Me incluo entre aqueles que acham que as pessoas que mais amamos permanecem conosco de alguma forma depois da morte. Que alguém só desaparece quando é lembrado pela última vez, ou quando o último rastro deixado por essa pessoa finalmente desaparece.
Sou desses que de vez em quando ainda fala no clichê de que quem se vai se mantém vivo nas memórias e nos sentimentos. Mas vou além. Quem se vai permanece de formas sutis, nas quais a gente muitas vezes nem repara.
Eles permanecem nas unhas longas que nos caem melhor. Nos cabelos grossos. Nos óculos de grau com campo de visão maior. Nos olhos grandes e escuros. Nas duas palavras que de vez em quando ecoam na nossa cabeça. Nos trilhos de um trem. Em paredes de madeira. Naquela outra pessoa que nunca nos abandonou e nunca deixou de ter orgulho de nós. No mesmo ofício com instrumento diferente.
Eles permanecem na casa que no fundo sempre vai ser nossa. No vinho bom, na mariola e no pedaço de pudim. Na caligrafia que o tempo não comeu. Numa caixinha de madeira. No nosso olho apurado para o que de bonito, duradouro e gostoso a vida tem a oferecer. Numa caminhonete bege estacionada na rua. No jeito de fazer as coisas que se reconhece de longe. No privilégio de ser quem tem memórias dessas pessoas para contar.
Eles permanecem na verdade que uma hora acabou aparecendo. Na lembrança que não se tem e que se torna vazio consciente por um momento, mas que sempre existiu. No nome que não era só um nome. No fardo de viver certas coisas completamente sozinhos. No peso das expectativas e dos silêncios. Na nossa ânsia por algo mais e na nossa vocação. Na nossa sensação de incompletude que tentamos preencher do jeito errado.
Eles vivem nas promessas que a gente nem sabia que fez. Eles às vezes são mais importantes do que a gente imaginava… E não só porque nos damos conta do amor que carregamos por eles. Mas também porque, de um jeito ou outro, é por causa deles que ainda estamos aqui e somos quem somos.
25/07/2026
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