sábado, 25 de julho de 2026

Quem é importante nunca morre e sim permanece no inesperado

 Me incluo entre aqueles que acham que as pessoas que mais amamos permanecem conosco de alguma forma depois da morte. Que alguém só desaparece quando é lembrado pela última vez, ou quando o último rastro deixado por essa pessoa finalmente desaparece.

Sou desses que de vez em quando ainda fala no clichê de que quem se vai se mantém vivo nas memórias e nos sentimentos. Mas vou além. Quem se vai permanece de formas sutis, nas quais a gente muitas vezes nem repara.

Eles permanecem nas unhas longas que nos caem melhor. Nos cabelos grossos. Nos óculos de grau com campo de visão maior. Nos olhos grandes e escuros. Nas duas palavras que de vez em quando ecoam na nossa cabeça. Nos trilhos de um trem. Em paredes de madeira. Naquela outra pessoa que nunca nos abandonou e nunca deixou de ter orgulho de nós. No mesmo ofício com instrumento diferente.

Eles permanecem na casa que no fundo sempre vai ser nossa. No vinho bom, na mariola e no pedaço de pudim. Na caligrafia que o tempo não comeu. Numa caixinha de madeira. No nosso olho apurado para o que de bonito, duradouro e gostoso a vida tem a oferecer. Numa caminhonete bege estacionada na rua. No jeito de fazer as coisas que se reconhece de longe. No privilégio de ser quem tem memórias dessas pessoas para contar.

Eles permanecem na verdade que uma hora acabou aparecendo. Na lembrança que não se tem e que se torna vazio consciente por um momento, mas que sempre existiu. No nome que não era só um nome. No fardo de viver certas coisas completamente sozinhos. No peso das expectativas e dos silêncios. Na nossa ânsia por algo mais e na nossa vocação. Na nossa sensação de incompletude que tentamos preencher do jeito errado.

Eles vivem nas promessas que a gente nem sabia que fez. Eles às vezes são mais importantes do que a gente imaginava… E não só porque nos damos conta do amor que carregamos por eles. Mas também porque, de um jeito ou outro, é por causa deles que ainda estamos aqui e somos quem somos.

25/07/2026 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Ser diferente é nomal, mas ah, como dói...

 Dói cada vez mais se dar conta de que aquela sensação repentina de infância de “preciso ir embora daqui” não era ilusão de uma criança com raiva. Dói a consciência de se ver preso numa gaiola de paredes e medos que não são seus e não saber para onde ir. Dói se ver operando numa frequência completamente diferente das pessoas mais próximas e não conseguir se desprender delas.

Dói sentir a ânsia visceral por amor e saber que tornar a solidão em solitude é o que constrói as relações mais saudáveis. Dói perceber que por mais que a gente se cobre e que a vida externa nos cobre, cada um tem um relógio muito específico dentro de si. Dói passar uma vida sem saber quem são seus verdadeiros amigos. Dói entender que durante anos se fugiu do próprio caminho.

Dói lembrar do que nos prometeram e não se cumpriu. Dói ter chegado perto do que se queria só para que aquilo se mostrasse irreal. Dói não saber se é melhor conviver com gente mais jovem, mais velha ou da nossa idade. Dói presenciar pessoas que a gente gosta passando por desrespeitos que não toleramos mais, e poder fazer muito pouco ou quase nada.

Dói se trancar e afastar de quem a gente ama e achar que eles nos odeiam. Dói não saber direito o lugar que ocupamos na vida dos outros. Dói amar com profundeza e, ao mesmo tempo, duvidar do amor que sentem por nós e também do amor que sentimos. Dói precisar que gente de fora nos lembre que somos humanos. Dói quebrar os moldes nos quais tentam nos colocar. Dói notar-se com inveja de bicicletas e crianças que sobem em árvore.

Dói saber que se é amado, mas não sentir esse amor chegar até nós. Dói sentir medo de rejeição e de desamparo. Dói compreender que, do mesmo modo em que ninguém vive sozinho, ninguém poderá nos conhecer ou entender melhor que nós mesmos. Dói não fazer ideia de quem estará junto de nós nos momentos de maior dor e confusão. Dói estar mudando sem que aqueles que mais te amam nem te conheçam direito.

