É verdade
que não sou minha dor,
meu amor.
Mas talvez eu seja como ela,
à sua maneira ainda bela -
no fundo
tão cansada
do mundo
e ainda a mesma,
comendo da minha mesa
por medo, conforto e vaidade.
Cheia de um tudo que não leva a nada,
e nada ganha
a não ser minha raiva
acumulada
e uma voz gritada
e fanha
até que me lembras
com pôres-de-sol e poemas
que estou viva,
tão viva, apenas.
3 de setembro de 2019
sexta-feira, 6 de setembro de 2019
quinta-feira, 5 de setembro de 2019
Réquiem
Se de mim antes te fores,
só eu sei do meu luto,
da dimensão das dores,
embora não saiba do tamanho do tudo.
Acho que terá sido
como se um afetuoso irmão
ou um devotado marido
que guarda meu coração
no cuidado das mãos, consigo
tenha de repente partido
levando tanto de querido.
Talvez nem tanto importe
o que seja o algo
que para minha sorte
te dê ares de fidalgo.
E sim o que há de ficar comigo
da tua vontade e destemor
que cumpre de nós o destino
quer onde alma ou corpo for
nos dando tudo de mais amado,
elevado e felino
em bênção e castigo.
O prazer da tua palavra ao lado.
3 de setembro de 2019
só eu sei do meu luto,
da dimensão das dores,
embora não saiba do tamanho do tudo.
Acho que terá sido
como se um afetuoso irmão
ou um devotado marido
que guarda meu coração
no cuidado das mãos, consigo
tenha de repente partido
levando tanto de querido.
Talvez nem tanto importe
o que seja o algo
que para minha sorte
te dê ares de fidalgo.
E sim o que há de ficar comigo
da tua vontade e destemor
que cumpre de nós o destino
quer onde alma ou corpo for
nos dando tudo de mais amado,
elevado e felino
em bênção e castigo.
O prazer da tua palavra ao lado.
3 de setembro de 2019
quarta-feira, 4 de setembro de 2019
Point blank
When all the noise was said and done,
I gave him my chance
to be more than one word and glance.
I sat down and listened to him,
let him shoot with another gun.
Before I knew, he was under my skin
as a beloved partner
in our beautiful private conversation
in which one is dedicated gardener
and the other
looks at every flower
with a smile of adoration.
2 de setembro de 2019
I gave him my chance
to be more than one word and glance.
I sat down and listened to him,
let him shoot with another gun.
Before I knew, he was under my skin
as a beloved partner
in our beautiful private conversation
in which one is dedicated gardener
and the other
looks at every flower
with a smile of adoration.
2 de setembro de 2019
terça-feira, 3 de setembro de 2019
Of hunter and prey
Okay.
As you wish, young wolf.
I've never sung very loud, anyway...
I don't sing well, I was told,
but one day I might grow bold
and believe otherwise, if you so say...
2 de setembro de 2019
As you wish, young wolf.
I've never sung very loud, anyway...
I don't sing well, I was told,
but one day I might grow bold
and believe otherwise, if you so say...
2 de setembro de 2019
segunda-feira, 2 de setembro de 2019
Ergo sum
Eu a tomo nos braços
para que aqui fique,
mesmo que dos desejos
talvez eles tenham ficado fracos
e para que não se sacrifique.
Os nossos versos
a nós dois parecem distantes,
um pouco por falta de jeito
e outro por pertencerem a ouvidos amantes
bafejados contra o peito...
Mas neles continuamos imersos
como se faz com os beijos.
2 de setembro de 2019
para que aqui fique,
mesmo que dos desejos
talvez eles tenham ficado fracos
e para que não se sacrifique.
Os nossos versos
a nós dois parecem distantes,
um pouco por falta de jeito
e outro por pertencerem a ouvidos amantes
bafejados contra o peito...
Mas neles continuamos imersos
como se faz com os beijos.
2 de setembro de 2019
domingo, 1 de setembro de 2019
Sem planos
Talvez um pássaro
agora tenha um lugar seguro -
um momento tão raro,
um presente tão puro...
Tão vulnerável e felina
mas aqui contigo e viva -
a um só tempo mulher e apenas menina
mais orgulhosa a cada tentativa...
31/08/2019
agora tenha um lugar seguro -
um momento tão raro,
um presente tão puro...
Tão vulnerável e felina
mas aqui contigo e viva -
a um só tempo mulher e apenas menina
mais orgulhosa a cada tentativa...
31/08/2019
sábado, 31 de agosto de 2019
Intenções
Ainda me lembro
de como o tempo
deixou teus escuros
tão grandes,
opacos,
infinitos,
talvez cheios dos meus não-ditos,
como negros-buracos...
Quem dera derrubar meus muros
e quem sabe recolher meus cacos.
31/08/2019
de como o tempo
deixou teus escuros
tão grandes,
opacos,
infinitos,
talvez cheios dos meus não-ditos,
como negros-buracos...
