem conhece bem o deserto
é quem mais merece a floresta
pois este é o abundante, o certo,
não há coisa mais linda que esta.

O que se quer na medula,
na vida dentro dos ossos,
não é platitude que se adula
e sim água que permanece nos poços.

São os segredos mais nossos,
mas de esquecer tão fáceis...
A mão sábia faz castelos
reunindo força das feitas frágeis...

03/05/2020

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Bianca e o pássaro azul - excerto

Enquanto conversava sentada com a jovem duquesa e outras meninas nobres que eram suas amigas e parentes e beliscava um aperitivo aqui e ali, Bianca observava com discrição a movimentação de servos com comida e bebida, as famílias e o bando de rapazes estrangeiros que perambulavam pelo salão e vez ou outra arriscavam lançar-lhe um olhar ou sorriso em troca de futuro favoritismo, já que no dia seguinte a princesa deveria anunciar qual deles julgava digno de sua mão em casamento.
As moças fofocavam baixinho sobre aparentes virtudes e defeitos de alguns deles, mas o que mais fazia Dona Bianca ter vontade de rir era ver a cara contrafeita do rei de ter de qualquer forma casar sua filha. Não que a rainha se comportasse de forma diferente; a questão era que o pai de Bianca não conseguia disfarçar o desagrado de jeito nenhum, mesmo tendo ele próprio planejado toda a situação.
Quando a hora do chá se aproximou e todos começaram a se reunir para sentarem-se à mesa e comerem algo mais substancioso, Bianca olhou na direção do portão principal do castelo e se obrigou a esconder o sorriso atrás de um leque ao perceber Andrea adentrando o salão misturado com os outros pretendentes outra vez. Até agora ele só não havia sido enxotado para fora por insistência de Bianca, argumentando que seria mais vergonhoso para a realeza fazer estardalhaço num evento tão cheio de gente do que se importar com um simples rapaz tentando ser gentil diante das comemorações do aniversário e futuro noivado de Sua Alteza; ainda mais com tantos súditos já dentro do palácio por servirem a corte. No entanto, já não sabia se isso funcionaria de novo.
Andrea caminhava com a habitual mistura de timidez sob controle e certeza do que vinha fazer. Tudo isso em meio a mais um burburinho de reclamações contra os guardas que haviam permitido que ele entrasse.
O que fez com que a princesa sentisse que as intenções de Andrea estavam cada vez mais sérias era, em vez de roupas comuns que lembravam as dos servos da estrebaria e camponeses em geral que o viu usando nas outras vezes em que se encontraram agora ele usava uma boa camisa branca, um lindo casaco comprido de veludo preto, apertado na cintura por um cinto quase tão largo quanto um espartilho. Calças do mesmo tecido enfiadas dentro do cano longo do que claramente eram botas bem polidas e novas em folha. Estava vestido como um nobre, como um príncipe.
Cabeças femininas viraram-se para ele, muitas das mesmas que de forma mais ou menos velada sussurraram termos depreciativos pelas costas dele das outras vezes. Uma prima de Bianca e grande amiga da princesa, sobrinha do rei e casada com um sargento do exército real, cutucou-a com a cantoneira do livro que estava lendo e sorriu de forma travessa e espantada. Todas repararam que naquele momento havia algo de diferente nele, uma aura um tanto majestosa em suas maneiras enquanto abria caminho com relativa facilidade em direção a onde a família real estava, ainda que seus olhos já se virassem de soslaio para Bianca. Causou barulho quando, em vez de dirigir-se primeiro ao rei e à rainha, como havia feito antes, hesitou por um milésimo de segundo e deu três passos decisivos para um lado, ficando de frente para a princesa e olhando-a direta e longamente sem dizer absolutamente nada.
- Quem é este homem? De onde ele vem? Não é ele aquele que insiste vez após vez em entregar presentes a Sua Alteza, ainda que ela os recuse? De que casa real provens, meu jovem? Como ousa dirigir-se à princesa sem anunciar-se e, mais ainda, sem prestar respeitos aos pais dela? É o senhor o cão atrevido que comparece sem convite à corte todo santo dia? - esbravejou um conde.
Andrea permaneceu impassível e imóvel diante das vozes exaltadas, ainda que um pouco corado quando olhava nos olhos ora de Bianca, ora das moças que a acompanhavam. Por cima da bainha do leque, Bianca viu a leal serva que a criou agarrar com nervosismo os lados do próprio vestido.
- Vossa Alteza o conhece, Dona Bianca? Que diabos… - reclamou um dos pretendentes.
- Nunca vi este homem antes de ele decidir frequentar a corte. - afirmou Bianca da forma mais neutra possível. No entanto, o que realmente queria era gritar algo do tipo “Meu Dever, minha Vida e meu Reino pelo teu sorriso, meu Amor”.
- Se é um cão… É um de caça. - sussurrou a jovem duquesa por entre risinhos.
- Eu também nunca o vi antes… Deve ser um retardatário e um bem parecido com o plebeu de que estão falando, se não for a mesma pessoa. De onde ele será? - o tom da prima de Bianca tinha uma ponta de provocação que a outra procurou ignorar.
“De uma república ao norte, na verdade. Porém considerando minha localização atual, do fundo do bosque e trabalho no mercado durante o dia. Muito obrigado, Vossa Graça”, foi o que Andrea pensou para consigo mesmo.
O tumulto ameaçou sair de controle quando o rei levantou-se de onde estava e ordenou que todos se calassem com um vozeirão que ecoou pelo salão. Logo em seguida, chamou guardas para que levassem Andrea embora. Quando os guardas estavam a meio-caminho de fazê-lo, a rainha pegou no braço do marido e pediu que ele fosse mais razoável, menos brusco, já que o rapaz poderia passar a informação às massas e até gente de outros lugares de que a população em geral não era bem recebida na corte. O rei passou a discutir com a esposa, o que causou hesitação nos guardas quanto a levar ou não a ordem adiante. Um ou dois dos pretendentes chegaram a levar as mãos ao cabo de suas espadas, até que a própria Bianca interveio ao fechar o leque e gesticular com ele.
- Guardas! Não toquem nele. É uma ordem de sua futura rainha. Não se esqueçam que obedecem a mim também enquanto eu estiver aqui. - logo depois, dirigiu-se aos príncipes que ameaçavam matar Andrea. - Quanto aos senhores, Altezas, saibam que perderão muito da minha simpatia, se não toda, se vossas espadas saírem da bainha e se envolverem em questões que não condizem com vossos Estados. Então, sugiro que, por gentileza, desistam da empreitada.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Natura