21/07/2026 

quarta-feira, 22 de julho de 2026

A tentação de se comparar é forte e ceder é o mesmo que beber veneno

 Não só através das redes sociais, mas na vida real como um todo, muito do que a gente vive é performance de algum tipo. E a verdade é que a gente só tem acesso a pedacinhos da verdade a cada vez - depende do quanto o outro está disposto a deixar de performar.

Às vezes é melhor nem ouvir falar daquela prima que tem tudo o que a gente gostaria de ter e vive tudo o que a gente gostaria de viver, e provavelmente com muito menos esforço, ou com um muito diferente do que nós teríamos que fazer. Porque, mesmo sem querer, ela desperta o pior de nós. A inveja mais terrível.

E, se não dá para evitar totalmente, o jeito é fingir que não ouviu, ou só sorrir e acenar.

Pessoas com menos recursos que nós olham para a nossa casa, para os objetos e confortos, e acham que somos ricos, que temos tudo. Mas não fazem ideia do tempo e dinheiro que aquilo custou, e que beleza no fundo é questão de bom gosto. Notam a nossa educação e inteligência e não sabem que elas foram moldadas a anos de curiosidade e bolsas de estudo com dois dedos de escola estadual puxada.

É verdade que nada material falta. Mas às vezes o que mais alimenta é aquilo do qual menos se tem.

A gente se cria junto de meninas em cuja casa sonhou por um momento em morar, só para descobrir na idade adulta que elas estavam em armadilhas muito parecidas com a nossa, e saíram como puderam. Que elas têm os mesmos hobbies e jeitos de escapar que você. Sente a falta de um bom companheiro olhando para o marido de alguém, e nota que, se achar foi sorte, manter dá trabalho. Percebe o tempo passando quando olha no espelho e acha que não fez nada, que não é nada, que não conseguiu nada.

Quem aprende bem a arte de não dar trabalho faz qualquer um jurar que sorrisos e habilidade de calar e de puxar assunto são coisas naturais e sempre boas. Que muitas vezes, dentro de uma cabeça, vive ou um inferno ou um paraíso muito mais rico em que finalmente tudo dá certo e tem sentido. Que uma palavra de gentileza exige força de parto para sair de dentes que vivem afiados.

Mas a verdade é que cada um tem sua cruz e seu perrengue. Cada escolha tem um preço e um contexto, assim como muitas coisas que a gente não escolhe. Todo mundo tem aquele momento e motivo de chorar escondido (para fora ou para dentro) ou de querer deixar tudo para trás de alguma forma. Todo mundo, ainda em vida, olha a morte nos olhos e é obrigado a fazer algo a respeito.

Ninguém tem sempre tudo o que quer, como quer e na hora que quer. E olhando para o rastro do outro, a gente esquece de que já pode estar cumprindo nosso destino.

21/07/2026 

terça-feira, 21 de julho de 2026

As coisas são mais simples do que parecem e só vê isso quem quer

Reclamar um pouco menos da vida já torna tudo melhor, ou pelo menos mais suportável. Vá lá fora e corra atrás da cachorra, ela é só mais uma criança querendo atenção. Nem tudo precisa estar o tempo inteiro nas mais perfeitas condições para ser importante. Um simples banho pode ser algo capaz de partir o coração e remendá-lo de novo. Pode haver mais amor num pedaço de pão dormido do que se imagina. Uma vida sem gritos é muito mais fácil de viver.

Não dá para consertar tudo, nem mandar nas escolhas de ninguém. Há pesos que, em sua essência, só nós mesmos ou o outro podem carregar. Ser útil demais quase sempre cobra um preço bem caro. Às vezes tudo o que se precisa é na verdade sair do ar-condicionado e pegar um vento quente de novembro. Talvez seja melhor puxar briga por pouca coisa do que passar o resto da vida engolindo sapos. Certos laços que a gente acha que já se desataram provavelmente são os que mais vêm resistindo aos testes do mundo e do tempo.

