domingo, 13 de abril de 2025

Terra incognita ou Mar Morto

 talvez haja mesmo
algo
de vago
caro
e raro
no mal
necessário
do esmo
feito do sal
ário
à cuja guisa
de busca
como parte do caminho se torna
terra e rusga

em inferno repetido
no oásis que me foi descrito
mais de uma vez em verso -
só muda a língua,
só muda o tempo
e permanece o ar conquistado

já que afinal
é nele que está resto
preço
e história
com pouca glória
e em cuja queda
ainda meço
a milha continental
da perda

para a qual
vez por outra
ainda que torta
de novo me atrevo
a olhar.

 13/04/2025

segunda-feira, 24 de março de 2025

Às vezes a gente usa máscaras e nem percebe

 Às vezes a gente só quer se sentir forte. Quer ser levado a sério, evitar ser passado para trás. Tratar os assuntos sérios ou mais complicados com a naturalidade devida. Ficar à vontade com o que talvez ainda cause vergonha. Tirar das mãos dos outros o tanto da nossa vida que ainda está lá.

Às vezes só queremos seguir lembrando que, no fim, só temos a nós mesmos. Queremos nos proteger. Queremos focar na luz e beleza das coisas ao redor. Queremos nos sentir bem dentro da própria pele. Enxergar e viver de verdade a grandeza que nos pertence. Amar aquilo que vemos no espelho antes de dormir.

Muitas vezes, a pessoa só quer se entregar para a vida, apesar do medo. Sair do lugar que é mais cômodo, por mais doloroso que seja. Quer fazer as escolhas mais certas possível… Não só para o coração, mas para a consciência. Não quer desistir de si mesmo, nem de seguir a própria intuição.

Às vezes, só está procurando as palavras certas. Só se está tentando trilhar um caminho que dê num bom lugar no final. Só estamos fazendo o possível para nos sentirmos pessoas. Só queremos ter a sensação de que sabemos nos defender e cuidar de nós mesmos. Sentir que estamos realmente crescendo. Mostrar uma face diferente e conseguir se apropriar dela.

Mas talvez, só talvez, aquela pessoa esteja certa em algum nível… E no fim isso seja só mais uma máscara. Uma máscara que ainda não virou pele.

março de 2025

 

segunda-feira, 17 de março de 2025

Algumas pílulas são difíceis de engolir mas são um santo remédio

 O mundo te fará esquecer quem você é de verdade. O mundo te fará pensar que você é apenas um aspecto de si mesmo. O mundo te fará achar que todas as coisas permanecerão como estão, principalmente as ruins. O mundo te dará a entender que seu valor está naquilo que você faz.

O mundo te dirá que você não é o suficiente. O mundo te cobrará, muitas vezes, por mais do que aquilo que você pode dar. O mundo te gritará que você não tem escolhas. O mundo te induzirá a se distanciar do que te faz humano. O mundo não te deixará enxergar o que está diante dos seus olhos.

O mundo te contará mentiras, e pode ser que você acredite nelas. O mundo te convencerá de que apenas uma verdade existe. O mundo te encherá de um medo que pode te privar daquilo que você mais deseja. O mundo te fará confundir esforço por excelência com vício em perfeição.

O mundo te tornará pequeno, para evitar que você lembre da própria grandeza. O mundo te direcionará a buscar lá fora muito do que está dentro de você. O mundo tentará esconder de você aquilo que você tem de mais frágil, honesto e sincero. O mundo te nomeará soldado e general das mais árduas batalhas, e nelas você perecerá.

O mundo te apresentará a culpa e a vontade de culpar. O mundo te manipulará para odiar tudo o que menos merece ódio. O mundo te voltará contra você mesmo. O mundo te sussurrará que, antes do que você imagina, seu tempo terá acabado. O mundo berrará que o destino importa mais que o caminho.

O mundo te dirá, a um só tempo, que tudo é muito fácil e muito difícil. O mundo colocará um espelho diante de você, e você desviará os olhos. O mundo gozará que alguns obstáculos são intransponíveis. O mundo te testará até o último segundo, e você falhará. O mundo te colocará em lugares onde você não pertence…

Apenas se você deixar.

 março de 2025

 

segunda-feira, 10 de março de 2025

Tu não te moves de ti

 Uma das partes mais complicadas e dolorosas do amadurecimento e do autoconhecimento é se olhar. Se olhar e se enxergar de verdade.

Muito poucos conseguem parar para refletir sobre as escolhas que fizeram na vida até bem mais tarde, e talvez nunca. Outros, quando conseguem, acham que não têm mais tempo de modificar a própria postura, o próprio entorno. Outros, ainda, realmente o fazem tarde demais.

Em algumas ocasiões, é a própria vida que te faz parar tudo e questionar onde se está; o que se fez ou deixou de fazer. E, quanto mais a gente se deixa levar e adia o inadiável, mais doloroso se torna esse movimento. Machuca quem o nega e também quem toma parte nele, mas apenas um deles tem a chance de sair dali realmente transformado.