Quem dera derrubar meus muros
e quem sabe recolher meus cacos.
31/08/2019
sexta-feira, 30 de agosto de 2019
The truth I know
Ah, if only he could know
that in summer, spring, winter and fall
he's fairer than any bold girl
who dares to carry the name of the Snow...
30/08/2019
that in summer, spring, winter and fall
he's fairer than any bold girl
who dares to carry the name of the Snow...
30/08/2019
quinta-feira, 29 de agosto de 2019
Faísca
Será que o fogo sabe
da parte de si
que tem nome e arde
desde sempre dentro de mim?
29/08/2019
da parte de si
que tem nome e arde
desde sempre dentro de mim?
29/08/2019
domingo, 25 de agosto de 2019
Inside out
You don't know what you crave
until it tears you apart
and pretending becomes an art
you take with you to the grave.
25/08/2019
until it tears you apart
and pretending becomes an art
you take with you to the grave.
25/08/2019
quarta-feira, 21 de agosto de 2019
Forest fire
May the wind spread your ashes
so that they know who you were
as you scream "this is on you, sir",
when dispair comes and tooth clashes.
21/08/2019
so that they know who you were
as you scream "this is on you, sir",
when dispair comes and tooth clashes.
21/08/2019
segunda-feira, 19 de agosto de 2019
Testimony
Sunrise or sunset, you ask?
The answer is sunset,
an easy task,
but why?
For it is the gods' blood fillet
in the sky.
I never had to be told
that before the night
its touch, in all its might
sets fire to the world
and even men turn into liquid gold.
19/08/2019
The answer is sunset,
an easy task,
but why?
For it is the gods' blood fillet
in the sky.
I never had to be told
that before the night
its touch, in all its might
sets fire to the world
and even men turn into liquid gold.
19/08/2019
sábado, 17 de agosto de 2019
Pétalas
Bem-me-quer
ou mal-me-quer,
mel da boca
da tua mulher?
Eu bem-te-quero
com tanto esmero,
ainda fico louca
porque aqui te espero!
Que sempre diz
que bem-me-quis
desde o começo...
Não escapa-me por um triz.
É só o que te peço.
17/08/2019
ou mal-me-quer,
mel da boca
da tua mulher?
Eu bem-te-quero
com tanto esmero,
ainda fico louca
porque aqui te espero!
Que sempre diz
que bem-me-quis
desde o começo...
Não escapa-me por um triz.
É só o que te peço.
17/08/2019
sexta-feira, 16 de agosto de 2019
Cookies and cream?
Corri até a porta depois de ouvir a campainha e o que vi me intrigou. Era uma menina de uns 8 anos; olhos inquietos, o cabelo comprido puxado num coque seguro por um elástico mais bem-feito do que eu jamais havia conseguido ou conseguiria sozinho. Poderia ter ficado com inveja se gastasse mais tempo com o que tenho, mas não significava que não achava bonito. Provavelmente ou não ela fazia balé e aquilo era tão natural quanto o passar das horas.
Era pleno verão, então não fazia sentido perguntar o que ela fazia fora da escola. Quando descansei as mãos na soleira da porta, percebi que a pequena segurava caixas contra o corpo. Assim que levantou os olhos para mim, ensaiou um sorriso de dentes grandes.
- Awn, bom dia para você, senhorita. O que posso fazer por você?
- Como vai, senhor? – rápida mudança para tentativa de tom profissional e persuasivo. – Queria saber se não gostaria de alguns biscoitos neste belo dia. – A menina me indicou as caixas, abaixando a cabeça e cortando contato visual. Não é comum ver crianças vendendo biscoitos de porta em porta por aqui, mas quem sou eu para questionar?
- Prazer em conhecê-la. Biscoitos caseiros, é isso? – ela fez que sim e algo me disse que isso facilitaria as coisas para ela, então me aproximei mais da beira do degrau e me agachei, pensando um pouco comigo mesmo. Eu estava prestes a fazer chá, então disse que daria uma olhada e apanhei a caixa para espiar o conteúdo.
- FILHOOOOOO!! O CHÁ ESTÁ PRONTO!! – gritou minha mãe da cozinha.
- JÁ VOU, MÃE. – Virei-me para a menina. – Então. Seus biscoitos parecem deliciosos, hein? – ela deu uma risadinha satisfeita, meneando a cabeça. Claro que eu estava sendo educado, mas também era verdade. Acrescentei que compraria todos, já que pelo jeito só haviam três caixas.
- Mesmo? – o sorriso que vi no início se alargou.
- Isso aí. – Verifiquei a carteira e para meu alívio o valor que eu tinha na hora dava exato. Não queria incomodá-la tendo que contar troco. – Uma para minha mãe e meu pai, uma para o meu irmão e outra para o chá.
- Obrigada, moço alto! – Ela apanhou o dinheiro, se afastando, e foi nessa hora que me dei conta de que não havia me apresentado nem perguntado seu nome, então apenas ri e acenei adeus por ora. Ela provavelmente morava perto e talvez nos cruzássemos na rua de novo.