Estar perto das pessoas certas alivia o peso das costas e deixa um frio no corpo quando elas se vão. Às vezes vai doer estar certo sobre algo e não ter podido interferir. O que a gente chama de medo na verdade pode ter sido instinto primordial correto de não se envolver demais no que não é para ser nosso. Não dá para aceitar ser tapa ferida e segunda opção na vida de ninguém. Pode ser que seus avós te influenciem mais que seus pais, e perceber isso vai te surpreender (ou não). Tudo bem não gostar de comer certas coisas.

O que existe de mais importante e sério na vida, no fim das contas, não é nada que a gente leve conosco na hora da morte. Lembrar quem a gente era quando criança é o caminho mais luminoso para uma vida mais plena, e cuidar da criança que fomos é um trabalho que exige aprendizado e prática, mas que provavelmente compensa muito. É obrigação nossa fazer diferente de quem veio antes de nós. Ficar sem comer aquele bolo de chocolate específico faz diferença, sim. As respostas moram dentro de nós, mas se confirmam em todos os idiomas que o mundo sabe falar.

Na dúvida, coma algo, durma, tome um banho ou escreva.

21/07/2026

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Resolução

De noite ou de dia,
Só porque gostava,
Só porque podia,
Me escolhia,
Me devorava
Como o que mais sacia.

Uma e outra vez
Me buscava
Ou de pequeno me olhava
Mas jamais resistia
À minha peculiar acidez
E assim mesmo, devagar
Sem hesitar
Sem força, mas com magia
- pois sou macia -
Me despia,
Me tomava
Em nobre altivez.

E ali me desfazia
Enquanto enchia
E guardava
No que se fecha
A revelia
Do que atinge como flecha
E gaba
Da sua pequenez.

24/04/2026

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Sublime

Pela palma da mão
que o destino decreta
como serenata
o amor que mal se notava
na palavra não dita
agora grita
e faz chorar de alegria
em bacia,
chuva e escuridão
e mostra sua mais fina obra
digna de se louvar
num pedaço de pão
de dia que renasce e sobra.
 
28/01/2026 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Cifra II

Talvez
por uma letra
conheci mais de ti
sem mesquinharia
depois de anos de ausência
do que se ainda estivesses aqui,
e aquela porta
se abrisse outra vez
e eu voltasse a ser criança
na casa tua e também minha.
 
18/01/2026  

domingo, 18 de janeiro de 2026

Cifra I

Aqui está ele...
 
Na mão que te afaga
o rosto,
o pescoço,
a boca,
os cabelos.
 
Nos olhos que choram
e na voz que respira
para que me olhes,
para que fiques,
mesmo no instante mais próximo.
 
No corpo que se aquece
e enfim relaxa
quando entre teus braços -
na saudade,
no desejo
e na ânsia
dos beijos.
 
No medo
que o mal te toque,
que o escuro
te tire a paz,
que o destino
te evapore.
 
Na pele que se despe
ainda que apenas
para estar junto da tua
ou para, por um momento,
te pertencer
e buscar o que quer.
 
Aí está o meu amor.
 
Tu tens olhos... Tu o vês?
Tu tens corpo... Tu o sentes?
 
18/01/2026 

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Mysterium fidei

Como é que pode
se sentir mais viva
na hora da morte
em ai e em ode
enquanto escorre
feito derrubada torre
sem corte
nem ferida?
 
09/12/2025 

sábado, 15 de novembro de 2025

15/11/2025

 Não é à toa

que eu me sinta mais viva

nos meses quentes.

E que, quando tudo parece 

opressivo e irreal,

a vida verdadeira insista em se mostrar

 no criar, brincar, correr,

descansar, sentir e ouvir...

- trecho do meu diário 

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Barganha

O tempo passa
e ainda falho
não importa o que faça
em fechar o talho
e ficar em paz
com o que foi deixado para trás...
 
