quinta-feira, 13 de junho de 2019

Dois

Eu devolvo o beijo
nas costas da mão
com elas a beijar o rosto, o queixo
e os olhos da minha canção.

08/06/2019

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Mel perfumado

I

Amado mel
que desliza para dentro,
num espalho chega ao centro
para tocar o céu
e dos lábios escorre
feito luz do farol do alto da torre,
tão doce que meu corpo cede
quando vem a sede.

II

Perfume sempre ao lado
e sobre a pulsação
pela ponta dos dedos
ou direta liquidez sem segredos
a não ser o que ficou guardado
na penteadeira do coração,
que a pele escolhe
e lentamente absorve
até que tudo se enterre
e nada sobre.

08/06/2019

terça-feira, 11 de junho de 2019

Tirana

Em todo o desejo
dentro de um bom cortejo
é melhor que ele se faça
com graça,
pompa e discrição,
mas não com menos paixão.

08/06/2019

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Um prazer

Sou apenas mais um entre os poetas
cujas ambições mais secretas
acabam em rimas em outras bocas,
mas, como nenhuma
tu me tocas
com o som delas na tua...

08/06/2019

domingo, 9 de junho de 2019

Por direito

Podes até dizer que não,
meu coração,
mas és realeza
pela beleza
de seres dono, motivo e voz
de cada verso que fale de nós.

08/06/2019

sábado, 8 de junho de 2019

Às sombras

Aqui a gente
se entende,
se despe
e de outro corpo se veste.

Passa por qualquer teste
porque não mente
e tem terreno para ser amante
quando em outra terra parece distante.

07/06/2019

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Aulas de etiqueta

De menina saudosa,
mansamente dengosa,
que não quer te perder.

Que te dá o teu devido valor
maior que ouro branco ou linda flor
e aprende contigo, como tem que ser.

De mulher sem bobagem
ou medo do cru e selvagem
dentro de si, se quiseres ver.

05/06/2019

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Novembro

Ao longo do décimo primeiro,
lá do fundo, tiro certeiro,
eu te encontro, enfim.

Será que foi mesmo assim?

Talvez dizer eu devesse
que presente como esse
esperou pela nossa vez.

E lá, naquele penúltimo mês...

Se apresenta, se curva, e vem
e tal graça é algo que quero também
quando finalmente entendo seu idioma...

Do qual ínfima nota se lia no meu próprio estranho aroma.

05/06/2019

domingo, 2 de junho de 2019

Vernáculo

Certas palavras deixam de ser apenas palavras, dependendo de quem as diz. Deixam de ser meros sons que se ouve - ou mesmo perdem o seu superficial e original significado. Para virar música, adquirir outro peso ou um peso que antes não estava ali.

O "meu amor" hoje enche a minha boca mais do que nunca. Não só porque te amo, mas porque contigo ele sai fácil; porque não é algo que tenho que guardar para mim por falta de retorno e principalmente de consideração, como um eco jogado fora ou que simplesmente se perde no ar junto com tantas doçuras que hoje, à sua maneira, são nossas. Porque tu também me amas, simplesmente.

Ser "Pequena" diante de ti nunca me diminuiu; do contrário, desde sempre só me engrandece a ponto de caber em teus braços e coração não me deixar não querer algo maior tanto quanto as aves anseiam pelo céu. Um dos grandes sinais do teu amor.

A tua "linda" só é assim pela generosidade dos teus olhos e por quem ela é e deseja continuar a ser por estar contigo. A "menina" não me ofende na tua voz por não deixar de ser quem eu ainda sou de muitas maneiras. E porque, ao teu lado, não há problema em sê-lo... A "mulher" que trouxeste é tão grande, tão quente, sublime e suave pelo ar e contra as paredes, como nenhum homem até agora havia posto diante de mim. Em tudo o que ela é, pode ser e merece. Mesmo que eu quase nunca me sinta assim...

Toda a melodia que só pertence a nós dois e aos ouvidos um do outro, no meio dos sorrisos e caretas de afeição. Como nomes que nos demos em nossos corações e que transbordam pelos lábios com suavidade - no lugar das convenções ou andando de mãos dadas com elas como as maiores verdades, mesmo que depois possam ser repetidas por qualquer outra pessoa.

5 de abril de 2019

sábado, 1 de junho de 2019

13/05/2019

Se é assim que tu te apresentas à tua maneira e é isso que me encanta... Quem sou eu para não fazer o mesmo, ainda que tenha pensado em me "fingir de forte"? Eu não me censuro ou me arrependo; pois a ideia, apenas a honra da vossa presença e atenção foi muito mais pungente.

É verdade que alguns ciclos se repetirão - alguns ruins, alguns bons, outros, necessários. Mas sabemos que ainda há muito a ser feito e, se for do vosso agrado, prestarei-me com parte dos meus rastros a prestigiar os que da mão que me recebeu vieram.

- trecho do meu diário

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Cracking codes

Is this what you are saying
to me?
Do I have to be sort of high on meds
after sleepless nights
soaking the sheets in bed -
with the hands shaking,
the guts almost turning,
to be able to see
this on clear lights?

To know that in the yesterday I read
while pretty okay
but confused
the real words of the day
at one place squeezed,
not as powder spread?

30/05/2019

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Amor de leoa

Eu sou apenas uma gatinha assustada implorando por atenção. Eu vou te trazer minha caça como presente aos teus pés - para te agradar e que afagues minha cabeça dizendo o quão boa eu sou por isso.

Eu devolverei tua proteção com carinho e lealdade, amor ronronado e intenso, então não se assuste... Rainhas se dedicam a bons reis e a outras que se carregam com dignidade.

Eu o cortejarei com todo o meu baralho na mesa; tudo o que eu seria capaz de te oferecer, basta que queiras. E, apesar de tudo o que me falta e das minhas falhas centradas, tu estás em meu pensamento mais vezes do que imaginas porque não consigo ser de outro jeito.

Ainda que às vezes eu esqueça disso, tentarei lembrar-te que és tesouro - seja em tinta ou no afago mais privado. Quando parecer que não me importo mais com nada, olha-me bem e de novo eu conseguirei verbalizar meu pagamento pela generosidade.

Não me deixe machucar-te... Pois, com o tempo e o conforto, a mesma pata macia que te acaricia coloca as unhas para fora e te arranha... E a mesma boca que te mima e despeja amor é a que pode dizer as coisas mais crueis, ainda que não tenha a intenção. Talvez eu deva aprender com o perdão e com tudo o que não sei expressar.

E, ainda que me doa, sinta-se livre para ir embora. A liberdade de espírito e corpo é o que mais me falta e, sendo assim, o que mais desejo a qualquer um. Mas não brinque comigo, pois gosto de justiça num mundo em que isso parece fazer falta. Não quero que meu fogo te queime, mas que seja um conforto enquanto eu aprendo a me amar te amando - não porque me preenches, mas porque me fascinas.

10/05/2019

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Convite

Quem por acaso eu seria
se não nos desse a alegria
de um dia
simplesmente me deixar
encontrar
e a gentileza me levar
a descansar
no verde brilhante desta poesia?

29/05/2019

terça-feira, 28 de maio de 2019

Nós, Emilias

Feitio de chama alerta
ansiando pela mão certa
que conheça o sorriso da contemplação
da falta e fulgor do ser
e saiba se aquecer
no que se recusa a não arder,
não se curva a outra intenção.

26/05/2019

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Singela

A maravilha
da flor que avistaste,
pegaste
pela haste,
de lado jogaste
e me deste
quando vieste
e me encontraste
te faz outra buganvília.

26/05/2019

domingo, 26 de maio de 2019

Última pousada

Tu és mais rei de ti
que eu dona de mim, até aqui.
A quem importa que não sejam deuses e, sim, cantores,
contanto que feches os olhos e ores;
que sobre mim caias no sono
em completo abandono?
Sei que nenhum mal me alcançará no fundo deste solo
feito do cheiro do teu colo...

26/05/2019

sábado, 25 de maio de 2019

Maneiras de trovador

Três ou quatro beijos de adeus
a uma dama,
daquela azul sombra
que vem até aqui e  mesmo agora me chama,
na mão eu hoje guardo
como rainhas aos luxos seus
e certos versos vêm da pena de um só bardo,
de quem meu coração sempre lembra.

25/05/2019

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Chastity belt

Try turning me into a machine,
a breeder for your plasure
and profit on display...
You wait for the beautiful day
when just for good measure
screams the most awaken beast you've ever seen...

24/05/2019

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Female end of discussion

The monters you create
of you
in your debate
of "with them, what to do?"
are the ones we kill
because we can
and we will,
we are not like certain men.

22/05/2019

quarta-feira, 22 de maio de 2019

De barbitúricos

Ah, minha Flor Bela,
sempre tão intensa!
Não há como escapar da tua crença,
de amar ou odiar tal fina entretela.

Ora a princesa vestida de saudade
vivendo sozinha o mais puro amor,
ora a louca que grita sua felicidade
para que todo o Mato saiba, se preciso for.