- Onde diabos você estava, menino? O chá está esfriando! – exclamou minha mãe ao se aproximar. Eu fechei a porta e mostrei-a as caixas de biscoito.
- Não faz mal, mãe. Vamos comer uns biscoitos. E esta outra caixa é para a senhora.
- Ah, muito obrigada... – ela fez uma pausa, me olhando enviesado. – Mas e o seu pai?
Eu dei de ombros com uma risada abafada.
- Isso é com você. Quer saber? Não vou mais dar a outra caixa para o João...
- Por quê?
- Aquele puto roubou minhas meias de novo.
- PFFFFFFTTT oras. Biscoitos, então. – Minha mãe gesticulou no ar, já voltando na frente para a cozinha. – Sugiro que você esconda bem essa coisa. Você sabe o quanto seu cachorro é sorrateiro e eu não o quero espalhando farelos no meu chão. – Ela cacarejou uma risada.
- Mentira! Ele é um bom rapaz. – Protestei ao puxar uma cadeira e sentar.
- Diz isso porque viaja muito e não o vê tanto assim. Você é o bom rapaz, não ele. – Minha mãe sacudia a cabeça enquanto colocava a chaleira de volta ao fogo.
A borda da caixa meio mastigada e os farelos debaixo da minha cama no outro dia só reforçaram a minha teoria de que os cães são os piores guardadores de segredo do mundo...
Era pleno verão, então não fazia sentido perguntar o que ela fazia fora da escola. Quando descansei as mãos na soleira da porta, percebi que a pequena segurava caixas contra o corpo. Assim que levantou os olhos para mim, ensaiou um sorriso de dentes grandes.
- Awn, bom dia para você, senhorita. O que posso fazer por você?
- Como vai, senhor? – rápida mudança para tentativa de tom profissional e persuasivo. – Queria saber se não gostaria de alguns biscoitos neste belo dia. – A menina me indicou as caixas, abaixando a cabeça e cortando contato visual. Não é comum ver crianças vendendo biscoitos de porta em porta por aqui, mas quem sou eu para questionar?
- Prazer em conhecê-la. Biscoitos caseiros, é isso? – ela fez que sim e algo me disse que isso facilitaria as coisas para ela, então me aproximei mais da beira do degrau e me agachei, pensando um pouco comigo mesmo. Eu estava prestes a fazer chá, então disse que daria uma olhada e apanhei a caixa para espiar o conteúdo.
- FILHOOOOOO!! O CHÁ ESTÁ PRONTO!! – gritou minha mãe da cozinha.
- JÁ VOU, MÃE. – Virei-me para a menina. – Então. Seus biscoitos parecem deliciosos, hein? – ela deu uma risadinha satisfeita, meneando a cabeça. Claro que eu estava sendo educado, mas também era verdade. Acrescentei que compraria todos, já que pelo jeito só haviam três caixas.
- Mesmo? – o sorriso que vi no início se alargou.
- Isso aí. – Verifiquei a carteira e para meu alívio o valor que eu tinha na hora dava exato. Não queria incomodá-la tendo que contar troco. – Uma para minha mãe e meu pai, uma para o meu irmão e outra para o chá.
- Obrigada, moço alto! – Ela apanhou o dinheiro, se afastando, e foi nessa hora que me dei conta de que não havia me apresentado nem perguntado seu nome, então apenas ri e acenei adeus por ora. Ela provavelmente morava perto e talvez nos cruzássemos na rua de novo.
- Onde diabos você estava, menino? O chá está esfriando! – exclamou minha mãe ao se aproximar. Eu fechei a porta e mostrei-a as caixas de biscoito.
- Não faz mal, mãe. Vamos comer uns biscoitos. E esta outra caixa é para a senhora.
- Ah, muito obrigada... – ela fez uma pausa, me olhando enviesado. – Mas e o seu pai?
Eu dei de ombros com uma risada abafada.
- Isso é com você. Quer saber? Não vou mais dar a outra caixa para o João...
- Por quê?
- Aquele puto roubou minhas meias de novo.
- PFFFFFFTTT oras. Biscoitos, então. – Minha mãe gesticulou no ar, já voltando na frente para a cozinha. – Sugiro que você esconda bem essa coisa. Você sabe o quanto seu cachorro é sorrateiro e eu não o quero espalhando farelos no meu chão. – Ela cacarejou uma risada.
- Mentira! Ele é um bom rapaz. – Protestei ao puxar uma cadeira e sentar.
- Diz isso porque viaja muito e não o vê tanto assim. Você é o bom rapaz, não ele. – Minha mãe sacudia a cabeça enquanto colocava a chaleira de volta ao fogo.
A borda da caixa meio mastigada e os farelos debaixo da minha cama no outro dia só reforçaram a minha teoria de que os cães são os piores guardadores de segredo do mundo...