O que mais me dói
não é mais tua falta
mas sim o que o coração constrói
sobre terra que parece tão farta
mas ainda não passa de pintura
que se cristaliza quando retrata
a ternura
daquilo do qual tanto anseia a alma.
 
Tudo o que vive num passado
que nunca foi vivido
ao teu lado,
mas que existe
como aquelas borboletas
e os beijos roubados
atrás de portas secretas
e tantas, tantas palavras...
 
O peso morto do carinho
sem nada pedir em troca oferecido
e tomado
como bálsamo
e o do terror que chega de mansinho
e atravessa, cumprido,
o limiar de um Sésamo
abandonado...
 
Um tanto que ainda resiste
e para o qual não sei como olhar
mas que, quem sabe um dia,
que alegria
não seria
se mesmo com a dor do guardado
e da partida
ele não possa mais me machucar...
 
E em vez disso
renovado, cheio de viço
e mais sábio
possa retornar,
mais fervorosamente amar
e mais ainda realizar.
 
 23/09/2025

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Offering

My beautiful muse,
my brightest dream.
My shyest excuse,
my sweetest sin!
 
Be it a man's heart
in a dinner knife
or all the diamond and gold
of this wretched world
on a silver tray...
 
Grand or small your request
wrapped around a lock of your hair
at the border of afterlife -
be it the first light of day
or the darkest shade of night...
 
I shall do my best
to play the assigned part
of living up to the task
that is laying it at your feet
or upon your breast
or anywhere else you might ask,
 
to take whatever shape
maybe to scare
yet never as defeat
just so that my nape
maybe finds a reason and an escape
for once, under your grasp.
 
12 de agosto de 2025 

sábado, 9 de agosto de 2025

Subtleties

Even if they call me pervert, 
I wear your shirt 
just cause, 
if only between us... 
 
To keep you close to me 
without feeling sorry 
for having your scent, 
your warmth 
and all there is of indecent
about your mouth
and the shape of your body 
still against me. 
 
It is my way to say 
at the start of a new day 
I made love to you 
and still I crave a piece of you. 
 
Do you?


09/08/2025 

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Manifestação

Se não devo morrer
pelo que não pude viver...
Que eu jamais ouse esquecer
de quem nunca deixei de ser.
 
08/08/2025 

sábado, 17 de maio de 2025

Musings

I don't even know why I worry
when so little of life goes the way I want...
And when so much of my story
can be defined and changed by an instant...

I wish my heart wasn't in such a hurry
to get the things it wants but tries to avoid
and my mind didn't sound so melancholy
or repetitive, or closed, or annoyed...

If only life wasn't such a brute fight
who knows if I'll even win.
I just hope my heart ends up as light
as his touch upon my skin...

Something might happen if I accept
that flying high and moving like air
is seeing all I did and everyone I met
was not even a test, but a straight stare...
 
17/05/2025

segunda-feira, 12 de maio de 2025

Minotaur's maze

This rage must have a reason. 
All this wrath must have a goal. 
If not, what in hell have I done? 
If not, where can all this go? 
 
May this fire build and not just destroy, 
make it something that is good... 
Though if I am being naive and coy, 
hope one day I have this understood... 
 
That in truth it doesn't matter 
how much we try to make things better 
if one or none of us can see 
that in the way it's meant to be... 
 
There is no use in bringing everybody joy 
because someone has to lose 
and if all your sorrow I strive to avoid 
the one I make most unhappy 
is me.
 
11/05/2025

domingo, 11 de maio de 2025

Longing

You of the fiercest gaze 
both in deep anger and great joy 
behind the smile ever of a boy 
that could set the world ablaze... 
 
How could I even try to return your love? 
 
You whose curls fall down your back 
broad and full of muscles lean 
strong enough to return me to my track 
and I thought I never would've seen... 
 
Are you proud of me from home above? 
 
You who blind me with bright light 
and grant me your most loving kiss 
with gentle hands that plague me to write 
and stare at the worst kind of abyss... 
 
Do you really know what I'm made of? 
 