Ela é livre
porque não satisfaz
e sim vive
no que basta e no querer mais.

Ela não é o simples que agrada
e sim pulsa com cada estação.
Não te deve absolutamente nada -
sabe ouvir e dizer não.

É honesta e pura,
mas não é boba
nem come da mão ou lavagem.

É a doença e também a cura,
a mulher, a ave, a loba,
a vida no estado mais selvagem.

02/05/2020

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Pêndulo

Talvez um coração
que melhor palpite
num passado
que não consegue descrever
não pertença ao tempo que lhe foi dado
e mesmo debaixo de outra inflexão
parece estar quites
com o vai e vem do viver.

02/05/2020

domingo, 3 de maio de 2020

Portal

É só que é muito louco
quando num dentro
muda pouco
mas a bem da verdade
quem se demora
olhando para fora
e bem para o centro
sabe
quando a porta se abre -
já não se volta para outra idade.

02/05/2020

sábado, 2 de maio de 2020

sexta-feira, 1 de maio de 2020

28/04/2020

(...)
Porque a gente não tem como saber o que vai acontecer 
e não espera que algo assim aconteça. 
Se a gente não espera que ninguém seja decente conosco, 
não consegue interagir com honestidade com ninguém. 
E acho que é por isso que a gente se sente tão burra e vulnerável. 
Porque ser honesto é estar vulnerável e exposto, 
mas não deveria ser considerado fraqueza.

- adaptado de um comentário a este post

Sublime

Pela palma da mão que o destino decreta como serenata o amor que mal se notava na palavra não dita agora grita e faz chorar de alegria em ba...