Com sorte, este não é um caminho que se percorre apenas uma vez. Isso porque, ao mesmo tempo em que é curta por natureza, a vida vem ficando cada vez mais longa para o ser humano. E, se as únicas certezas são a mudança e a morte, quem acorda da noite escura da alma precisa ficar atento para não voltar a dormir.

Estar acordado para reconhecer quem fomos, quem somos e tentar desenhar quem queremos ser. Saber nomear o que nos foi dado e permanece conosco; tudo o que não mais nos serve de modo geral; tudo o que sempre foi nosso e não há quem nos tire.

Afinal, não há mão que nos salve como a nossa própria. Não há caminho mais longo que aquele que ninguém pode trilhar por nós. Não há companhia mais leal e constante do que de alguém consigo mesmo. Não há sombra que dê mais medo do que a que tem o nosso contorno.

março de 2025

 

domingo, 9 de março de 2025

Feitoria

Tu me pintaste de ouro
com asas de anjo, aura de santa
sem um pingo de desaforo
me viste em grandeza tanta!
 
Tu me chamaste dourada,
luz de vida tão possível
em que até mesmo ser amada
parte um coração tão volúvel!
 
Tu me elevaste a divina
sem quem lhe cuide o templo
e tomaste para si a sina
de ser dono de todo lamento
que transfigura a face menina!
 
Senhora de um vazio me deixaste
herdando tão bela pintura
em que a tinta me traz de arraste
minha carne mais plena e pura!
 
09/03/2025

sábado, 1 de março de 2025

Deep fear II

Perhaps my greatest fear
is all that a heart can feel
and any love that comes too near
never seems to feel that it's real.
 
I am afraid of smile and tear,
of silence and of scream.
Being one's love, one's dear
breaks me, bursts me at the seams.
 
I seem to be scared of the very life
to which nothing I do is enough
to deal with joy, pain and strife,
so all I say sounds like a bluff.
 
I am afraid of my own shadow
and the death of this desire
for something greater than a border narrow
like a body consumed by a fire.
 
01/03/2025

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Serenata

O amor que levas em teu regaço
ilumina meus dias de sombra -
tua luz preenche todo o espaço
onde não parece haver outra.
 
Não congênito e, mesmo assim, um dom
de simples certeza, sem alarde ou pena
que tanto parece reger um tom
de alma feroz e também serena.
 
Quem dera todo amor fosse assim!
Se pretensão de virtude ou cura
mas que em cada início e fim
torna um meio riso a mais sólida jura.
 
24/02/2025

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

domingo, 9 de fevereiro de 2025

Deep fear I

Perhaps I am indeed afraid
of what love can make of me -
how wide and bare I am laid
if only for one eye to see.
 
Just a little girl scared of mommy
and of what the rest of you might say
if I don't behave and tell them I'm sorry
for just being myself for a day.
 
Afraid of becoming the woman
I deep down know that I am -
who goes out and feels good with a man
who loves her hair colour and whispers her true name.
 
She learned on her own of a law
she wishes not having to break
since apparently her real fatal flaw
is mistaking what is at stake. 

09/02/2025

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Fibromialgia II

Dói
O quanto eu quero amar.
Como dói
o quanto eu quero viver!

Muito me dói
todo o amor que não dei...
e me corrói
cada palavra que não disse!

E com isso dói
o tanto que ainda hei de chorar
pelo que é e o que foi
e, no que seria, sofrer!

Porque me destrói
o escuro que não enfrentei.
E já que não sou nenhum herói,
pior de tudo, a menor meiguice!
 
05/02/2025

domingo, 8 de dezembro de 2024

08/12/2024

O excesso de medo não nos faz mais sábios. 
Ele nos afasta daquilo que é para ser nosso
e que, no fundo, sabemos que queremos

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Duras sutilezas

O meu corpo é o altar
feito do tapete e toalha
em pele
perante o qual ele
sem falha
há de rezar.

O meu amor é o queimar
de mais de mera palha
que bebe
do que sele
vitória em batalha
ao se gabar.

O meu querer é o sentenciar
em lei que melhor me calha
apesar do medo que repele
a mente deste ou daquele
e tente me tornar pária
meramente a flutuar.
 
05/12/2024

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Anne de Green Gables - resenha

Anne de Green Gables é o primeiro volume de uma série de romances de formação escritos pela autora canadense L.M. Montgomery durante o século XX, mais precisamente, neste caso, 1908.

Este primeiro volume apresenta a protagonista Anne Shirley, de quase 12 anos, recém saída de um orfanato. Sua vida muda para sempre depois que ela acaba adotada por um casal de irmãos e vai morar com eles na pequena fazenda de Green Gables, situada em Avonlea, interior da Ilha do Príncipe Eduardo.