E eu, que chorei cada verso de mágoa
nos teus tantos trocados olhares
à cidade e à charneca sempre verde

sei bem aonde no fim deságua
toda rima que quase se perde
por só a desgraçados desejares!

09/05/2019

terça-feira, 21 de maio de 2019

Effects

One was a dog's sniff on the neck,
the hand on the throat now relaxed.
The other was a warm, kind embrace
which took me yet again, surprised.

One kissed its bold way over my back
with every hunger within its grace,
another invited me for a slow dance
made of free birds together in trance.

One strokes winter's wounds on my feet
in the long while they sting, then heal.
Another blows into my fire and its heat
as we two prepared the evening's meal...

One smiles as my dead skin begins to shed
and I am again as white as that very wall
where the other one taught me how to call
not one's deity's name, but his, instead.

And how could any soul ever dare to guess
that in the same way my fellow wild beast
eyed its way into this life and this room
rhymed rosy lips involved me, in the least,

only to rearrange the worst of an old mess
and not really fear the world's coming doom?
So no, I am not crazy enough to let him go;
prince and wolf are just the same, you know.

20/05/2019

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Recomeço

Deixa mover de baixo essas águas
entre as tuas palavras e pausas.

Dá-me todo sopro de respiração,
o vibrar das cordas do coração.

Mostra-me os tais grandes finais
que se repetem até por demais...

Deitemo-nos no pó deste deserto
que deixa nosso amor encoberto.

Diga-me de que estás apaixonado
como que num beijo sussurrado.

16/05/2019

domingo, 19 de maio de 2019

Em cheia

Sete noites em seguida
aos olhos do sol despida
como a mulher mais linda

só por um sorriso de menino
dono de todo desatino
e vontade de animal ferino

em que criança vira madame
e não há em céu, mar e terra quem reclame
da canção do seu enxame.

16/05/2019

sábado, 18 de maio de 2019

S/A

Caro A.,
Não via a hora de te escrever e contar sobre estar aqui, e também de saber notícias suas! Precisava dividir isso com alguém e tudo agora de alguma forma me remete a você. Você sabe que não estou aqui por vontade própria e sim por circunstâncias de que não exatamente gostaria. Tudo aconteceu tão rápido... Sei que isso é temporário, mas parece que vai durar para sempre. Posso até não considerar aquele lugar como minha casa e eu agora entendo que fazer o que fiz é o remédio quando não há alternativa, mas me parece errado estar assim em um lugar que de maneira nenhuma realmente te pertence.
É tudo muito estranho aqui, não só por não ser minha casa, e não consigo me sentir bem. É tão gótico e surreal. O silêncio faz com que eu me pergunte se os vizinhos e crianças são reais; mesmo que provavelmente estejam fora no trabalho ou na escola a maior parte do tempo. Logo eu que achava que por um lado seria bom e eu poderia trabalhar e pensar em paz no que fazer! Mas aqui ele é tão grande que qualquer som assusta. Olho pela janela da sala de estar e, durante o pôr-do-sol, as folhas da árvore grande que fica no gramado em frente brilham com uma sonhadora luz dourada...
De frente para esta casa fica uma área que chamam de bosque com pelo menos um banco de madeira podre e suja logo à vista, mas sei de mais um mais para dentro. Me disseram que não é muito pequeno, nem muito grande e sei que faz uma curva à esquerda, porém parece não ter fim durante a noite. Além de apenas algumas pessoas e durante o dia, nunca vi ninguém entrar lá. O bosque em especial me faz pensar em você, mas nada nisso a não ser seu nome me traz conforto – independentemente da miríade de coisas possivelmente tão maiores e mais velhas que nós que o povo diz que se esconde nos bosques que você mesmo me apresentou há um tempo.
Não sei dizer o que acontece, mas de quando em vez os cachorros de uma das casas ao lado uivam e choram todos juntos no que soa como o lamento mais triste durante minutos intermináveis. Até o que me comprometi em ajudar a cuidar parece dividir a tristeza em algumas ocasiões. Há casas aqui de todos os tipos e as grandes e antigas me fazem achar que foram construídas para que seus moradores nunca ou quase nunca tivessem que sair pela porta. Em anexo, na foto que te envio junto com esta missiva, está a lua cheia peculiarmente posicionada quase que exatamente entre o muro da casa onde estou e a de um vizinho. As folhas que espiam no canto são as da árvore brilhante.
A ruela em que esta casa está situada dentro do complexo é um beco sem saída, cujo paredão de tijolos se ergue duas casas e um campinho de futebol à direita de quem está aqui, com algumas das árvores do bosque quase lhe fazendo carinho. Mesmo nos fins de semana o movimento parece miragem; e olhe que por ora já vi a troca de duas estações enquanto estou aqui. Às vezes, quando olho para a tal área arborizada durante a noite (seja pela janela ou de fato parada do lado de fora), vejo um vazio negro e impenetrável ou uns poucos raios de lua entre as árvores bagunçadas...
Mais de uma pessoa, talvez pela falta de portões em frente ao gramado, já entrou nesta casa ou se aproximou dela sem se anunciar. Literalmente do nada. Até mesmo a dona original desta construção que parece tão mal-acabada, como se fosse uma assombração. Desde o momento em que pus os pés neste complexo e cruzei os olhos com um dos zeladores eu soube que seria bizarro ficar aqui; muito por causa de seus olhos muito grandes e de um sorriso que me parece bastante errado naquele rosto, bem como sua voz.
Eu nunca vivi assim, em território cercado de paredes a este nível. Parece um silencioso mundo separado em que me sinto ainda mais deslocada. É como se até o tempo passasse mais devagar aqui (e quase não sair também não ajuda). Sei que foi o único que pude encontrar, mas às vezes me questiono se foi a coisa certa a fazer. Você sabe o quanto sou ruim em tomar decisões e a capacidade de meus impulsos em me deixar ainda mais perdida... Só queria ficar longe, só um pouquinho... Felizmente o velho piano da proprietária ainda consegue me consolar. Foi até uma surpresa ver que uma casa estranha como esta pudesse ter um – mas, de qualquer forma, tudo aqui parece diferente.
Deve ser a solidão alimentando as minhas paranoias, mas esse lugar me parece cheio de negatividade (ou será eu sendo conduzida pela minha própria?) e que acho que a hora de eu voltar e encarar as coisas pode estar chegando. Não que algo literal e físico tenha acontecido comigo, mas alguns boatos que ouvi mesmo num contexto como este me fazem ousar imaginar o grau de nojeira a que o ser humano pode chegar. Juro que estou me cuidando o máximo que posso! Apenas não achava que seria tão desconfortável, talvez até mais do que o que me fez vir para cá. Não fui feita para estar onde estou. Você sabe aquilo que minha alma mais anseia e de todos os sentidos da frase anterior.
O loop a que estou presa estando aqui parece mais estreito e repetitivo do que nunca. Venha me buscar, meu amor. Por favor. Chega disto. Só você mesmo para olhar para mim com tanto carinho, com o coração tão aberto e vazio de julgamento; apenas desejando que eu faça o que tem de ser feito dentro das minhas possibilidades, como eu mesma te desejo e você bem sabe... Coragem e iniciativa são o que nos levarão adiante, mas tudo o que preciso agora é estar ao teu lado de novo; estar em casa. Apenas venha, o mais rápido que puder – o sabá terminou.
De quem muito te ama,
S.
P.S.: Não tenho como te agradecer o suficiente por ter me apoiado nesta empreitada louca – mas sei que tenho de voltar para a realidade e não sucumbir às minhas infelicidades/frustrações para que alguma coisa finalmente aconteça. Eu precisava tentar respirar outro ar, mas tudo o que sei é que o daqui não me fez bem. Pode ser que os meus pais nunca entendam o que fiz, mas não cabe a eles querer adivinhar o que se passa na minha ou na sua cabeça. Fico te devendo muito pelo resto da vida e pretendo te devolver em dobro, se for possível.

Olhos fechados em solidão. Silêncio, a carícia de mãos trêmulas e um tanto frias mesmo para uma tarde quente de outono. O produto da carícia em eco pelo aposento de distribuição engraçada, talvez atravessando a janela pela qual, pela primeira vez em algum tempo, não se pegou espiando. Apesar dos medos e ansiedades, nada mais do que o momento dentro do breve transe da Marcha Turca de Mozart. Tão centrada no agora, mesmo ali, como tantas vezes sente dificuldade em fazer, que não notou o que acontecia ao seu redor. De foco não na precisão do que estava fazendo, mas no simples fazer e do que ele era capaz.

S. não notou o sorriso de A. diante da quietude envolta pela música ao chegar ao aposento. Nem quando ele jogou a mochila que tinha nas mãos no sofá – sua cor de sangue um contraste peculiar com a costumeira neutralidade de suas roupas – e se aproximou suavemente do piano enquanto a peça aos poucos chegava ao fim. Querendo talvez dar um susto nela, A. escondeu uma das mãos às costas e com a outra gentilmente afagou o cabelo da moça.