Sorry that I'm yet to learn how to love who I am 
and that I'm yet to feel the warmth coming from your chest... 
If only I could give you now what you gave me then... 
My only hope is to fulfill our heart's main request... 
 
Tell me, will I ever be enough?
 
11/05/2025

segunda-feira, 5 de maio de 2025

Não sou tão difícil de agradar porque não quero muita coisa

Me acho ambiciosa e exigente. Mas, se eu olhar direito para os meus desejos, eles na verdade não são tão maiores assim do que a minha realidade. E gosto de pensar que, mesmo que nem tudo se realize e seja exatamente como eu imagino, ainda poderei me sentir contente e orgulhosa.

Sei perfeitamente que quero mais do que o que se apresenta para mim hoje. Mas será que é tão mais do que o que qualquer pessoa merece? Será que é tão absurdo e impossível de se querer e alcançar?

Eu quero independência e autonomia. Me responsabilizar pelas minhas escolhas, poder decidir e fazer por mim mesma tudo o que me for possível. Ser forte e me reconhecer como tal sem precisar parecê-lo. Me reconhecer como um ser humano legítimo e todas as emoções que isso envolve.

Quero amar a pessoa que sou. Tirar das sombras as partes de partes de mim que merecem se expressar em vez de ficar escondidas... Mesmo que elas não estejam alinhadas com as expectativas que desenharam para mim e com as quais eu acabo ainda concordando. Quero um lar verdadeiro, onde eu tenha lugar e voz, onde eu seja vista como uma pessoa e não só mais um item de decoração.

Quero que o meu corpo e ambiente não sejam empecilho para que eu possa fazer as menores coisas sozinha. Quero não ter esse medo de dizer a verdade disfarçado de tentar ter uma visão mais otimista da vida. Não mais fugir daquilo que mais desejo e da transformação que vem junto disso. Conhecer lugares e coisas novas e permitir que isso me mude para melhor. Buscar ser cada vez melhor onde for possível, sempre honrando meu eu mais sincero e imperfeito.

Quero encontrar meus pares. Gente com quem eu possa realmente compartilhar meu coração e minha mente. Com quem eu aprenda dentro do que nos difere, mas em cujas similaridades eu me sinta mais à vontade para ser eu mesma. Um jardim para cuidar, talvez. Alguém que eu ame de todo o coração pela pessoa que é, e que possa me amar assim, um dia de cada vez.

maio de 2025

 

segunda-feira, 28 de abril de 2025

Ninguém é uma florzinha de pessoa e tudo bem

É fácil me martirizar e gritar aos quatro ventos que sou humana. Que sou imperfeita, que tenho defeitos. Hoje eu consigo reconhecer parte desses defeitos, assim como sei que existem partes de mim que permanecem guardadas, esperando serem aceitas e por uma oportunidade de se manifestarem livremente. Partes que não são necessariamente ruins.

O difícil parece ser aceitar essa minha humanidade e imperfeição no ser e fazer. Encontrar o equilíbrio entre a busca por melhorar cada vez mais enquanto pessoa decente e que vive seu tempo e acabar se matando por não poder nunca chegar num lugar que nem existe.

É complicado não me assustar quando não me mostro agradável, sensata e correta. Que, não importando se por pura irritação, tristeza, reflexo de defesa ou de modo proposital, eu posso realmente magoar alguém. Que minhas falhas de caráter são reais e na verdade estarão comigo para sempre.

Ainda tenho dificuldade de entender que, não importa o quanto eu queira e busque melhorar, até isso tem um limite. Que eu posso e mereço existir sendo tudo o que sou, inclusive aquilo que não é tão bonito assim. Que quem mais precisa ver, entender e aceitar sem fugir de tudo aquilo que sou, deve ser eu mesma.

Entender que minha capacidade para o mal é real, mas que ela não anula minhas escolhas genuínas em direção à bondade para com o mundo. Que aquilo de bonito que há em mim também é verdadeiro, quanto mais naturalmente (e também por escolha consciente) se manifestar. Que eu mereço gentileza, amor e acolhimento como todo mundo, mesmo com as minhas falhas. Que eu me devo muito disso tudo.

