quinta-feira, 30 de julho de 2026

A vida no reino do talvez é mais possível do que se imagina

Talvez eu tenha herdado os olhos castanhos do meu pai para que a luz do sol não me cegue tão facilmente. Talvez a minha barriga não seja chapada pela gestação contínua não da vida de filhos, mas sim de todas as vidas que eu mesma nasci merecendo viver.

Talvez eu seja pequenina de corpo para que a grandeza do meu espírito seja o que se sobressaia. Talvez eu tenha as unhas longas da minha avó para que as minhas mãos menores não me impeçam de arranhar paredes e grades que tentem me prender.

Talvez o meu cabelo tenha se ondulado e frisado da puberdade em diante como um lento, mas insistente, espelho da minha verdadeira natureza. Talvez eu tenha pisado na ponta dos pés por um tempo e há muitos anos esteja quase sempre pelo menos um pouco acima do chão porque nem todo solo mereça minha presença genuína.

Talvez minhas costas sejam largas pelo tamanho do meu fardo. Fardo que, talvez, seja compensado pelo amor e calor que mal se contêm em meus seios fartos ao ponto de estarem rasgados por estrias. Talvez eu tenha baixa tolerância ao frio porque minha alma abomine a frieza das vidas vazias de quem não se conhece direito.

Talvez eu ainda faça perguntas que sei que são bobas só pela satisfação de perceber que sempre soube a resposta. Talvez eu escreva porque tenha mais a dizer do que minha voz seja capaz de articular. Talvez eu seja impaciente com meus processos porque saiba que, no fundo, em algum lugar, eles já têm resultado. Principalmente aqueles nos quais eu realmente sigo minha intuição.

Talvez as coisas que vejo durante os sonhos e que se realizam na vida concreta sirvam mesmo para me mostrar não só as escolhas à minha volta, mas também o meu próprio caminho. Talvez os amigos que eu achei que tinha perdido sejam os que mais mereçam permanecer e, justamente por isso, ainda estejam aqui. Talvez, ainda que não perceba, eu seja a pessoa que mais pensa grande entre aqueles que me acham acomodada e teimosa.

Talvez eu fale e pense tanto por fazê-lo em nome de quem se foi para que eu ficasse e de quem só existe de verdade no campo das suposições.

30/07/2026 

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