- Fermata. – sussurrou ele exatamente quando a última tecla com a última nota foi pressionada e tal pressão ainda se fez sentir por alguns longos segundos. Pelo jeito o susto não acontecera, porque tudo o que S. fez foi abrir os olhos devagar e puxar a longa mão pousada sobre sua cabeça para que ficasse contra o rosto, como se aquilo fosse a coisa mais familiar e íntima do mundo. O que de fato era, em sua medida...

- Amado! – S. exclamou ao virar-se no banco do piano e atirar os braços ao pescoço do outro. Sendo muito alto e um tanto tímido, ele sorriu com afeto e dobrou o corpo para retribuir ao gesto, o rosto semi-escondido numa mistura do próprio cabelo e do dela.

- Desculpe chegar assim. Acho que meu aviso de que eu viria não te alcançou a tempo. Até cheguei a bater na porta, mas o piano provavelmente abafou o som. – A. levou a mão à cabeça, fez uma careta e instintivamente coçou entre as raízes do cocuruto. – Mozart, hein? Se eu não desejasse tanto fazer as coisas de ouvido e passasse mais tempo com as teclas, tocaria melhor...

- Melhor que seja você do que qualquer um. Muito obrigada mesmo por vir me buscar. E sim, era Mozart. – Exclamou S. ao jogar-se novamente no banquinho, enxugando uma lágrima que ameaçava cair do canto do olho. – Por favor, sente-se! Você deve estar cansado por causa do terreno acidentado. Há uma cadeira logo ali.

Tudo o que A. fez foi sussurrar “com prazer” antes de apanhar a cadeira e colocá-la de frente para a moça, respeitando quase um metro de espaço pessoal. Sentou-se com as pernas cruzadas e mãos nos bolsos da jaqueta; estudava a amiga ternamente, buscando seus olhos. Depois de algum tempo, ele viu S. morder o lábio, suspirar e deixar escapar um trêmulo “estou com medo”. A. assentiu com a cabeça e trouxe o tronco para frente no assento.

- Tudo bem ter medo. – murmurou o rapaz. – Você já esteve aí antes. Você sabe que medo é esse. Tente limpar sua mente e você vai saber como enfrentá-lo. – ele tomou a mão pequenina de S. numa das palmas compridas e cobriu-a com sua outra.

- Eu sei. – respondeu S., deixando a mão permanecer entre as dele. Depois de algum tempo em silêncio ela pousou os olhos nele e perguntou: - Gostaria de um chá? Tenho mel, se você quiser colocar um pouco. E umas torradas e biscoitos.

- Uma xícara quentinha entre as mãos... Eu te acompanho, muito obrigado. – ambos se levantaram para procurar entre os armários que rangiam; S. apanhou um xale depois de reclamar entre os dentes que a casa era muito fria.

Enquanto a infusão acontecia, A. apertou novamente a mão da moça.

- O que você acha de bebermos o chá no bosque? Pode ser ali no banco da frente... Queria conhecer o que te dá medo e por enquanto não está tão frio. O silêncio eu já senti: definitivamente não é como o do campo. A não ser que te deixe desconfortável.

S. pensou em abrir a boca quando os cachorros do vizinho iniciaram uma onda de uivo coletivo que dava a impressão de que estavam sendo torturados, ou que eram pessoas lamentando a perda de um ente querido. Gesticulou para que A. esperasse um pouco e foi buscar um pedaço de papel onde pudesse escrever uma resposta sem precisar gritar. Enquanto isso, ele sentou-se meio de lado ao piano, brevemente exercitou uma escala e fez um pouco de festa para o cachorro no fundo do pátio.
Respirou fundo com a caneta na mão, tentando ponderar se seus medos faziam mesmo sentido – se havia de fato, se não uma coisa, uma energia ali que a fazia estremecer. Concluiu que de qualquer forma precisaria encontrar um método de purificação que que ele provavelmente lhe estava sendo oferecido bem naquele momento.

“Quer saber? Aceito. Obrigada por estar aqui, por cruzar esta fronteira comigo.” Foi o que ela rabiscou e mostrou a ele. Então, com latas de biscoito, uma garrafa térmica e canecas enroscados nos braços e mãos, os dois atravessaram a ruela deserta até o emaranhado de árvores sem olhar para trás e a princípio sentaram-se no banco logo à entrada da clareira.

Por algum tempo falaram sobre tudo e nada enquanto bebericavam o chá e comiam. Depois, A. levantou-se e espiou por entre o emaranhado de árvores, instigando S. a acompanhá-lo. O rapaz descansou os utensílios ao lado de um tronco e deixou-se cair com as costas contra ele. S. pegou-se olhando em volta de si antes de se posicionar na terra sem se importar com a sujeira que aquilo faria em suas roupas.

- Estava com saudade... – sussurrou A. ao afastar um cacho caído aos olhos pela cabeça inclinada.

- Ah, eu também, você sabe disso. – S. indicou as próprias pernas esticadas à frente. – Venha, deite-se aqui. Queria te ver direito, sem fugir. – sentiu um pouco de hesitação, que logo desapareceu quando ele deu de ombros e descansou a cabeça sobre os joelhos dela.

- Sei que você não foge porque quer. Mas eu te acho, como agora, como sempre. É questão de treino.  – sorriu A.

- É verdade. E sempre encontra o que mais importa, como só outro homem na minha vida é capaz de fazer. Porém eu falo sério: chega de me esquivar do que é bom para mim. Além do mais, ouvi falar em algum lugar que o caráter de um homem pode ser deduzido pelo modo como ele aperta a mão de uma mulher. A julgar pelo seu, é um abraço de respeito, carinho e igualdade. É justo que eu me deixe levar pelo sono que vejo nos seus olhos. – ambos riram; A. brevemente cobriu o rosto com as mãos noutro cacoete de timidez.

- Eu agradeço, mas... Pareço sonolento e te causo sono? Eu ando quase sempre cansado, envolvido em mil coisas, é verdade... – diante da pergunta, a moça apenas fez que não e roçou os dedos entre os cachos dele como se fossem solo fofo e revirado.

- O “sono” é uma gentileza que você carrega. Fico grata por confiar em mim o bastante para descansar em meu colo. Há tanto tempo não afago nada mais que a mim mesma ou o cão desta casa que esqueço que consigo fazê-lo. Claro que o cão conta, mas você entende o que quero dizer.

- Ah, obrigado! – S. sorriu ao ver A. corar de leve. – Os cães e sua honestidade... – ele virou-se de lado, com o rosto na direção dela, o cabelo comprido um tanto amassado.

Ela pensou um pouco e confessou que gostava da mistura de vulnerabilidade e força que A. parecia ter. E de como aquilo se manifestava tanto em palavras quanto no simbolismo do pouco de corpo que ele deixava exposto à vista por hábito deliberado nas camisas mal abotoadas e, às vezes, mangas enroladas. A fragilidade física de pescoço, mãos, olhos, pulsos e o espaço perto do coração abertos a dentes, garras e quase toda a intempérie. E, no entanto, sua altura e estrutura óssea o tornavam imponente, mas não de uma forma intimidadora. Que tal amostra de vulnerabilidade não eliminava, mas destacava a discrição com que tratava a própria vida para com quem não tinha intimidades.

Enquanto o sol se punha, os primeiros raios de lua os alcançavam e ele absorvia as palavras, A. efusivamente agradeceu pelo que ouviu e enfatizou a doçura e coragem de quem as dizia; algo que poderia ser encontrado e deveria ser exercitado em toda a humanidade. Que era bonito S. ver algo assim no que para ele era apenas um costume, bem como sua maneira de demonstrar afeto.

O cantar dos grilos veio com o leve frio da noite; A. virou-se de barriga para cima e, olhando para o céu, suavemente começou a cantarolar uma melodia que S. logo identificou. Ele acenou com a cabeça para que ela o acompanhasse, se quisesse. Lágrimas felizes lhe chegaram quando ele cantou de novo dia e nova vida. Foi com isso martelando em mente que S. olhou em volta e percebeu que não tinha mais medo do lugar. Ao voltarem para dentro eles arrumaram as malas dela, fizeram o jantar e partiram no dia seguinte.

10/05/2019

sexta-feira, 17 de maio de 2019

11/04/2019

Talvez os nossos silêncios já existam, na medida em que nada é dito ou precisa ser dito quando nossas mãos estão juntas.

No eco de cada desculpa que não deveria ser pedida e de cada palavra deixada no ar da distância para ser devolvida quando o tempo e o coração acharem melhor.

Na quietude das salas que se prestam a ouvir só as nossas vozes.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Mini-resenha de "Quando o risco vale a pena"!

Então, pessoal. Sabe quando se divulga um trabalho nosso para alguém que de uma forma ou outra acompanha aquilo que a gente faz, e se pergunta o que a pessoa acha daquilo, mas ao mesmo tempo nem imagina que ela tenha de fato tido contato com a obra e que se importou de tirar um tempinho para ler e fazer um comentário?

Pois bem. Aconteceu comigo! Um tempo atrás eu falei sobre o meu livro de estreia na poesia num comentário num dos vídeos da Janaína do canal do Youtube/blog Nina e Suas Letras (com quem retomei contato desde que tirei as teias deste humilde bloguinho e fiquei sabendo que agora faz vídeos sobre literatura. Não seja bobx e vá lá dar um conferes!). E não é que dona Nina resolveu ler minha poesia no último mês de abril? Se não sou avisada, nem fico sabendo (risos), me pegou mesmo desprevenida, mas lisonjeada.