15/08/2019
quarta-feira, 14 de agosto de 2019
Senhoria
Ei,
meu bem,
sou tua e apenas tua
pois assim o desejei
e enquanto for tua
não serei de mais ninguém.
14/08/2019
meu bem,
sou tua e apenas tua
pois assim o desejei
e enquanto for tua
não serei de mais ninguém.
14/08/2019
sábado, 10 de agosto de 2019
Bianca e o pássaro azul - excerto
Mais um dia como qualquer outro acabando, o sol se pondo devagar lá fora e Andrea lendo à luz baça da lamparina. Algum tempo depois, fechou o livro marcando a página com um dedo e foi até a janela para abri-la e deixar um pouco de ar entrar. Quase que imediatamente, um corvo pousou no parapeito e olhou para ele com olhinhos curiosos, o que o assustou.
- Eu já sei, desgraçado! – exclamou ele num ímpeto de fúria. Usou o livro para enxotar a ave dali e se ouviu xingando debaixo da respiração. Não precisava de um lembrete assim tão óbvio.
Andrea nunca tivera medo da morte, nem do que pudesse encontrar do outro lado, se é que havia alguma coisa. O ser cíclico e temporal como o resto todo à sua volta era o mais lindo e sublime na sua espécie. Mas ele sabia do preço a pagar por tentar barganhar com aquilo que considerava mais natural. No entanto, não se arrependera e não desistiria até conseguir seu objetivo.
Sentou-se novamente na cadeira de balanço, abrindo outra vez o volume antigo sobre a perna cruzada. Quando seus olhos focaram no poema quase da sua idade e ele notou do que se tratava, riu sacudindo a cabeça diante da ironia das coisas. O texto descrevia um eu-lírico inconformado com a morte da pessoa amada desde os tempos de criança, recusando-se a sair de perto do túmulo e do cemitério, mesmo com a desaprovação do clero local. Considerando suas circunstâncias, seu estômago embrulhou-se e sentiu dores de cabeça.
Ele fechou os olhos devagar e aos poucos pegou no sono; a cabeça contra o espaldar da cadeira num ângulo agudo que lhe esticava o pescoço e o gentil vai-e-vem do corpo no empurrar do pé que estava no chão. Porém o que lhe vieram não foram sonhos agradáveis, e sim uma sucessão de memórias picotadas e borradas, mas muito vívidas, de tudo o que o levara a estar onde estava.
As visões ficaram um pouco mais nítidas conforme mostravam a passagem do tempo em que Andrea crescia e saía de casa para seguir o que sabia ser seu destino e vocação; sempre com muito trabalho e ocasionalmente com o que alguns chamariam de sorte e uma pitada de bênção daqueles que vieram antes dele... Até chegarem ao ponto crucial.
O rapaz era acolhido em suas andanças e ânsia por aprender na casa de uma anciã sem marido nem filhos que se tornaria uma das pessoas que ele mais respeitava e admirava, em termos de personalidade, trabalho e das coisas vistas e experimentadas. Logo os vizinhos passaram a referir a Andrea como seu neto adotivo, principalmente quando os viam andar de braços dados em direção ao mercado ou ao bosque. Nenhum dos dois parecia se importar de dizer o contrário.
Até que, na noite mais escura e silenciosa de que consegue se lembrar, ele rapidamente se viu contorcido na cama do quarto de hóspedes, ardido de febre entre lençóis encharcados de suor que lhe pinicavam a pele com a sensação de que estava deitado sobre uma fogueira. Entre períodos de semiconsciência, tentava consolar a mulher iluminada que chorava em sua cabeceira enquanto soprava fumaça de sálvia queimada em sua direção e lhe impunha suas mãos sábias sobre a testa e o coração. Tudo aconteceu tão inesperadamente que nem mesmo Andrea sabia explicar o que acontecia em seu corpo.
“Meu menino, meu amigo... Você ainda tem tanto a fazer, não pode ir embora agora... Resista e fique, jovem filho das flores.”
“Não chore, Senhora... Eu não partirei... Enquanto tiver a honra da sua palavra e companhia...”
“A honra é minha, rapaz. Você sabe disso. Queria poder fazer mais por você...”
Andrea teve um ataque de tosse e cuspiu um filete de sangue entre os dentes trincados pelos calafrios. Limpando a boca agora pintada de vermelho nas comissuras e na área de transição dos lábios o melhor que pôde, acariciou a mão em seu peito com um sorriso torto e um tanto triste.
“A Senhora sabe que pode. Eu nunca lhe pedi nada a não ser abrigo, comida e orientação. Então não há de negar o último querer de um moribundo, não é?”
“Qualquer coisa, Dea.”
Ele engoliu em seco. Mal sentiu quando ela lhe afastou um cacho suado do rosto.
“Uma colher daquilo que a Senhora me ensinou a fazer, mas a nunca usar. Uma já basta.”
A mulher prendeu a respiração pelo que pareceu muito tempo enquanto ele falava e mesmo depois, absorvendo a informação.
“Tem certeza, filho?”
