Não sei onde foi que se iniciou, esse hábito que pode ter virado defeito. Eu não era assim quando criança. Mas, em algum momento, eu deixei de estar aqui. Comecei a projetar o futuro e até a desejar já ser mais velha do que eu era. Não via a hora de completar 11 anos. Me pegava fazendo contas para ver em que ano eu completaria 14.
Ao contrário do que eu imaginei, minha vida não mudou da noite para o dia aos 14 anos. Não dá para dizer que nada mudou, mas essas mudanças foram por um lado profundas e por outro mundanas demais para corresponder ao ideal que eu tinha de mim mesma. A adolescência não foi a solução dos meus problemas e minha vida adulta está ainda longe de me dar uma que seja duradoura e fácil de identificar.
Fora a parte clássica de passar tempo demais no passado, de ter extrema facilidade de acessar memórias longínquas tanto boas quanto ruins e ser capaz de descrevê-las em detalhes. Talvez por isso minha idade interna de alma que no fundo sei ser velha não é apenas a de alguém mais jovem do que meu tempo cronológico.
Não apenas a de alguém que no fundo talvez ainda se ressinta tanto do que viveu e não pode ser mudado quanto do que não pôde viver e nada vai trazer de volta (pelo menos não do mesmo jeito). Talvez não apenas a de alguém que se sinta como uma criança pelo que tem tido que aprender sozinha, mas também de uma anciã que fala como quem já viu de tudo. Talvez eu tenha alma de criança e espírito de velho.
Foi provavelmente durante a época em que questionei praticamente toda a minha vida e fui forçada a enfrentar certas sombras que talvez eu tenha entendido, de algum modo primitivo, que o tempo era uma ilusão. Foi provavelmente lá que eu mais me culpei pelo passado e mais pensei no futuro sob a esfera do medo. E se não der certo? E se eu escolher errado? Onde eu estou? O que vai ser de mim? E não vou negar que ainda me faço essas perguntas. A diferença é que elas me assustam hoje sob um contexto diferente e, felizmente, um pouco mais sábio e tranquilo.
Ainda assim, acho que entendo um pouco do medo dos meus pais. Hoje tento focar mais nas pequenas coisas, repetidas ou não, que estou aos poucos entendendo serem sagradas. A companhia de um bom amigo, uma xícara de chá num dia frio, um banho bem tomado. Fazer o que me cabe um pouquinho a cada dia. Mas sim, eu entendo esse medo.
Vez por outra não consigo evitar me perguntar onde eu estarei daqui 10, 20, 30 anos. Se terei fugido de novo do meu caminho para viver a vida de outras pessoas. Quem estará comigo quando eu tiver que enterrar meus pais, porque eles só têm a mim. Se a minha paciência e trabalho de formiguinha terá dado algum fruto. Onde eu estarei morando. Se saberei escolher bem meu companheiro. Se viajarei bastante. Se poderei me vestir pelo menos um pouco como me vejo na minha cabeça. Se morrerei em paz ou com dor, entre amados ou sozinha.
Mas sei que, enquanto houver tempo, vou seguir tentando. Apreciando, descobrindo e escolhendo. Pode não estar visível (e na verdade é bom que não esteja), mas estou tomando minha vida nas mãos. E aprendendo que, o que eu não controlo, só me cabe observar.
01/08/2026
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