"Quando o risco vale a pena" acabou como uma das leituras da Nina para abril, entre outras que estão incluídas no vídeo abaixo:


Muito obrigada pelo carinho e sinceridade, Nina! E por mencionar o vídeo (eu não necessariamente assisto os vídeos na ordem em que eles são postados, então o aviso não estragou a surpresa, viu?). Fico muito feliz com os comentários e a divulgação. Quem sabe um dia não venham outros poemas publicados... Parabéns pelo teu trabalho, um beijo :)

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Algumas regalias

Amor, se o que queres que eu diga
sejam versos improvisados
para dentro dos teus lindos lábios
nas minhas noites ou nos nossos dias
ou teu nome suspirado a cada palavra que ouço
pois amo como soam na tua voz de moço,
talvez de bom grado eu consiga
te reservar algumas regalias...

09/05/2019

terça-feira, 14 de maio de 2019

Bush song

Beware of my thorn,
handle me with care.
Remember, please, that I was born
for the touch of your hand, cold and bare.

I may not offer you safe shadow,
for I am not as sturdy as a tower...
But if you come see me at the meadow,
for your hair I might have a white flower.

If need be, let me fall and die and burn,
smoke and spread the quickest fire.
Have my warmth and sweetness in return
for the chance to rid you of evil and liar.

09/05/2019

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Ao peixinho

Filho, não faz mal que não creia
que desde aquela lua cheia
da tua cabeça na minha mão
eu te guardo da tempestade mais feia
e tu carregas a minha paixão.

Pois todos têm este charme
capaz do maior desarme
e sabem da vida o que é bom
para a alma e para a carne
e respeitam o seu dom.

Eu te recebo em todo o teu voltar
ansioso para o mar,
um homem refeito
pelo cheiro da terra do lar
te apertando contra o peito.

08/05/2019

domingo, 12 de maio de 2019

Lured in

I know he'll always call me back
as I felt he would,
and just like that I followed his track
for his and my own good
into the sea, the city and the wood.

No fear, eyes closed
and a smile on my face.
neck and soul exposed
as should always be the case,
touch, voice and word treasured.

My love, I could cut him open
if I made the wrong move
by teeth, claw and untruth spoken
but not a thing would change in him or up above
as a rose cannot be a foxglove.

I roar as I hear his howl
saying he's to stay and never run
and then the earth holds our taken bow
of the moon worshipped by the sun,
crashing dance of two in one.

08/05/2019

sábado, 11 de maio de 2019

Anseios

Se tu estivesses aqui
eu tomaria todas as rimas
que tu me sussurras
na minha pena e voz
e as beijaria em ti.
Elas seriam tuas meninas,
as filhas da pureza das juras
que só pertencem a nós.

Eu te mostraria os únicos belos cortes
que alguém pode ter nos dedos
e fazem nascer rainhas e reis
de sangues azuis, negros, vermelhos...
Os que marcam tantas vidas e mortes,
sabem dos nossos segredos,
nos mantém jovens ou deixam velhos,
eu te poria a par das leis.

Se deste coração sou senhora e governante
desde sempre e amo como uma,
se apenas tu soubesses que o que parece que falta
é que fiques aqui, amante...
Vem e este amor perfuma,
nos eleva à patente mais alta!

07/05/2019

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Mantra

Sussurro teu nome
ao pé do ouvido
como a nenhum outro
por prazer.

Pelo prazer que consome
o simples estar contigo,
a água benta do bebedouro
do que tens a dizer.

Já que não importa se mereço,
é o som do que cai no meu regaço,
o estalo desta chama.

Porque ele é fim e também começo
que eu de todo abraço
como a teu corpo, nesta cama.

07/05/2019

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Ladrilhos

O caminho dos teus beijos
no meio
entre um e outro seio
até meu umbigo
fica comigo,
é uma gota de perfume
com a qual eu talvez nunca me acostume.
Perfume, é claro,
o mais caro
veneno dos desejos
da tua boca feita flor
para nada menos que canções de amor.

07/05/2019

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Sob o carvalho

Musgo!
Roça meu ombro,
nos meus dedos e enreda
e nos esconde...
Me acaricia
até chegar o dia
num piscar nunca brusco
em que de cima do monte
você me veste
para outro mundo que não este
onde não temo a queda.

02/05/2019

terça-feira, 7 de maio de 2019

On Andrew and devotion

Since I am pumped for #WastelandBaby, here comes a thread of thoughts I've been having over Hozier and his writing style, so don't mind me.

I noticed from the beginning that his songs tend to deal with love and desire related to devotion, I love that. Even his "I am idealizing this person" kind of songs carry a lot of that. Makes sense with him thinking of love like "I love you so by extension I hate the rest".

Of love as a violent act against the world because the person you love is all that matters. I quite like how he uses female references and pronouns for the sake of rhyme scheme so also this SHE could be me, you, anyone, no one, everyone, no matter their gender.

The people he describes are always sublime, that's so gothic and so absolutely how every woman should be seen as (or lover, you get the gist). Something not divine but that you look at and just stand in awe of. He also sometimes connects love and devotion with salvation.

His persona views his lover as someone sometimes more worth of worship in all their humanity than god, especially when sex is seen as sinful and/or nothing but a power play.

I don't care if the stories themselves arent his because the words are and if he chooses to tell this kind of story and with such care for imagery construction and the use of vocabulary... that says a lot.

He has stated time and again that making love/making babies/loving somebody is one of the most important things a person can do so. Yeah. I guess that's why his material resonates so much with me.

27/02/2019

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Poisonous

Let me confess
that I love it,
that I am a mess
and I crave it.

You and your freedom -
in drinking just a bit,
but a drop of it,
I'd embrace martyrdom.

30/04/2019

domingo, 5 de maio de 2019

Fadiga

Cansa, cara.
Cansa se ver envelhecendo em posição sentada
e ver que, mesmo por trás da bolha
que nunca foi minha escolha
o mundo parece tão previsível quanto uma escara,
parece que as pessoas não aprendem nada...

Cansa
ser o tempo todo a criaturinha mansa,
sem voz, sempre menina
e “nossa, que inteligente!”
repetindo para si mesma com o olhar para cima
que sim, é atraente,
poeta, mulher e leonina.

Cansa
que não percebam que algumas coisas não mudarão
e que até eu tive de aceitar;
que outras, não, eu não acho bonito ou engraçado
e não ousem rir amarelo, porque saberão;
nem toda pequenez é motivo de festança
e só cabe a mim me consertar,
eu sou o meu próprio fardo.

Como cansa
a infantilidade do tom e pergunta
de quem sempre vê criança,
mas juro que com o tempo a gente acostuma
porque a chance disso acontecer é tão maior que só uma,
às vezes várias destas vindo de forma conjunta
como os lugares que até espero que bem não receba
quem viva, coma, beije, beba,
menstrue ou não, conheça ou padeça dos espermas,
mas não anda com as tuas pernas.

Ninguém sabe como a alguns cansa
quando só querer viver vira teste
sempre para nós, mas mais para o mundo
a cada segundo
servindo de lembrete ou lembrança
ou dádiva celeste.

30/04/2019

sábado, 4 de maio de 2019

Cortes

Sua Majestade, herdeiro da maré,
sopro de maresia.
Imperador dos bosques
que te abriram os braços
como um dia eu o fiz
e dono dos beijos do sol
que te igualam em fogo amado
a quem te trouxe aqui
em faces e batidas melenas...
Empresta-me teu ouvido!

Tu, com teu amor aprendido e declarado
pela beleza no que há
de selvagemente honesto
nos sons alados que ouves
e que te foram dados antes da palavra
e à quietude suave onde a chance te perde,
a mesma que o destino parece
ter dado aos teus olhos...
Atenta-te de corpo e gesto ao meu lamento!

Tu, partido por tantos desejado
em suas distâncias,
que anseia pelo amor de todo inocente
chegado às tuas mãos suaves -
senhor de honra e humilde orgulho
que não teme frio, fundura ou chama
pelo que tu e o povo merecem,
o que ainda não foi dito
com leveza e força em par
em terra, água doce e no mar...
Guarda-me um lugar aos teus pés!

Tu, que veneras eco e coração
vindo e trazido de mulher,
nunca acima ou abaixo
mas em círculo concebido
que reconhece e completa
em abraço de aceitação
nos mais doces termos,
como tu, vestidos de lua...
Toma minha pequenez entre as palmas!

Tu, que sem palavras guias
aqueles que caminham a teu lado
sob a neblina da busca
pela efêmera imortalidade
e a justeza de plebeus e príncipes,
a memória dos sinceros e leais
e do preço que eles pagam...
Põe gentileza neste meu corpo, nestes meus lábios!

Mestre dos toques etéreos ao nada,
dos dentes cerrados e muitas vozes
em que mesmo as palavras alheias
parecem que sempre te pertenceram.
Mesmo as minhas, que são nossas
por estarem no mel da tua língua...
Recebe-me de volta ao teu regaço!