Andrea virou a cabeça no travesseiro com um movimento brusco e uma careta de dor.
“É o único jeito.”
Mais ou menos meia hora depois, a mulher voltou para um Andrea exausto e fraco com um frasquinho minúsculo decorado de filigranas e uma colher de sopa. Cutucou-o gentilmente; o medo dissipou dentro dela quando ouviu o ronronar suave da respiração e o lento abrir de seus olhos. Apesar de ser pequenina perto de Andrea, teve força para segurá-lo meio sentado na cama e esvaziar o frasco na colher e depois nos lábios do moço. Ele tomou a poção com a gratidão, lágrimas nos olhos e a obediência de uma criança, muito embora aquilo tivesse a textura e gosto de veneno ácido.
Sua visão ficou turva de repente, cortando para uma imagem da mesma senhora sorrindo de orelha a orelha ao vê-lo em pé novamente, ainda que com um grau de preocupação na expressão. Cortou novamente mostrando-lhe o bater de asas de um tordo marrom para a escuridão do bosque e outra vez para sua mentora afagando seu rosto e a barba por fazer, a mão descansando na gola da camisa enquanto conversavam à mesa... E virando devagar para seu pescoço. Ele acordou sobressaltado e sem ar, como se o houvessem estrangulado; a última coisa que se recorda de ter visto era o rosto de Dona Bianca por detrás de mechas de cabelo.
- Eu já sei, desgraçado! – exclamou ele num ímpeto de fúria. Usou o livro para enxotar a ave dali e se ouviu xingando debaixo da respiração. Não precisava de um lembrete assim tão óbvio.
Andrea nunca tivera medo da morte, nem do que pudesse encontrar do outro lado, se é que havia alguma coisa. O ser cíclico e temporal como o resto todo à sua volta era o mais lindo e sublime na sua espécie. Mas ele sabia do preço a pagar por tentar barganhar com aquilo que considerava mais natural. No entanto, não se arrependera e não desistiria até conseguir seu objetivo.
Sentou-se novamente na cadeira de balanço, abrindo outra vez o volume antigo sobre a perna cruzada. Quando seus olhos focaram no poema quase da sua idade e ele notou do que se tratava, riu sacudindo a cabeça diante da ironia das coisas. O texto descrevia um eu-lírico inconformado com a morte da pessoa amada desde os tempos de criança, recusando-se a sair de perto do túmulo e do cemitério, mesmo com a desaprovação do clero local. Considerando suas circunstâncias, seu estômago embrulhou-se e sentiu dores de cabeça.
Ele fechou os olhos devagar e aos poucos pegou no sono; a cabeça contra o espaldar da cadeira num ângulo agudo que lhe esticava o pescoço e o gentil vai-e-vem do corpo no empurrar do pé que estava no chão. Porém o que lhe vieram não foram sonhos agradáveis, e sim uma sucessão de memórias picotadas e borradas, mas muito vívidas, de tudo o que o levara a estar onde estava.
As visões ficaram um pouco mais nítidas conforme mostravam a passagem do tempo em que Andrea crescia e saía de casa para seguir o que sabia ser seu destino e vocação; sempre com muito trabalho e ocasionalmente com o que alguns chamariam de sorte e uma pitada de bênção daqueles que vieram antes dele... Até chegarem ao ponto crucial.
O rapaz era acolhido em suas andanças e ânsia por aprender na casa de uma anciã sem marido nem filhos que se tornaria uma das pessoas que ele mais respeitava e admirava, em termos de personalidade, trabalho e das coisas vistas e experimentadas. Logo os vizinhos passaram a referir a Andrea como seu neto adotivo, principalmente quando os viam andar de braços dados em direção ao mercado ou ao bosque. Nenhum dos dois parecia se importar de dizer o contrário.
Até que, na noite mais escura e silenciosa de que consegue se lembrar, ele rapidamente se viu contorcido na cama do quarto de hóspedes, ardido de febre entre lençóis encharcados de suor que lhe pinicavam a pele com a sensação de que estava deitado sobre uma fogueira. Entre períodos de semiconsciência, tentava consolar a mulher iluminada que chorava em sua cabeceira enquanto soprava fumaça de sálvia queimada em sua direção e lhe impunha suas mãos sábias sobre a testa e o coração. Tudo aconteceu tão inesperadamente que nem mesmo Andrea sabia explicar o que acontecia em seu corpo.
“Meu menino, meu amigo... Você ainda tem tanto a fazer, não pode ir embora agora... Resista e fique, jovem filho das flores.”
“Não chore, Senhora... Eu não partirei... Enquanto tiver a honra da sua palavra e companhia...”
“A honra é minha, rapaz. Você sabe disso. Queria poder fazer mais por você...”
Andrea teve um ataque de tosse e cuspiu um filete de sangue entre os dentes trincados pelos calafrios. Limpando a boca agora pintada de vermelho nas comissuras e na área de transição dos lábios o melhor que pôde, acariciou a mão em seu peito com um sorriso torto e um tanto triste.