A verdade é que todo mundo é uma flor com espinhos – inclusive eu. Às vezes mais pétalas, às vezes mais espinhos. E tudo bem. Todas têm seu lugar no mundo, porque assim teve de ser. Ora embelezam mais, ora espetam mais. Mas estar ali já é mais que suficiente.

abril de 2025

 

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Tristeza particular

 

 O passado tem dessas coisas. Prega peças aleatórias para nos fazer lembrar quem fomos um dia... E do quanto esse eu de outro tempo ainda resta em nós – para o bem ou para o mal.

Age de forma repentina, mas de um jeito que torna rememorar o detalhe grande ou pequeno a coisa mais fácil do mundo. Repete uma mesma informação com outra imagem como uma forma de provocação e até mesmo de teste.

Pode ser que ele nos pegue num passeio de carro pelo centro da cidade. Já é noite, então nós e nossa companhia decidimos comer um cachorro-quente da van estacionada na rua principal. A outra pessoa fica de sair para pedir e pegar a comida, e não nos importamos de esperar.

Do banco da frente, a gente espera. Espera e, como é de nosso feitio, observa. A luz forte que ilumina a vitrine apesar de a loja estar fechada há várias horas. As pessoas que passam, seja naquela calçada ou querendo atravessar para o outro lado. As que perdem definição ao passarem, por conta daquela luz. As crianças e o que elas parecem estar querendo.

E inesperadamente, no espaço de apenas alguns segundos, o passado se mostra. Ainda estamos sozinhos no carro, então não há como evitar o confronto nem fingir que aquilo nunca aconteceu. O passado decide assumir nome e sobrenome e no fazer duvidar dos nossos próprios olhos por um momento. Mas, antes de ser possível ver o rosto, já sabemos de quem se trata.

Bem diante de nós, ele se mostra e acontece outra vez. Surge perto o bastante para que possamos discernir seu tamanho e seus traços primários, por tecnicamente ter se virado na direção em que estamos... E é justamente isso que nos surpreende. Tantos anos depois, aquele instante mais parece uma provocação, e é quase difícil de acreditar, por ser tão improvável. Mas a vida confirma.

“Será que... Ah, é sim.”

Exatamente como na memória e na experiência o passado olha para onde estamos, mas não para nós. Olha logo acima da nossa cabeça, depois para o outro lado, com o mesmo olhar focado e ao mesmo tempo perdido em si mesmo... E passa, atravessando a rua em passo firme. Um estar dentro de um carro escuro e o outro na rua não altera quase nada.

Esse passado que nunca nos amou, e que sempre soubemos que nunca nos amaria. Fizemos as pazes com isso desde o começo. Esse passado nos machucou muito, é verdade. Mas aquilo foi há muito tempo. A outra parte da surpresa é percebermos que não sentimos mágoa do que vemos. Apenas lembramos o quanto aquilo foi importante, e não conseguimos não pensar no que teríamos feito.

Mas, felizmente, o pensamento não permanece. Assim como o passado, ele vem e passa... Naquele rosto que achávamos que tínhamos esquecido, mas que se parecia exatamente como naquela época. Um segundo ou dois, apenas, mas aconteceu. E lembramos. E sentimos. Sabendo que até aquele fragmento do passado não é mais o mesmo, ainda pudemos reconhecê-lo, como que em câmera lenta.

Não muito depois, a parceria volta com os cachorros-quentes. Estão gostosos. A vida segue, como ele seguiu. E, por incrível que pareça, não contamos sobre o que vimos para a pessoa ao lado. Por mais natural e até automático que seja fazer isso, achamos melhor guardarmos aquilo conosco. Um fragmento banal se torna algo raro ao nosso feitio... Uma tristeza particular.

 

21/04/2025

Quem é importante nunca morre e sim permanece no inesperado

 Me incluo entre aqueles que acham que as pessoas que mais amamos permanecem conosco de alguma forma depois da morte. Que alguém só desapare...