Contempla teu beijo na minha mão e no meu verso!

26/04/2019

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Ingenuidade

Tão estranho
conhecer o amor
e mesmo depois de tal banho
sentir que não se sabe amar, minha flor...

25/04/2019

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Tesouro

Eu não preciso de luxo,
só daquele homem por perto
se assim ele quiser -
com tudo de errado e certo
na menina e na mulher.

De vai e vem em cada repuxo,
já que aqui permanecemos
pelo que pode nos tocar -
ora os versos que lemos e gememos,
ora as nossas mãos e as do mar.

De olhos que com a chuva chovam
de promessas suaves de amor
sussurradas num canto -
não por algum vazio e ônus da dor
e sim, nas respostas, o que há de santo.

De paciências e vozes que sorriam
ao bonito que é grande sendo pequeno
dentro do doce e da lembrança -
que sabem aquilo que prepara o terreno
para cada nova bonança.

25/04/2019

quarta-feira, 1 de maio de 2019

(Con)tato

No escuro
eu não minto
e esta é sua graça.
Te procuro,
adoro
e acho
em cada poro,
cada cacho,
por instinto
que revele e desfaça.

23/04/2019

terça-feira, 30 de abril de 2019

14/07/2017

(...)
Saber que isso foi algo
que partiu somente de mim
e que se fez tão grande e complexo
dentro de sua simples mediocridade
me aquece este coração gelado que
vez ou outra é derretido na quentura
das lágrimas.
(...)

- trecho do meu diário

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Moved by Andrew's Movement

I’ve been slowly building a post pointing out which aspects regarding love, passion and devotion I notice throughout Hozier’s album “Wasteland, Baby!”. But truth is, the song Movement alone has impacted me in such a way as listener and poet myself that it doesn’t stop growing on me with each listen to the point of making me cry sometimes. So in the end I think it deserves its own post, because I could go on and on talking solely about this track and my regular posts would get even longer than the normal. Anyway, bear with me. :)

Through a series of fantastic metaphors, I sense a persona in complete state of awe and admiration for its object of affection; in which that person is so small against the bigger picture of the universe, yet gigantic and sublime by itself. Therefore, whether in motion of any sort or absolutely still, they always manage to shake the narrator to the core. Something beyond explanation.

Like Jonah, tiny compared to the ocean and the whale’s belly, but grand in his gift as prophet and his ability to prevail in life through stillness, faith and patience. Like the smooth water from a pool, able to be a mirror through which the narrator sees itself; and when whatever touches it and it moves, the waves themselves are a thing of grace to be beheld and cherished simply for what they are.

Like a willow tree, someone who is by nature imponent, especially once it reaches its true, final form; that may be battered by the wildest winds during storms or sweetly sway under the softest breezes, but whose roots keep it firm and strong on the ground in the end because that’s how things are. No matter how much the lyrical persona may try to compare its lover’s gracefulness, strength and delicacy to that of some of the best dancers in the world, it knows it won’t do them enough justice.

Like Atlas, who must stand still a lot because of the weight he carries on his shoulders. Because even in his sleep he is still strong, he is powerful, he is a titan, he does what needs to be done. He goes on with is burden throughout eternity without ever losing his dignity. Someone who reminds the narrator of all it can be and all it thought it had lost; who remains unapologetic no matter how flawed.

A person who can be as dark, scary and potentially destructive as the clouds that bring the storms, but that are fascinating and gracious and which change everything once they arrive. Literally a force of nature. A creature that makes you question everything you thought you believed in; who makes you see things as you’ve never had before. One that, like the birds-of-paradise, has colors like no other being and, as a bird, can do things others never will be able to, or at least not in the same way.

All I know is that the more I listen to this song, the more baffled I feel with what Andrew did here and I can’t even begin to imagine how it must feel/sound to be acknowledged and admired in such a degree by someone you love and respect. Just the metaphors by themselves and the way they were written and delivered are something I had never come across. I wouldnt know what to say. And of course it is how I wish everyone to be seen, for the fascinating universe that they are!

And let’s not even talk about the harmonies and instrumentation; it’s a track that from day one takes my breath away every single time. It’s a perfect match for the huge comparisons it presents to describe this precious being in all their grandeur both under the persona’s eyes and just for what it is. A beloved that shall be able to make it seem like time was suspended under its pull and echo from the heart long after either of them is gone. You just know it. At least I do, and it’s just beautiful.

15/04/2019

- postagem original aqui

domingo, 28 de abril de 2019

Aborto espontâneo

Certas coisas a gente mata
antes que nasça
por ser um tudo no fim sem nada,
para não ser só mais uma ilusão.

Pega pelos chifres e quebra a pata
por amor à pessoa amada
porque aqui não compensa a sensação
e, se a gente deixa, simplesmente passa.

Não tem de se tornar tempestade
que toma conta e não se evita
embora um dia termine,
não sem deixar algum estrago.

Arranca-se na raiz da verdade
sem pena, jogada a esmo no lago
que seria em si plena, mas desdita
ao vácuo de que se destine.

21/04/2019

sábado, 27 de abril de 2019

Film clichés

Why is it always the slow death
at the arms of a lover
with a smothered last breath
and not the other?

Why the one from which you burn
with a kiss of goodbye
but can never return
after another try?

Why the one with the longest wait,
the cause of the deepest despair,
and not the most welcomed weight
which at once blows and shortens the air?

16/04/2019

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Suspiro

As palavras doem.
Pois quem as ouviria
se fez de ninguém.
Pois, à minha revelia,
em si mesmas, doem.
Ao vazio eu canto
o que é quase pranto
mas em que ainda insisto
pelo eco frio
em cujo pio
se perca
e quem sabe se entenda,
seja bem quisto.

13/04/2019

quinta-feira, 25 de abril de 2019

O amor que ouves

Diga-me o que queres,
como amas as tuas mulheres...
Educa meus ouvidos
ao tempo de outros gemidos.
Ao tempo lânguido de como desejo ser amada
no escuro da noite ou antes de sua chegada.

13/04/2019

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Humility

Like most poets, I'm just a fool.
Despite my name, I don't claim any rule
over sounds that are not mine,
I just love this noise
and how it seems to grant me poise.
Yet today I take the gold
you dug from your mouth's shrine
with pleasure
to adorn not the skin, but my chamber's treasure,
the one you had foretold.

13/04/2019

terça-feira, 23 de abril de 2019

Breve retorno

Antes que se deite,
saiba que também és deleite.
Talvez tão mais doce
que a posse
de um pedaço
do lar
que aqui fora
não se pode achar
tão fácil
quanto por isso
caberes no meu abraço...

11/04/2019

segunda-feira, 22 de abril de 2019

02/04/2019

Não é porque não o expresso em palavras que ele não existe. Não é porque acabou e portanto não durou para sempre que não tenha sido real. Não é porque alguns falam dele com tanta facilidade que eu tenha mentido quando disse as palavras. Não é porque elas me saem mais confortavelmente em tinta e sons que não são meus que elas possuem menos significado, ou que tenham sido ditas em vão.

domingo, 21 de abril de 2019

Gênesis

Feita na quietude,
no silêncio
da solidão,
em casa,
com a mão
esperando a hora certa
em que desperta
e bate asa,
canta,
não é mais nossa,
mas o que o mundo quiser e possa.

11/04/2019

sábado, 20 de abril de 2019

Jeito de amar

Todos os que amei
e não me amaram
me ensinaram
sobre o amor.

Principalmente a dar valor
a segredo guardado,
a quem podia ter sido amado
e tarde demais reparei.

A quem se faz presente
amando até o que não sabe
até o momento em que se abre
do jeito que vier, meu bem.


09/04/2019

sexta-feira, 19 de abril de 2019

09/04/2019

Sabe por que que parece que o amor e a amizade verdadeiros acabaram? Porque as pessoas estão escancaradamente narcisistas e cheias de dedos. E as companhias certas, que nos fazem crescer, estão perdidas nesse mar. Por isso a solidão às vezes tão grande.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Método

Tudo o que dizes
com o coração
é maior que todos os deslizes
por ser ponte
que te traz à frente
e nos aproxima
na repetição
como de uma oração,
te elevando muito mais acima...

09/04/2019

quarta-feira, 17 de abril de 2019

08/04/2019

Eu aprendi que produzir arte
e espalhá-la
é uma grande aposta
de "diga-me como seus olhos
olham através do meu espelho"
e esta é a parte divertida.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Vácuo milenar

Tive certeza
do vazio e descrença
da minha geração
quando a ouvi no quarto em escuridão
na voz de uma amiga de infância
que se pergunta o que hoje nos sobra
na discrepância
de lutar pelo que a vida cobra
e ao mesmo tempo sentir o vazio.

O vazio de dedos apontados
por causa de caminhos que não eram os esperados
mas não cabe a ninguém julgar
pois cada um tem o seu.
Na minha medida,
o sentimento também é meu,
mas eu nos olho e tenho orgulho.
Somos flor que cresce e cresceu em pedregulho,
no caos e na sua beleza.