“A Senhora sabe que pode. Eu nunca lhe pedi nada a não ser abrigo, comida e orientação. Então não há de negar o último querer de um moribundo, não é?”
“Qualquer coisa, Dea.”
Ele engoliu em seco. Mal sentiu quando ela lhe afastou um cacho suado do rosto.
“Uma colher daquilo que a Senhora me ensinou a fazer, mas a nunca usar. Uma já basta.”
A mulher prendeu a respiração pelo que pareceu muito tempo enquanto ele falava e mesmo depois, absorvendo a informação.
“Tem certeza, filho?”
Andrea virou a cabeça no travesseiro com um movimento brusco e uma careta de dor.
“É o único jeito.”
Mais ou menos meia hora depois, a mulher voltou para um Andrea exausto e fraco com um frasquinho minúsculo decorado de filigranas e uma colher de sopa. Cutucou-o gentilmente; o medo dissipou dentro dela quando ouviu o ronronar suave da respiração e o lento abrir de seus olhos. Apesar de ser pequenina perto de Andrea, teve força para segurá-lo meio sentado na cama e esvaziar o frasco na colher e depois nos lábios do moço. Ele tomou a poção com a gratidão, lágrimas nos olhos e a obediência de uma criança, muito embora aquilo tivesse a textura e gosto de veneno ácido.
Sua visão ficou turva de repente, cortando para uma imagem da mesma senhora sorrindo de orelha a orelha ao vê-lo em pé novamente, ainda que com um grau de preocupação na expressão. Cortou novamente mostrando-lhe o bater de asas de um tordo marrom para a escuridão do bosque e outra vez para sua mentora afagando seu rosto e a barba por fazer, a mão descansando na gola da camisa enquanto conversavam à mesa... E virando devagar para seu pescoço. Ele acordou sobressaltado e sem ar, como se o houvessem estrangulado; a última coisa que se recorda de ter visto era o rosto de Dona Bianca por detrás de mechas de cabelo.
10/08/2019
sexta-feira, 9 de agosto de 2019
Oralidade
A pétala dos lábios
tão quente quanto os olhos
e o chá que bebes
para deixar as cordas mais leves...
Onde o prazer de um pio
não ecoaria ao vazio
e sim é lâmina que fundo corta
mas ainda lembra do que mais importa.
08/08/2019
tão quente quanto os olhos
e o chá que bebes
para deixar as cordas mais leves...
Onde o prazer de um pio
não ecoaria ao vazio
e sim é lâmina que fundo corta
mas ainda lembra do que mais importa.
08/08/2019
quinta-feira, 8 de agosto de 2019
Dignidade
Se alguém me perguntar
estarei entre o povo que acha
que em dedos como os teus
tal qual os meus
não cabe graxa
mas mancha de tinta
e o prazer
na gordura da batata frita
e no suspiro de uma mulher
ao amar.
08/08/2019
estarei entre o povo que acha
que em dedos como os teus
tal qual os meus
não cabe graxa
mas mancha de tinta
e o prazer
na gordura da batata frita
e no suspiro de uma mulher
ao amar.
08/08/2019
domingo, 4 de agosto de 2019
Riqueza
Meu reino por um colo como aquele
onde em pequena grandeza me vejo -
minha fortuna por outro beijo
que seja dele,
que me fique na pele.
Minha alma por um olhar
e um sorrir
que mesmo sem querer
veio aqui só para derreter
esta mulher
louca por ti
e por te amar.
04/08/2019
onde em pequena grandeza me vejo -
minha fortuna por outro beijo
que seja dele,
que me fique na pele.
Minha alma por um olhar
e um sorrir
que mesmo sem querer
veio aqui só para derreter
esta mulher
louca por ti
e por te amar.
04/08/2019
quarta-feira, 31 de julho de 2019
Bianca e o pássaro azul - excerto
Por mais que possuísse muitos
servos no palácio que poderiam fazer (e faziam) sua toda e qualquer vontade e
que iriam até os confins do mundo para obter o que ela quisesse sem que ela
mesma precisasse levantar um dedo, já que era uma princesa, Bianca, como de
outras vezes, fez questão ir à rua em pessoa escolher e comprar suas flores e
frutas favoritas para tê-las em seu quarto. Ficaria feliz em encontrar boas
laranjas, um bonito cacho de uvas escuras e talvez um ramo perfumado de
alecrim.
Conforme andava pelo mercado, era
cumprimentada por muita gente, já que o povo a conhecia como uma moça gentil e
de fala muito mansa que fazia o que podia pelos que lhe pediam ajuda,
intercedendo ao paradoxalmente generoso e inflexível rei, o seu pai. Naquele
dia ela andava acompanhada de uma de suas amigas, que era filha de uma família
nobre, e da serva que havia cuidado dela desde bem pequena junto com sua mãe.
- Sua Alteza já está moça, não
fica bem andar assim. – resmungou a criada.