Os 38 capítulos são narrados em terceira pessoa por narrador onisciente que se demora em descrever o ambiente e contar os fatos de acordo com a visão de mundo do personagem em foco - em especial Anne e sua família adotiva, os irmãos Cuthbert. Assim, tendem a apresentar uma perspectiva mais tímida e austera vida dos adultos, e algo muito mais imaginativo, honesto e otimista em se tratando da menina Anne.
 
Os capítulos tratam da adaptação de Anne ao seu novo contexto - do desejo de fazer amigas verdadeiras e ter um lar, passando pelo espírito competitivo na escola, os erros dentro e fora de casa e os desafios de aproximar da idade adulta.

Uma das coisas mais interessantes de se observar é o quanto as pessoas de Avonlea aos poucos são cativadas pelo jeito sincero de Anne, ainda que não consigam acompanhar seu raciocínio ou mesmo que a achem estranha e incorrigível para os padrões esperados.

As longas falas de Anne podem soar cansativas ao público desavisado ou mesmo para quem já tem familiaridade com períodos longos. E pode ser que a tendência a exageros da personagem possa desagradar. Porém, acho que faz sentido para a pouca idade, senso de desprendimento e entrega de Anne aos sentimentos, desejos e experiência.

Considero esta no geral uma história bonita e bem escrita, apesar das partes melosas. A recomendo para quem gosta de ler sobre crescimento, oportunidades, pertencimento e a manutenção de um olhar e um coração o mais serenos e puros possíveis diante dos fracassos e exigências da vida.

08/11/2024

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Elpída

Tell me there will come a time 
when this will be more than a story 
but a thing I feel and have in my body 
way beyond this mind of mine 
 
Tell me that even with every flaw 
I shall get what I deserve, 
for it is letter of law 
and a wish born in the nerve. 
 
Tell me I'm really gonna be okay,
that I'll change, that I'll expand 
and learn to appreciate the pathway 
that takes to my true homeland.
 
25/10/2024

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Missal IV

Eu verei o que tem de ser visto,
entenderei o que tem de ser entendido,
sentirei o que deve ser sentido,
curarei o que deve ser curado.

Porque posso, 
porque devo,
porque preciso.

E porque tu estás comigo,
às minhas costas, ao meu lado.

Pois tua flecha não erra,
tua mira é certeira,
tua luz brilha mais que tudo
e tua espada é fio de pura chama.

09/09/2024

domingo, 18 de agosto de 2024

Trincheiras

Vem, amigo...
cuida da tua criança,
deita comigo,
não deixa que nada me aconteça.

Dane-se o castigo,
me ajuda a ser inteira com o que me falta
na paz e no perigo
e a matar o que me mata.

É conhecimento antigo
que o homem é digno de dó...
Beija o universo no meu umbigo
e promete não me deixar só?

Perdoa se pelo que digo
parece que nunca vou crescer...
Quem dera fosse outro o inimigo
e as mortes não fossem por um viver...

Mas quando o desejo é antigo
não há outro jeito senão lutar
nem que seja por voz, colo e abrigo
se isso for tudo o que me sobrar...

18/08/2024

quinta-feira, 18 de julho de 2024

Do aconchego

Colo de esposo
é trono
sedoso -
tudo bem se fazer de bobo.

Colo de deus
é templo
camafeu -
tudo é lindo do lado de dentro.

Colo de mãe
é casa
anciã -
permanece até quando a visão embaça.

18/07/2024

terça-feira, 16 de julho de 2024

Herança

Como a vida é louca
por me dar o gosto
pela tua boca
do mundo escuro e luminoso...

Talvez tenha sido aqui
que o amar e chorar como arte
eu aprendi
e agora, ah, Deus que me ampare!

Pois no tanto que nos é distante
me faltou lábios, me faltou pele,
não houve corpo ou nudez o bastante
para sentir a mim, a nós, a ele...

Não há volta
do que marcou
o fundo da memória
e faz parte do que sou...

16/07/2024

sábado, 1 de junho de 2024

01/06/2024

É de suficiente silêncio 

das profundezas 

que a água da criação borbulha 

e se faz ouvir

sábado, 13 de abril de 2024

Gancho

De momento despida
do medo
dentro do segredo
do amor
e da vida
em todo o seu calor
que me arde,
em ti me toco, de parte a parte.
 
Assim beijo tuas mãos,
pulsos,
pescoço
e formoso rosto
ainda que me queimem os olhos.
 
Enterrados
meus dedos
em teus negros
cachos,
estando perdidos
por entre os louros
de lá voltam cheios
dos nossos versos.

Ainda mais se te vejo
a ti e a eles envoltos
no teu e em alheio gracejo
dentro dos olhos
dos certos...

13/04/2024

Pode levar tudo, menos o meu direito de sentir

Me deixa chorar pelo que eu perdi e pelo que eu posso perder. Me deixa não me arrepender de absolutamente tudo o que digo. Me deixa escolher...