Eu tenho toda a certeza
de que o amor e a verdade
estão mais perto do que a gente pensa;
não são causa assim tão perdida.
Quem foi embora virou memória,
mas, querida, estamos aqui agora!

09/04/2019

segunda-feira, 15 de abril de 2019

08/04/2019

Saudade aparece do nada, até quando a gente acha que já superou, que talvez já não esteja mais doendo tanto. Sempre dói justamente pela memória, por causa do "ah, queria que tu estivesse aqui" pra chorar ou pra rir da piada ou da lembrança comigo. Ainda mais quando a pessoa que se foi realmente poderia ter ficado mais um pouco.

domingo, 14 de abril de 2019

07/04/2019

(...)
Já que ainda estou na fronteira,
minha missão por enquanto
é provavelmente falar sobre
o que é andar com um pé
de cada lado, entre o idioma
que sempre foi meu e a
beleza de outro que compreendo,
mas que ainda não absorvi.

- trecho do meu diário

sábado, 13 de abril de 2019

Movimento circular

Mulher,
eu aceito teu desafio
a sangue frio.

Vem com teu poder
de dar coração
a uma canção.

E eu tentarei prever
o início e o final
do abstrato desigual.

07/04/2019

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Chamamento

Eu amo como o amor perdura
na tua boca, na tua tinta,
nessa língua sucinta
cheia de ternura...

Como ele sussurra
e meus olhos se fecham
e sobre mim ele desliza,
me circunda...

Mel, criança pequena
que vem e eu sempre volto
apesar do coração solto,
sem nunca fazer cena...

07/04/2019

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Dedication

I just wish, who am I to demand?
But the rest of it is on your hand.

This bleedy heart, still beating.
Yes, love, I'll take it.
A chalice of tears, leaking.
Yes, honey, I'll drink it.

The holy bread
and the sacred wine
that remain in your stead
once we are fed
and recline.

This is what you give
in order to die
for every lie
but still live.
With a smile, I cry.

That is why.
It is for the sacrifice
that we roll the dice
and bet for the sky.

07/04/2019

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Yet another Armageddon

The flames lick us a fate.

Forcing us into a new birth
of ashes under cold, dark water
with all the things that still matter
in this wretched Earth.

Is it already too late?

While wait and fear
may make most drown,
we shall not let those before us down.
I the watcher, you the seer.

No one should abdicate.

Once all this becomes dust
and behind us approaches despair,
a chant, a song, a noise, a prayer
is gonna let us survive, for we must.

Is anyone left to cross the gate?

Layer upon layer, here we are again,
nothing inside our hearts but the notion
of the power in the smallest revolution
at the hands of the right woman and man.

06/04/2019

terça-feira, 9 de abril de 2019

Ruído branco

No canto das aves
amenas
em coro
não sei se escuto
teu choro
tentando ser mudo
ou se o confundo
com as tristezas graves
que ficam debaixo das penas.

06/04/2019

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Inundação

Me banhar,
afundar,
afogar,
apaziguar
até enrugar
nas tuas águas
um tanto frias aos lábios
feitas de tréguas
que não têm horário...

06/04/2019

domingo, 7 de abril de 2019

Dos lábios

Não os cubra,
muito menos nesta penumbra.
Em todo o seu áspero e pálido
doce gosto
e falta de hábito.
Seu calor tão claro
contra todo o resto suposto
que possa ter sido raro.

04/04/2019

sábado, 6 de abril de 2019

Canções

Teu nome repetido
em qualquer boca
não passa de gemido
até a hora em que me toca
e se torna dom
que o vento carrega em luz
desde o altar onde eu o pus
cheio de sangue e som.

04/04/2019

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Imperturbável

Como outras tantas,
quem me dera
a quimera
de ser o ser que tu cantas.

Que aos teus olhos eu seja tão vaga
mas tão forte
quanto a chama que não se apaga
nem mesmo à onda de maior porte.

E se não puder sê-la,
um dia encontrá-la em mim
ou talvez conhecê-la no fim de uma ruela
que não parece ter fim.

Para que minha alma devota
aprenda uma nova oração
deixada na ponteira de uma bota
para o fim do sermão.

04/04/2019

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Pausa

Talvez a vida
tenha que ser vivida
como quem tenta surfar
a nova onda do filme francês.

Dotado de tempo e ciência
das demoras e com paciência
ler as falas de um olhar,
cada um à sua vez.

Em que todo caminho
é feito de mão dada, devagarzinho -
poemas somem e só há o amar
com tudo o que por ele se fez.

04/04/2019

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Imperfeito

Perdoa
a minha tolice de não te amar
pelas razões certas...

Que fazem com que tudo se mova
mais gracioso que o ar
aos olhos mais alertas...

E se vier a chuva,
ensina-me a escutar -
deixemos as portas abertas...

03/04/2019

terça-feira, 2 de abril de 2019

01/04/2019

Mesmo com toda a prática
do mundo,
uma pessoa só consegue
ver se está melhorando
ao colocar isso
à prova.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

01/04/2019

É interessante pensar no espelho como uma metáfora. O que vemos nele não é exatamente como nós e as coisas são - o que se vê é uma imagem invertida e muitas vezes distorcida e/ou aumentada. Bem como quando alguém nos olha, já que é o que nossa anatomia permite.

O espelho nos ajuda a selecionar e projetar para a imagem e a energia que queremos (ainda que de um modo basicamente visual e externo). Também é por causa dele que podemos nos olhar nos olhos e enfrentar as mudanças que nos acontecem. Ou não...

Não é à toa que algumas religiões muitas vezes os consideram portais para outros níveis astrais e de consciência.

- trecho do meu diário

domingo, 31 de março de 2019

Casual softness

Why does everything
got to be such a fuss
when it can be done softly,
no alarm,
as in I am here, my darling,
nothing but a bee's buzz.
With warmth, kindly,
for I mean you no harm...

These are key,
the things that mean so much,
the children of patience.
Coming and going so smoothly
they are barely noticed.
They are the ones who stay with me:
words, a touch,
a fond glance...

When mine and those other eyes
just happened to have found
the way to each other
and a pale hand against black jeans
staying there god knows how long
out of love, against the world's lies
and, almost not making a sound,
I wish you stayed longer
by whatever means,
just because you feel you belong...

31/03/2019

sábado, 30 de março de 2019

29/03/2019

A arte pode ter muitos
papéis e vozes e no fim
é o que é,
mas seu verdadeiro dever
é honestidade -
e honestidade é sempre um reflexo
do tempo, sentimentos e
mentalidade de alguém.
Por mais que ela possa
unir e por mais
que tentemos atribuir
funções a ela.

sexta-feira, 29 de março de 2019

17/02/2015

(...)
A verdade é que ninguém
vai dar a mesma
importância que eu
dou para as coisas.
E isso não é ruim.
(...)

- trecho do meu diário

quinta-feira, 28 de março de 2019

18/07/2018

(...)
Será que sei separar
o que é da carne
e o que é da alma?
E será que eu me renderia
aos dois lados
da moeda?
(...)

- trecho do meu diário

quarta-feira, 27 de março de 2019

In metaphor

Of course I am a poet.
How could I doubt
my every secret
and passion that gasps for air
among tears and smiles -
happy ones
or sad in their turns
almost always making sense
only when spilled out
under the pretense
of another skin it can touch and compare?

27/03/2019

terça-feira, 26 de março de 2019

26/03/2019

"É só pra ser do contra" 
é o tipo de coisa que pessoas que só aceitam
quando os outros concordam com elas 
falam de quem anda pelo que seria a "tangente" 
simplesmente porque tem a sua própria maneira de pensar.

segunda-feira, 25 de março de 2019

On Andrew and devotion II

Since Hozier’s sophomore album “Wasteland, Baby!” has been released on March 1st and has fortunately provided us with more material to dive into (also considering the songs present only in his “Nina Cried Power EP”), I felt it imperative to elaborate further on the connections I catch in his work regarding love, sex and a sense of devotion and salvation. This time with actual examples! It’s always a pleasure for me to write with him in mind, considering how deeply and fondly his songs touch me.

Bear in mind that everything I say both here and in my previous post are thoughts that rely on my own understanding of the lyrics and the stories they tell, as well as Hozier’s personal ideas during the process of writing them, with which I tend to agree. However, they don’t exclude any other possible interpretation of the words! One of the things I love the most on Andrew’s lyrical prowess is his ability to write lines with multiple layers. :)

Trying to follow the same rationale I used previously and the importance Andrew gives to love and sex as parts of the human experience, I think I should begin with the songs from his first album. To mention at least the ones where I sense these feelings more prominently (but of course they spread in different amounts and ways throughout his entire discography).

I agree with him and, starting from “Jackie and Wilson”, I see a lyrical persona looking at someone and projecting its longings into that person. Someone it would have adventures with, that would be accepting, caring, welcoming, that could save it from itself. And since the world is a place it feels itself outcast from in some way, they would abandon all the rest and feed only off the love they had for each other, and that’s okay. The catch here is that this persona does not take the first step to tackle the dreamed lover, and the possibility of it ever becoming true vanishes when they leave… Until the next one walks into the bar and the cycle of one-sided devotion starts over.