- Assim como? Por acaso estou
pela rua sozinha, ou tarde da noite? – indagou a princesa. – Só quero minhas
florezinhas e frutas. Que mal há nisso? Além do mais, é bom que as pessoas
conheçam sua realeza para que possam contar com ela.
- Mas a Princesa cresceu e logo
vai embora... – a voz da criada soou maternal chorosa, como se Bianca já
estivesse muito longe dali. Ela estacou onde estava de braços dados com sua
amiga, uma jovem duquesa por nascimento, e olhou para a mesma com expressão
interrogativa no rosto franzido.
- Minha mãe ouviu falar que Sua
Majestade, o rei, decidiu que você já está em idade de se casar, então escreveu
cartas aos reinos e principados próximos para que mandem seus herdeiros como
pretendentes oficiais e que venham o mais rápido possível. – Sussurrou a
duquesa. – Isso não é ótimo?
- Não quando eu sou a última a
saber. E para quando os tais pretendentes são esperados?
- Semana que vem, no dia do seu
próximo aniversário, quando será dado um grande banquete anunciando que em
breve você ficará noiva. Metade da população já especula que os mais ricos
príncipes brigarão pela sua mão, já que minha Princesa e grande amiga é
considerada o partido ideal! – a duquesa curvou-se de leve, com o rosto corado
e uma risadinha brincalhona escapando nos lábios.
- Sua Graça está certa... Por
mais que me doa ver a Princesa partir, temos que rezar e fazer a nossa parte
para que tudo dê certo e Dona Bianca arranje um bom casamento... – disse a ama,
afagando a cabeça da princesa.
Embora soubesse que, mais dia,
menos dia, isso aconteceria, a mente de Bianca começou a girar e ela ordenou
que não mais se falasse no assunto. Ela descobriria mais quando voltasse para o
castelo, mas agora só queria um ramo de alecrim para lhe dar mais foco e
clareza para o que viria adiante; já que muito provavelmente seu dote a um
futuro marido incluía as terras férteis e belos palacetes que já eram seus por
direito, não duvidava que seu casamento fosse outro dos muitos casos de mero
acordo financeiro selado com a mistura do sangue de duas casas reais em laço
matrimonial. Era de se esperar, mas não deixava de ser triste. Sempre ouvira
falar que sua mãe aceitara o pedido de casamento do rei por amor, então
desejava pelo menos conseguir ter o mínimo de respeito e consideração por seu
esposo.
Dona Bianca separou-se um pouco
de suas acompanhantes e caminhou alguns metros à frente até uma banca onde uma
simpática mulher de meia-idade vendia ervas e flores, de quem comprou o sonhado
maço de alecrim. A vendedora sorriu, agradeceu e lhe desejou sorte,
aconselhando-a a guardar um dos raminhos em separado e colocá-lo em seu buquê
de noiva. A princesa guardou silêncio, acenou com a cabeça e, olhando um
instante para trás, dirigiu-se à banca ao lado, onde vendia-se frutas.
- Boa tarde! Suas laranjas
parecem bonitas... Por acaso você tem uvas também? – ela perguntou, sem tirar
os olhos da mercadoria.
- Laranjas bem doces e as uvas
favoritas de Sua Alteza. Boa tarde para a senhora. – respondeu uma gentil voz
masculina coberta de registro gutural, que mesmo rompendo o ar com leveza não
evitou que Dona Bianca se assustasse um pouco.
- Oh! Como você sabe?
- Um passarinho azul foi até a
corte e me contou. – Murmurou o rapaz, que logo fez uma mesura com as mãos às
costas. – Perdoe-me se lhe assustei, madame.
- Está perdoado. – Bianca
devolveu a mesura rezando internamente para um dia, quem sabe, não ser mais tão
assustadiça como um gato. – Três laranjas destas e o seu cacho de uva mais
vistoso, por favor. – pediu a princesa, que se pegou rindo do senso de humor do
moço quando ele se agachou de costas para ela para apanhar uma sacola onde
carregar as compras e as uvas, que ficavam conservadas no gelo.
- Aqui, madame... Suas uvas e uma
sacola... – ele soou tímido de repente, o corpo um pouco retraído. – Estão
geladas, se não se importa. Assim, permanecem frescas... Talvez queira chamar
sua aia...
- Não será preciso, obrigada! Já
tenho onde levar tudo. E é justo que estejam no gelo, assim como os belos
buquês de rosa que eu costumava ver por aqui. – Dona Bianca indicou a bolsa que
levava a tiracolo, onde já estava seu alecrim, e estendeu a palma direita ao
jovem.
- Eu acredito, Alteza. – Ele sorriu,
e a princesa percebeu que era um sorriso de criança, como de um menino. Aquilo
infectou a princesa, que pensou consigo que há muito não via um homem que
sorrisse assim. – Por conta de Andrea, seu leal criado. – Os olhos de Andrea
puxaram os de Bianca por um instante, logo antes de ele abaixar o olhar e a
cabeça quando seus dedos compridos roçaram aquela mão consideravelmente menor
que as suas.