In “Someone New” I sense a naive, lonely heart that falls in love way too easily. It craves beauty and love and excitement and attention. It sees those aspects in everything and everyone. The catch might be that it doesn’t really experience real, durable feelings, but rather the fast flame imagination and desire easily provide, but take away with the same hand. It tries to fool itself into not needing something solid, when it’s what everyone deserves, and therefore plays with its own life and the lives of others through moments of shallow idealization and infatuation.

In “From Eden”, it was quite interesting to hear Andrew say he imagined it from the perspective of the Devil… Anyway, considering the Devil talking, it could be him looking at someone that is pure (or that he considers pure) and loving them, wanting to be close to them, because they remind him of who he once was. I can also read it as a persona finding what at least on the surface seems to be a kindred spirit - someone it could convince to share the light and dark both carry within.

As for “Take me to church”, I feel it as one of those songs where the mix of devotion and salvation seems evident - not that the others don’t have it as well. The persona here, in my eyes, aims to live as a free spirit and does not accept the way certain institutions use their influence to interfere in the relationship of two people (i.e. the Catholic Church). Therefore, it would rather renounce what they say is faith and pure and correct and redirect it all towards its lover, embracing everything good and bad that may come from it. Which explains the imagery of sacrifice to a divinity that is also incredibly human.

Moving to “Work Song” (one of my personal favourites), it seems to me that this persona feels saved because it was taken under the lover’s wing after some sort of terrible mistake was made - no questions asked, nothing requested in return. Nothing but a kind heart and a pair of kind eyes that saw beauty where the narrator thought there was none left. So as they fall in love over time, the narrator is compelled to express its gratitude with burning passion and unconditional love that could perhaps overcome even the inevitability of death.

In “To Be Alone”, I see not only one, but two damaged people relying on each other not to succumb to a trying world in trying times. Basking in intimacy, in spending time together. The lover might be even more damaged than the persona telling the story, but it doesn’t really matter - this is not a competition. They are not trying to fix each other. If all they can do is offer each other’s time and love and dedication in the form of presence, that’s what shall be done. Even if it doesn’t sound like much and just not to get even more hurt.

Through the fantastic “Cherry Wine” again I sense the draw to someone who seems fascinating, and whose pull is so strong the lyrical persona cannot help but still wholeheartedly devote itself to that person, even with the cheating and physical/psychological abuse it suffers and tries to ignore and cover up with pretty words. It just cannot find a way out of that because it is unable to find a reason why it should. It ignores everything bad for a love that is actually only one-sided. Sadly a reality to many a people out there.

The persona in “Like Real People Do” seems rather surprised to see this person digging a grave open at the wee hours, but at the same time is thankful that it is being done. I’m not sure if the persona is indeed the digger’s deceased lover and is falling in love with them again or if the random hole this person was digging ended up revealing a hollow grave, but anyway, there’s no way the next door “regular” person would go to such extents if the first option is the case. By asking a kiss from its digger/saviour, the narrator longs for love and everything else a normal, real person, deserves to have. The kiss is what finally gonna breathe life into what once was empty and dead. In my mind this final bit can perhaps also explain the song for anyone who doesn’t fancy the morbid Romantic imagery Andrew chose…

In “In A Week” Andrew describes what for me from one angle is an elaborate metaphor of two lovers basking in the moment they share and how it could be compared to a peaceful death. From another angle, my brain agrees with Andy and processes these two people having this moment in the woods and wondering what would happen if they died there. Going further and thinking of them as already dead, as corpses decomposing, they don’t seem to mind death and the natural, yet gruesome images it brings forth, because they are together, and it’s okay. Not even the very end could set them apart.

Well, I guess that’s what I could think of regarding the first album… See you all in the next post (because of course I’m gonna be talking about the new songs). Congratulations and thank you very much if you took the time to read it all! :]

23/03/2019

domingo, 24 de março de 2019

Feito no campo

Nenhum céu
pode me engolir.
Nenhum solo
pode me puxar.
Não quando este véu
está pronto para cair
e deixar de ser símbolo
aqui, visto do teu olhar.

Não quando este vento
jamais cantarola
para me dar o mesmo alento
que o perdido tem da bússola,
com este jeito e sentimento -
tua carícia na viola
e na nuca benzem qualquer aposento.

Não quando a alta grama
não nos fere com suas garras,
mas tampouco resiste ao verão que chama
o canto das cigarras
e a tantos se faz cama
quando tu, destino, vens e agarras.

Não quando o prateado escuro
depois da sombra dourada
não consegue ser tão puro
quanto lábio mordido e pálpebra fechada...
Não quando tudo o que procuro
é tua mão e mais nada -
esta que sabe de tudo
de onde pousa, delicada.

24/03/2019

sábado, 23 de março de 2019

Iniciação

No trem das dezesseis
em que o amor te beijava
pela primeira vez,
dali bem longe
o ônibus onze
levava
o que no fim me apaixonava
mais e mais a cada mês.

23/03/2019

sexta-feira, 22 de março de 2019

Do eu-lírico

Meio que me entristece que algumas pessoas parecem não entender que compositores e poetas nem sempre falam de experiências pessoais. Que cada canção/poema tem sua voz única da qual fala, e que ela nem sempre é a voz do próprio autor.

E mesmo quando algo é autobiográfico em qualquer nível, o trabalho continua a ter a sua própria perspectiva. Como poeta, eu entendo a mentalidade "estou contando uma história" pois eu mesma a utilizo.

Uma história que pode ou não ser escrita do que poderia ser do que poderia ser o nosso ponto de vista, e pode ou não ser uma que vivemos.

22/03/2019

quarta-feira, 20 de março de 2019

Dinner's behaviour

Beauty is curse to every maiden.
Causes some to leave behind their land
and have them damned
as prize to be taken.

Girls are taught well
men can be bad, can be unkind.
And there one day came to remind
her: stand your ground or stand in hell.

Have a plate at my table,
take your pick and eat it raw.
Quench your hunger to the law,
let us both write a fable.

Don't think I don't know your every desire,
deep underneath growing stark.
You cannot run away from the dark
as much as I from the fire.

But not even fear could kill pride -
the male weapon of attack, a woman's defense.
One dodges and gets tense,
tries to leave, tries to hide.

My dear, don't you find it boring
our diatribes and slaps in the face?
Just accept this game, this place,
all that makes it arousing...

When nothing is ever tender,
the only chance to gain a voice:
make him think you made a choice
out of lust, and surrender.

She tastes power: it is roasted and sweet,
like her flowers under sun and the grass so green.
Oh, my lady, there's a price to be queen -
fret not and take your seat.

17/03/2019

terça-feira, 19 de março de 2019

Magnetismo

Talvez a chave do encantamento
esteja no dividir um sentimento
dentro de um pouco do esquecimento
de olhar nos olhos e ao mesmo tempo
fechá-los e estar só consigo, no momento.

17/03/2019

segunda-feira, 18 de março de 2019

Righteous

I sang my affections away
from the top of the lungs today
like I used to do long ago
a lot because
you reminded me there's always good cause
in not overthinking, in just letting go
because the heart says so...

17/03/2019

domingo, 17 de março de 2019

In memoriam

No meu raro olhar para o céu
de sol e lua cheia
ainda me lembro
que, agora, isso é só meu.
A vida volta em setembro
e nem sempre é amarga e feia.

Só meu o sorriso deste agora
feito em prata, negro, azul e ouro
que só se consegue lá fora,
apaixona, de tão puro.

Perdoam o meu ficar aqui dentro,
cada medo e cada espera
trazida pela solidão.
Eles não duvidam do meu amor
tranquilo e sedento
renovado a cada era,
a cada estação.

17/03/2019

sexta-feira, 15 de março de 2019

quinta-feira, 14 de março de 2019

Pequenez

Eu não tinha esse peso,
assim como na lembrança
em que isso se enredou
e nas coladas nas paredes...
Tão mais leve, tão pequena
contra as costas
e sem precisar de respostas...

Talvez eu fosse mesmo criança
e não nos custasse querer um pouco mais,
menos ainda quando se sabe o caminho
e se lembra do carinho
que tanto faz se vem de amante ou amigo.

O fim nos dá a vista lá de fora,
a tudo o que nos pertence
quando chegada a hora
e ao olhar para ti, vi a mim
e o tamanho de dois num sonho
não era estranho,
era abrigo.

E um passarinho
veio da tua boca para minha mão -
um real ou imitação
tão maior quanto qualquer coisa ou qualquer um
é o imitar de algo ou alguém, nesse lugar.
Mas aves são imagem bem mais linda de se lembrar!
Era de mim que falavas, então?

Ser azul como na canção,
ido e vindo de coragem e mágica
cujo voo a ninguém faria mal
e não havia buraco, nem abismo,
nem pena
a não ser paz, idioma comum e cabeça diminuta
sobre ninho
de peito aceso...
Um afetuoso ganho.

13/03/2019

quarta-feira, 13 de março de 2019

Noli timere

I have loved before,
but from love I know no more
than you do.
I guess that makes us children
and therefore
they cannot blame us for
the euphoria
of an utopia
made of slow dances,
sounds and stolen glances
that everyone deserves.
And while it doesn't come
out of the foggy dream
to make us women,
all I have are my steem
and this poem to offer to you...