A moça fez que não com a cabeça,
deu uma breve olhada no cacho, guardou-o na bolsa e, com a mão esquerda, sacou
duas moedas de ouro de uma fenda no corpete do vestido para entregar a ele.
Andrea tentou recusá-las.
- Não mesmo. Eu faço questão.
Dois ouros pelas suas lindas frutas. – Aceito o pagamento, seu rosto se
iluminou e sua voz soou leve, jovem e brilhante. – Agora me diga quais laranjas
estão mais doces, por favor.
O fruteiro guardou as moedas no
bolso do colete que ficava perto do coração e indicou que tinha quase certeza
de que aquelas que se reuniam na fileira mais perto de Bianca estavam
particularmente doces e suculentas. Deixou que ela apanhasse as que desejasse e
sussurrou que adoraria saber se foram do agrado da princesa, quando e se ela
aparecesse no mercado outra vez.
- Ou talvez por um criado... Se
não for muito atrevido da minha parte, é claro... – o rapaz tinha os cantos da
boca curvados para cima num apertado sorrisinho sem dentes.
- Não, não... – murmurou Dona
Bianca num fio de voz. Ambos se despediram com uma última mesura e logo ela
saiu para procurar a duquesa e a aia, que já estavam fora do perímetro do
mercado normal, o que a fez demorar um pouco na busca.
Como encontrou-as entretidas
entre sedas, brocados e rendas delicadas numa loja logo atrás da banca de
Andrea, perguntou em tom jovial se alguma delas precisava de um vestido ou xale
novo, sorrindo a quem se curvava em saudação.
- Claro que preciso de roupa
nova, Dona Bianca! – exclamou a amiga da princesa. – Não é todo dia que se é
convidado para um casamento real. – sua empolgação foi contida quando Bianca
sibilou em desaprovação com um dedo aos lábios. Não havia mais ninguém na loja
além delas e dos vendedores, para alívio dela.
- Alteza! Por que demorou tanto?
Se eu não tivesse que acompanhar a duquesa também, teria ido atrás da senhora
imediatamente... Nada disso é de bom tom. – disse a aia. – Imagine se a rainha
ou a duquesa descobrem ou desconfiam que não cumpri meus deveres!
- Ora, não exagere, minha
querida, o sol ainda não se pôs. E eu estava sendo gentil e educada com quem me
vendeu as frutas, como você e minha mãe me ensinaram. E estou feliz com o que
consegui. Olhem só que beleza... – Bianca abriu a bolsinha e puxou dela o cacho
de uvas ainda gelado.
- Ah, parecem ametistas ou pedras
de ônix, bem grandes e escuras! – admirou-se a duquesa, que trazia sobre o braço
um pedaço de veludo. – Onde conseguiu estas?
- Naquela banca logo atrás daqui;
as frutas dali me pareceram todas muito boas, o rapaz ainda deve estar lá... –
a princesa indicou com a cabeça a direção de onde viera e esticou o pescoço
para ver se encontrava Andrea em pé ou descansando sentado no banco alto que
havia visto antes.
Mas ele já devia ter ido embora. Por
algum motivo, tudo o que viu foi espaços vazios onde estavam as laranjas e
nenhum banquinho, caixa ou mochila atrás da tenda. Sobre o pedaço de tampo liso
da armação de madeira, percebeu apenas uma longa e bonita pena de pássaro, azul
escura. Escura como o vestido também azul que ela própria usava, que tinha
flores brancas com detalhes em azul claro aqui e ali ao longo dele todo, mesmo
nas mangas; flores bordadas à mão. Como as uvas que segurava, em cacho que caía
gracioso sobre si mesmo em espelho ao cacho moreno de Andrea, que nele ia até o
queixo.
Ainda restava algum tempo até que
o jantar ficasse pronto e o rei voltasse de suas reuniões com os lordes e
conselheiros da corte, então Bianca decidiu passá-lo em seu velho esconderijo
de infância comendo as frutas e pensando no que dizer a ele. Quem sabe não
teria algum tipo de voz no processo. Mas, considerando que era o milagre, a
única herdeira daquele reino, algo dentro dela a fazia duvidar que as coisas
andariam minimamente a seu favor.
- Fui criada apenas para ser
consorte e entregar meu reino a quem oferecer a melhor barganha, não para
governar de verdade... – ela sussurrou para o vazio. – Isso pode dar muito,
muito errado.
No entanto, as uvas que comprara
de Andrea estouravam tão fácil na boca e eram tão diferentes de tudo o que já
havia experimentado, que parecia haver algo nelas que aos poucos esvaziou e
acalmou os pensamentos de Dona Bianca, fazendo com que ela conseguisse realmente
caber dentro do espaço mais ou menos estreito, mas alto e de grande comprimento
atrás do retrato de corpo inteiro de uma antepassada na parede leste de seu
quarto. Quando chegasse a hora certa, voltaria a ser filha e saberia de tudo.
Mas não agora.
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