13/03/2019

terça-feira, 12 de março de 2019

Da meritocracia

A que ponto chegamos. Quando o diploma universitário em si é mais importante do que a oportunidade de obter educação superior. É o equivalente brasileiro às pessoas que compram seus diplomas sem terem tocado numa caneta enquanto tantos jovens pobres se matam estudando para tentar entrar na universidade.

Esse tipo de pessoa tem culpa pelo tipo de profissional que possui. Acredito em meritocracia a certo ponto especialmente quando olho para casos assim. A educação deve ser de graça e acessível a todos como exige a Constituição? Óbvio que sim - mas já que existem filtros como o exame vestibular para decidir quem entra e quem fica de fora a cada vez, prefiro entrar tanto por direito constituído como porque fiz o que tinha que ser feito.

Usando como exemplo aqueles que pagam gente para soprar-lhe as respostas e passar sem a mínima ideia do que está fazendo... Quem incentiva seus filhos a esse tipo de coisa não pode reclamar de atendimento desonesto e incompetente de uma parcela da força de trabalho quando alimenta tal sistema com essa mentalidade.

Outra razão para eu acreditar na meritocracia a certo nível é porque, sejamos francos, é basicamente assim que o mundo funciona. Ele não vai te dar nada de valor de graça ou com facilidade. Sem contar recursos básicos e direitos que devem ser concedidos e garantidos a todos, devemos lutar por todo o resto (de preferência com honestidade e sem passar por cima de ninguém).

Se é através de estudo e conhecimento que eu devo provar que naquele momento em particular mereço estar numa universidade, que seja! Trabalharei duro e obterei minha vaga.

12/03/2019

segunda-feira, 11 de março de 2019

Escapada

Talvez eu não quisesse
exatamente fugir.
E sim que tanto não doesse
tal existir
e admitir.

11/03/2019

domingo, 10 de março de 2019

Alienação

Prefiro não falar nada
sobre política
e parecer alienada
do que não saber do que falo,
então me calo
à discussão não aberta, que não é crítica,
que não acrescenta.

Prefiro ficar em cima do muro
e não escolher um lado
se ele for só esquerda
ou direita
indo ao extremo pelo pódio,
grito e resposta cheio de ódio
e perda -
nenhuma dessas rotas é perfeita.

Olhar pra frente num futuro
em que a gente
se respeita,
escuta e aprende
sem medo,
sem precisar apontar o dedo
com discurso meramente ecoado.
Quando se pensa no que é justo
e que ele vem com um custo.

10/03/2019

sábado, 9 de março de 2019

Andrew e a devoção

Já que estou empolgada por "Wasteland, Baby!", aí vai uma linha de raciocínio que venho tendo em relação a Hozier e seu estilo de escrita, então não se importem.

Notei do começo que suas canções tendem a lidar com amor e desejo relacionados a devoção, e adoro isso. Mesmos suas canções de "eu estou idealizando esta pessoa" carregam muito disso. Faz sentido com ele pensar no amor como "eu te amo, então por extensão odeio o resto".

No amor como um ato violento contra o mundo porque a pessoa que se ama é tudo o que importa. Gosto bastante de como ele usa referências e pronomes femininos pelo bem do esquema de rimas e assim esse ELA poderia ser eu, vocês, qualquer um, ninguém, todo mundo, não importando o seu gênero.

As pessoas que ele descreve são sempre sublimes, isso é tão gótico e tão absolutamente como qualquer mulher deveria ser vista (ou amante, vocês pegam a deixa). Algo não divino, mas com o qual apenas nos maravilhamos. De vez em quando ele também conecta devoção com salvação.

Seu eu-lírico vê seu amante como alguém às vezes mais digno de louvor em toda a sua humanidade do que Deus, especialmente quando sexo é visto como algo pecaminoso e/ou nada mais que um jogo de poder.

Não ligo que as histórias em si não sejam dele, pois as palavras são; e se ele escolhe contar esse tipo de história com tanto cuidado com a construção imagética e uso de vocabulário... Isso diz muito.

Ele já afirmou várias vezes que fazer amor/fazer filhos/amar alguém é uma das coisas mais importantes que alguém pode fazer, então... Sim. Acho que é por isso que o material dele me impacta tanto.

28/02/2019

- traduzido deste post (texto também original)

sexta-feira, 8 de março de 2019

Aprendizado

Dia desses, me chamaram Princesa
e gostei,
e sorri
embora saiba que beleza
é karma
e arma
que não se põe na mesa,
embora, às vezes, pague a despesa.

Talvez porque nunca foi
como eu realmente me senti,
algo que antes ouvi
e de que tento me lembrar,
e porque menina tem que ser educada,
é bem treinada
para dizer quase nada -
a tantas tanta coisa que importa
não é ensinada
mas precisa nas veias morar!

Ainda mais quando a superfície
para uns engana,
autoriza ego, canalhice
e o abrir da mão
quando na verdade, mana,
presta atenção
e se for o caso,
abre essa boca e grita não...
É só quando o silêncio nos arrepende
que a gente entende
que para ser tratada feito rainha
há o fardo
de não aceitar qualquer coisinha
e saber dar a resposta
certa que nem todo mundo gosta.

08/03/2019

quinta-feira, 7 de março de 2019

Nihilist protest

I need to do something
for some thing,
I really do.
Even if it's just loving you
and finding you a new home
in my heart, this fragile little dome
or a forgotten ceiling by the fire
if the world won't let you burn in a sacred pyre...

04/03/2019

quarta-feira, 6 de março de 2019

É isso

O mundo dividido em tantos pedaços, dilacerado, sem fazer sentido, mas o medo não é assim tão grande, pois ele se lembra. Lembra do poder das palavras e daqueles que vieram antes dele. Da beleza e importância de suas memórias para passado e presente - mesmo que nenhum futuro pareça visível.

Ele se espelha naqueles que ama e em sua devoção por eles para sentir que também é capaz de enfrentar as piores situações possíveis com tal força e dignidade e fazendo o possível pelo que considera certo.

Permite se libertar de toda e qualquer limitação social e pessoal para esperar o que tiver que ser enquanto segue cada desejo do corpo e do coração. Porque a escuridão há de chegar um dia e abraçar de vez a tudo - porém, estará ao lado de quem ama aceitando o caos dentro de si, do outro e de onde estão, porque é isso que basta. Quando o fim vem de verdade, planos e o medo da morte não têm mais razão de ser.

Tudo passa a gravitar em torno daquilo que possuímos e somos, principalmente quando conseguimos enxergar o belo e sublime dentro das maiores calamidades. Tanto já parecia perdido... No entanto, o amor era e ainda seria seu maior ato de desafio contra a situação à sua volta. A mais simples das ações ainda podia mexer com a estrutura do seu ser e elevá-la. É isso.

01/03/2019

terça-feira, 5 de março de 2019

Sentinela

Afogado
no grito calado
no fundo
de si e do mundo
ele vê, testemunha
e se atreve a dar alcunha
a um fim
de rosto sereno
em pleno
conhecimento de causa -
abraçar da besta
que vem pela fresta
e do mais importante
amor e chamado que segue adiante;
até o frio e a escuridão
de corpos em separação
do que costumava ser devoção
mas permanece aqui, como sua pausa,
presença
que faz do presente a única crença.

01/03/2019

segunda-feira, 4 de março de 2019

Hibernation

Chaos and cold
from all sides
like flames, like tides,
but I'll survive,
my body can endure
and all shall be well
with the cure
from your hell -
this you see is just flesh
for your echo to touch
and keep alive
somehow.
And with every midnight
and the recurrent deaths
I so well know
a soul shall no longer
be here
to hear how the ending winter has come.
Look at what you've done!

28/02/2019

domingo, 3 de março de 2019

19/03/2015

(...)
Tudo o que fiz,
deveria ter feito,
disse e deveria ter dito
paira sobre mim como uma
nuvem de tempestade.
(...)

- trecho do meu diário

sábado, 2 de março de 2019

05/11/2015

Todo mundo tem o seu
Retrato de Dorian Gray,
partes de si que não ousa revelar
nem a si mesmo...

sexta-feira, 1 de março de 2019

20 de março de 2015

As horas passam sem eu perceber, todas há muito parecendo tão iguais... Mesmo entre as paredes do meu quarto e a solidão que existe nelas, me questiono sobre as coisas que estão lá fora. Porque tenho sede desta vida e imagino o que o mundo tem a me oferecer.

Se terei coragem de vencer o medo e ir atrás. Temo o futuro por ele estar tão próximo e ao mesmo tempo tão distante. Ansiando o que ainda não vivi e lamentando o que podia ter vivido.

Por isso o processo de fazer planos me assusta tanto. Tudo muda muito rápido.

- trecho do meu diário

Os dias continuam os mesmos e ainda assim tanto já mudou

 Eu ainda moro na mesma cidade, na mesma casa, com os meus pais. Ainda não sei cozinhar. Não tive filhos, nunca me casei. Tenho dificuldade ...